- Um real por cada pensamento! - Falei, e ela me olhou, com um leve sorriso.
- O que foi? - Perguntou, delicada, em um tom um pouco triste.
- Porque é que você tá desse jeito?
- Não é nada! Relaxa!
- É sobre o garoto que você tá afim? Não se preocupe, dará tudo certo! - Comentei, sendo otimista, o que não pareceu ajudar.
- É o que temo! - Sussurrou para si mesma.
- O que disse?
- Não foi nada! - E se calou. Entendi que ela podia estar nervosa e não queria falar sobre o assunto, então resolvi deixar por isso mesmo.
Quando chegamos no local onde era a festa, percebi que era em um apartamento. A fachada estava feia e descascando. A entrada era por uma escada que levava ao 2º andar, ao lado do prédio. Pela janela, dava para ver luzes coloridas girando e piscando, o ambiente era apenas mantido por luzes de abajures com lâmpadas fracas. Lá dentro era mais quente.
Quando entramos, Judh saiu logo de perto, alegando que precisava falar com uma garota da escola que ela havia avistado. Rose soltou meu braço e se afastou um pouco.
- Obrigada por dividir comigo um pouco do seu, hum... Calor! - Disse, agradecendo, sem saber como se pronunciar.
- Sempre que estiver batendo os dentes de frio! - Respondi, e nós rimos.
- Como está a coisa toda lá na tua casa? - Sussurrei, puxando ela para um canto.
Demorou um pouco para responder, a expressão mudando, mas finalmente disse:
- Está um pouco complicada né? Primeiro dia em casa sem papai no comando... É estranho. - Não parecia querer falar sobre o assunto, então ela mesma mudou a expressão para mais alegre e disse:
- Vamos lá pegar algo para beber? - Disseram que tinha ponche batizado...
- Será verdade? Não tem adultos aqui? Pais? Sei lá, alguém...
- Não! Foram viajar, e o cara tem uns 16 anos.
- Não duvido... Nossa! Faz tempo que não bebo! - Desabafei, chegando na mesa da cozinha e pegando um copo.
- Começou a beber cedo? - Perguntou para mim, curiosa.
- Sim. Estava com uns 10 anos. Fiquei de porre com uma amiga e acordei na manhã seguinte sem saber onde estava, com minha blusa rasgada de um lado e com sangue. A garota com quem fui estava nua em um sofá. Peguei ela e demos o fora.
- O que era o sangue?
- Ela me contou que teve uma briga e eu, que nunca tinha bebido e tive efeito rápido, pirei. Me meti na briga, pulei em um cara que estava com uma faca. A faca enroscou e rasgou minha blusa. O sangue era do cara, um arranhão cruel que eu provoquei nele e, quando ele me jogou no chão, a minha blusa roçou no rosto dele.
- E ele não te pegou?
- Não. Aquela maluca me tirou de lá e fomos parar na casa que eu te falei.
- E como sabe que fez isso?
- Ela me contou.
Fiquei em silêncio, olhando para os lados, vendo se encontrava Judh.
- Você vai precisar ser bem convincente, ou ela não vai acreditar.
- Não acredito que vou trair a confiança de uma amiga só para ajudar ela dessa maneira...
- Você precisa! Vai ter algumas consequências difíceis de aguentar, mas precisamos confiar que vamos conseguir.
- Não sei se consigo.
- Fala. Ou vai dar uma de fraca agora?
- Não!
Peguei meu celular e escrevi uma mensagem para a Kath, quase chorando enquanto enviava. Eu nunca chorava por ninguém. Devia considerar muito a amizade dela.
- E agora? Já tem um plano para parecer super apaixonado por mim? - Falei, ficando de mau humor pela tristeza.
- Tenho! Desabafando!
- Desabafando? - Estranhei.
- Sim.
- Então, comece.
- Eu... - Ele parecia estar com dor, mas os olhos brilhavam, fascinados, enquanto falavam dela, como se o mundo dele só dependesse dela. - Eu estou completamente apaixonado por ela. Ninguém sabe o quanto eu a tenho desejado. Onde ela vai, fica a marca rebelde dela. Quando passa, sinto seu perfume. Quando canta, é a criatura mais angelical e fascinante do mundo. Eu quero protegê-la de tudo, mesmo que esse tudo inclua a mim.
- Continue. - Disse, ficando com ânsia de vômito de tão nervosa. Será que ela estava nos vendo juntos? Dei uma espiada, e tinha bastante gente na frente. Ótimo, Deviam só estar vendo ele. Isso me dava tempo.
- Os cabelos dela são lindos... Os olhos... A boca... - Ele falou naquele momento de uma maneira, que percebi que realmente nunca havia beijado ela, mas que queria muito. - Eu fico quase louco quando ela se aproxima. A vontade que tenho de pegá-la no braços e correr para longe é horrível. Mesmo que eu sentisse muita dor, iria, se não tivesse o perigo de morrer e perdê-la...
- Tô vendo que você está mais do que encantado por ela. - Peguei suas mãos. - Ela está vendo isso? - Ele deu uma olhada com o canto do olho - Está... - Ele soltou o ar devagar. Parecia que passaria mal a qualquer momento.
- OK! Eu não quero perder a amizade dela e quero que vocês fiquem juntos, apesar de tudo. Eu não quero que ela volte para o canalha do Frederico! Então ela vai ter que saber logo. Tudo!
- Eu falarei o mais rápido que puder, quando encontrar uma solução! Eu não posso perdê-la Judith! Se isso acontecer, não sei... Eu enlouqueço ou me mato!
- Não diga isso, vai dar tudo certo!
- Então, se prepara, porque é agora! Disse, se aproximando, me segurando pelos cabelos e firmando o outro braço na minha cintura, se abaixando devagar.
- Precisamos mesmo nos beijar? Não que você não sirva, mas não quero te beijar porque, você sabe, a Kath...
- Eu entendo! Também não quero, mas pelo menos um beijo pequeno tem que sair, ou só vai ficar mais difícil para você explicar o que aconteceu depois.
- Tem razão.
Eu vi que as pessoas estavam se afastando e pude ver Kath e Rose me procurando pelo canto do meu olhou, e a expressão de surpresa, espanto e tristeza no seu rosto, que foi de partir o coração.
Estava na hora
________::::::::;;;;;X:::::::::::___________ - Onde será que a Judh foi?
- Como vou saber? Não sou o cão de guarda dela e não sei farejar... - Respondeu, ficando desanimada de tanto procurar e não encontrar Judh.
- Meu Deus do céu Kath, não olha agora, mas o canalha do Fred não para de olhar para cá.
Do que adianta ela avisar? Quando alguém diz "não olha agora" aí é que você olha mesmo, de ficar encarando. Ele olhava mesmo para nós, sorrindo quando olhei de volta e ergui o copo, em sinal de cumprimento. Ele olhava para os lados, parecia que iria checar se não tinha mais nada para fazer e que ninguém viria a falar comigo, para finalmente se aproximei.
Quando notei a possibilidade, logo olhei para outro lugar e vi o Dyeiden.
Estava lindo.
Talvez eu nunca o tivesse visto tão lindo quanto naquele momento. Bem arrumado para a festa, com uma camisa listrada que lhe caía muito bem e falava com alguém, inicialmente sério. Eu não pude ver quem era, pois tinha muita gente na frente. Entrou uma mensagem no meu celular.
Por favor, me desculpe Kath
Era Judh! O que será que ela teria feito de tão grave a ponto de me pedir desculpas assim, no meio de uma festa, e ainda por cima por uma mensagem no celular?
- Só nas mensagens? - Perguntou Fred, aproximando-se, tentando puxar uma conversa.
- Pois é... Não tenho muitas escolhas. Não sou assim tão popular na Encanted, então tenho que achar algo pra fazer... - Droga! Só agora eu vi que a Rose tinha ido no banheiro, abrindo uma brecha para ele se aproximar.
- Pois é, notei que você estava sozinha e resolvi conversa um pouco contigo.
- Sei... - Respondi, mandando outra mensagem para Judh para saber o que estava acontecendo.
Não obtive nenhuma resposta.
- Olha, Princess Rock, eu juro que não queria perder sua confiança! Sempre fomos grandes amigos, eu sempre adorei a sua presença. Perdia a noção do tempo com você... - Começou a acariciar e enrolar mechas do meu cabelo nos dedos, enrolando até em cima, para ter a oportunidade de acariciar meu rosto e se encostar em mim. Era o movimento sedutor dele, sua marca. - Gostaria de poder passar mais tempo com você! Quero me redimir! Não troquei você pela Célya! É uma vaca. É só você quem me inspira.
- Então, se é tudo verdade, porque ficou com ela? - Retruquei, duvidando que tudo aquilo fosse verdade.
- Bem... Porque... Eu precisava socializar aqui, e ela me pareceu a porta, o caminho para isso.
- Bom, se quer começar, pegue outro copo pra mim! - E lhe entreguei meu copo vazio.
- OK! - Sorriu, e foi para a cozinha.
Eu estava encostada em uma parede, na sala.
Quando voltou, eu peguei o copo, espiei para ver se não tinha nada de perigoso dentro e virei o copo, bebendo tudo de uma vez. Desceu rápido, gelando minha garganta, e me deixando um pouco tonta.
- Ok, quem sabe eu esteja disposta a te perdoar, mas tem que provar valor pra mim. Você baixou muito o nível.
- Eu sei, desculpa. - Me puxou da parede e pegou minhas mãos. - Me perdoa? - E fez aquela carinha de cachorro de quando etá implorando e ficou de joelhos. - Por favor?
- Vou pensar no seu caso!
- Isso! - Comemorou, porque sabia que quando eu dizia isso era porque seria um sim no futuro.
Alguns colegas nossos se aproximaram e Rose voltou, ficando ao meu lado.
- Nada ainda?
- Não!
Eu já estava esquecendo de como Dyeiden estava maravilhoso naquela roupa e olhei de novo. Meu coração doeu por algum motivo.
Seus olhos brilhavam, e ele estava de uma maneira que... Só vi nos filmes, de homens se declarando!
- Ai! - Resmungou Rose, esfregando a mão no peito.
- Que foi? Tá com dor? - Perguntei, preocupada.
- Me deu um aperto no peito, uma sensação ruim... Medo.
Voltei minha atenção novamente para onde Dyeiden estava, e ele parecia estar fazendo uma grande declaração de amor. Aquilo estava me ferindo, me dando muita ansiedade. Meu peito batia descompassado, desorientado e decepcionado. Eu rezava (nem me lembrava que eu ainda rezava) para que o que eu via, mas não ouvia, não fosse o que parecia. Comecei a tremer e a suar quando vi ele tomar as mãos da outra pessoa e acariciar com os dedos. Me senti totalmente exposta naquele momento, como se estivesse nua ali, no meio da sala, apesar de estar com um casaco grande e roupas por baixo.
Eu logo vi que eram as mãos de uma garota, e vi que ele parou de falar para ouvir o que ela dizia, fazendo que sim com a cabeça, olhando para onde eu estava, como se eu não percebesse. Eu conhecia aquelas mãos...
Foi então que aconteceu
Rose também olhava embasbacada para a cena e Fred virou para olhar também.
Ele puxou a garota para seus braços, segurando-a firme, como se ela pudesse fugir, enrolando uma mão nos cabelo ruivos e um braço na cintura. Não podia ser.
Algo dentro de mim caiu no chão e quebrou, em 1 milhão de pedaços e eu fiquei sem chão.
Judith e Dyeiden
Eles começaram com um beijo tímido, que logo se tornou apaixonado, com algumas pessoas parando o que faziam e olhando para eles. Eles chamavam muita atenção, e eu me sentia novamente humilhada, só que em público. Aquilo não chegava nem perto de um tapa na cara, era logo uma facada no coração.
Eu estava devastada por dentro, não conseguia acreditar.
Tinha vontade de rir e de chorar. O segundo venceu, com uma lágrima escorrendo do meu rosto.
Me sentia duplamente traída, com o peso daquela cena aumentado e aumentado na minha frente, me cortando, picando e jogando fora, sem nenhum escrúpulo ou bondade.
Meu estômago embrulho com a bebida e fiquei com um gosto horrível na boca. Iria vomitar.
Somente ouvi Rose me chamando de volta enquanto eu corria para o banheiro no fim do corredor e trancava a porta, vomitando até ficar com as pernas bambas.
Me sentia frustrada. Algo importante havia quebrado dentro de mim, e eu ainda não sabia o que era.
Comecei a sentir sombras ao meu redor, me tocando, falando comigo, com meus olhos me pregando peças, meu medo e minha tristeza tomando conta de mim. Mais do que nunca, eu queria tomar a porcaria do antidepressivo que fazia com que eu ficasse bem e não visse sombras, nem surtasse, porque, naquele exato momento, eu via a imagem de uma garota com um corte na cabeça no canto do banheiro, em pé, me olhando. Aquela imagem me assombrava desde criancinha, e os remédios evitavam que eu ficasse deprimida a ponto de ver ela.
Comecei a chorar. Estava morrendo de medo. Me encolhi, e fiquei daquela maneira, ao que pareceram horas.
Quando saí do banheiro, Rose ainda tentou vir falar comigo, mas eu simplesmente passei por ela e fui em direção à porta. Vi pelo canto do olho quando Judh tentou vir falar comigo e Dyeiden a impediu, segurando ela pelo braço. Muito bem! Eu não queria que eles falassem comigo. Não por enquanto.
O vento frio começou a bater no meu rosto no momento que pisei do lado de fora, me abraçando como um manto frio, como se a minha morte estivesse vindo me buscar. Respirei fundo para me acalmar um pouco. A mulher do banheiro não me seguia mais. Pequena melhora. Desci as escadas e ia tomar a rua quando alguém me puxou pelo braço e me abraçou. Aquele abraçou era gostoso, terno, quente. Tanto que perdi a vontade de lutar para me soltar, de tão familiar que aquele corpo parecia para mim. Quando olhei para cima, vi Fred olhando para mim.
Relaxa, vem comigo.
Ele me pegou pela mão e me levou para o outro lado da casa.
Eu aproveitei para me encostar na parede, procurando apoio, e ele me abraçou, com os braços na minha cintura, o rosto próximo do meu.
- Anda, melhora essa cara. Ainda tem um cara aqui do seu lado, todinho pra você.
- Eu sei, é que... Me sinto mal com isso e...
- Eu também sou apaixonado por você, Kathlyn!
Olhei para ele com choque. Nunca esperei ouvir isso dele.
- F-Fred, eu... Não sei nem o que dizer...
- Não diga nada! Deixe o seu coração falar.
Apesar de magoada, eu ainda o olhava nos olhos, sentindo o calor do seu olhar em mim. Ele estava com o corpo todo tocando o meu, me deixando com muito calor, um calor diferente do normal, que vinha de baixo para cima, estranho para mim. Ergueu meu rosto com a mão em punho no meu queixo, eu com os olhos fechados, sentindo aquele calor me envolver. Provavelmente eu estava excitada, normal na minha idade. Ele passou as mãos nos meus cabelos, prendendo os dedos nos meus cabelos e me segurando na nuca, fazendo eu ficar com o rosto voltado para ele, me segurando firme, acariciando minhas costas. Seu rosto roçava no meu, fazendo cócegas, e distribuindo beijos pelo meu pescoço, delicados e quentes.
- Você é tão linda... Essa pele... Caramba, eu sou louco por você! - Dizia, entre cada beijo.
Eu não tinha vontade de lutar, mesmo com ele se aproveitando da minha situação, eu não queria lutar, porque, no fundo, sentia proteção e gratidão por ele estar ali comigo, e me entregava cada vez mais.
- Quando... Ai... Quando descobriu que eu sempre fui apaixonada por você? - Sussurrei, meio gemendo, a mente ficando nebulosa com o prazer daquelas carícias.
- Sempre soube! - Disse, com olhos em fogo olhando para os meus.
- Sempre?... Porque nunca disse... Caramba... Porque nunca me disse... Que também sentia o mesmo?
- Porque nunca tive a oportunidade, gata! Mas agora, tenho!
Ele me olhou fundo nos olhos, passando os dedos nos meus lábios, mordiscando meu queixo. Me soltou de repente.
- Porque nunca me disse o que sentia? - Perguntou, com o braço estendido sobre a minha cabeça, apoiando-o na parede.
- Você nunca deu sinais de que sentia o mesmo, então... Bem, tinha medo de ser rejeitada! - Confessei, e ele sorriu.
- Porque eu seria louco de rejeitar a loira mais linda e rebelde da minha escola, por quem eu sou apaixonado? - Me abraçou novamente, firme, e eu pude perceber partes do casaco dele amassadas, onde eu havia agarrado e cravado as unhas com força, sem perceber. Sorri para ele.
- Eu não sei! - E ele me beijou.
E não foi nada do que eu imaginei que fosse. O beijo que eu imaginava que aconteceria, tão quente, emocionante e apaixonado das duas partes, ou com o mínimo de desejo de cada um... Era frio.
Eu não sentia absolutamente nada mais por ele, e infelizmente aquilo estava se confirmando com o beijo. Era uma situação estranha, e eu não sentia muita coisa dele, apenas desejo, pela maneira como ele me provocou. Quando parou, respirava com dificuldade. Eu não. Me olhava sorrindo.
- Você é incrível mesmo! - E me beijou de novo, dessa vez passando a mão na minha pele por baixo da roupa. Eu não estava gostando daquilo e do rumo que estava tomando.
Então Dyeiden apareceu, nos interrompendo.
- Kath!
Imediatamente Fred me soltou e se pôs entre nós.
- O que você quer? Já não fez o bastante por uma noite? - Fred perguntou.
- Kath, por favor, precisamos...
Fred deu um soco nele, pegando-o de surpresa, fazendo-o cair no chão.
- Deixe ela em paz! - Avisou Fred.
Dyeiden levantou e devolveu o soco, e assim se seguiu numa briga. Quem estava na festa começou a sair para assistir a briga. As meninas viram Kath, mas não deu tempo de fazer nada.
Ela tomou a rua e correu.
- Caramba, será que ela me viu? - Judh não parava de fazer essa pergunta. - Não dá! Como posso suportar minha amiga de mal comigo por causa de uma armação?
- Judh, por favor! Eu estou pensando! Ou acha que eu também não estou mal com essa situação? Mas o que está feito, está! - Rebateu Dyeiden, nervoso.
- Me expliquem novamente o que foi aquele beijo! - Falei, ainda não acreditando que fosse tudo uma armação.
- Rose, por favor? Ainda duvida de nós? - Me perguntou Judh, perplexa com as minhas duvidas sobre seu caráter. - Como pode duvidar de mim?
- Eu não sei! Eu sei que você também está triste e estava também com medo do que iria fazer. Mas como eu poderia imaginar uma traição?
- Por favor, não diga isso! Foi tudo para proteger Kath de se magoar futuramente. Aquele beijo foi só uma atuação, não significou nada para nós!
Eu os observei em silêncio. Pareciam dizer a verdade.
- Se é tudo verdade, então, porque? - Perguntei, sem alterar a voz.
Eles custaram a responder. Judh andava de um lado para outro com uma mão cobrindo a boca, o ar preocupado. Dyeiden também, mas um pouco inclinado e com uma das mãos na parte de trás da cintura. Parecia ao mesmo tempo desolado, ao mesmo tempo não. Judh respondeu primeiro a minha pergunta.
- Ele tem passado mal cada vez que se aproxima dela.
- Mas e porque não evita contato com ela? - Perguntei.
- Além de morar na mesma propriedade, estou completamente apaixonado por ela! - Declarou, os olhos lilás olhando para mim, mudando para um roxo escuro e sofrido, indo para vermelho sangue e voltando ao lilás original. Era o único olho que eu já tinha visto com uma cor especial e a dilatação mais ainda. Ele definitivamente era um de nós.
- Nossa, então, a hora está chegando? - Perguntei, mesmo já sabendo a resposta.
- Está! - Respondeu Judh, parecendo amedrontada.
- Então precisamos contar para ela, e agora! Assim, será mais tolerável para todos, e mais fácil também para ela.
- Eu tenho sentido ela! - Revelou Dyeiden.
- QUÊ? - Perguntamos eu e Judh, ao mesmo tempo.
- Como sentido ela? Como nós sentimos? - Perguntou Judh para ele, apontando de mim para ela.
- Sim! E ainda tem mais!
- Mais? - Perguntei.
- Sim! Mais alguém, como uma presença!
Não respondemos. Se eu não estivesse sentada sobre a beirada da mesa da sala, tinha caído. Cada um de nós possuía apenas um único irmão de alma, fosse da mesma linha da família ou de uma das outras 4, sendo da mesma idade ou não. Mas dois? Era quase inacreditável que ela não os sentisse. Eu teria de lhe explicar essa parte. Desci da mesa e falei a eles:
- Vamos atrás dela. Precisamos explicar tudo para ela, senão esse problema vai se arrastar por anos mais... E a nossa dor também.
- Muito bem, então vamos atrás dela. Não sei se ela vai dizer alguma coisa sobre o que aconteceu, mas isso ela precisa saber.
Saímos para fora procurando ela. Fomos para a frente do prédio, fizemos a volta, perguntamos para outras pessoas que estavam na festa. Nada. Até eu me lembrar que Fred estava dando em cima da Kath. Fomos procurar pelos dois, Dyeiden ficando muito nervoso, e muito vermelho, além do vento frio que batia no seu rosto, em meados de final de Junho, começo de Julho. Logo estariam em férias de inverno.
Foi na correria que foram passar para o outro lado da casa e flagrar Kath avermelhada contra a parede, com Fred lhe dando um enorme beijo, o corpo grudado no dela, deixando seu corpo menor prensado e sem saída. As mãos estavam sob seu blusão, parecendo que iria despi-la ali mesmo, no frio.
- Faça alguma coisa! - Sussurei para o Dy, chocada com a cena.
- Kath! - Chamou Dyeiden, fazendo Fred soltá-la e se afastar. Se pôs no caminho.
- O que você quer? Já não fez o bastante por uma noite? - Fred perguntou.
Ela parecia que iria vomitar a qualquer momento outra vez, mas devia ser surpresa e pavor.
Dyeiden se aproximou, sem medir limites.
- Kath, por favor, precisamos...
Fred deu-lhe um soco, derrubando-o para trás, por não estar preparado.
- Deixe ela em paz! - Avisou Fred.
Dyeiden levantou, fazendo começar uma briga de abrir grandes cortes e de ficarem sujos de rolar no chão, que virou barro por causa do movimento e da umidade.
Quando notamos, Kath estava correndo. Eu até pensei que poderia chamá-la de volta, mas não adiantaria. O cerco pegou fogo.
- Cara, tu é muito babaca mesmo! Podendo pegar a Kath, que é uma gata, vive dando trela pra você, e fica aí, se fazendo de durão. - Berrou Fred, irônico e melancólico.
- Você não sabe de nada! Sou louco por ela! Mas você também não pode falar nada. Traiu a confiança da garota que era mais apaixonada por você! - Devolveu Dyeiden, triste.
Notei que eles só iriam se provocar, e resolvi eu mesma acabar com a confusão. Me meti no meio da briga que levaria um tempo e tirei Dyeiden de lá.
- Temos que procurá-la!
Ele concordou e, chamando Judh para nos acompanhar, corremos dali para a rua, em meio ao frio, com a esperança de encontrá-la sã e salva.
______::::::::X:::::::________
Eu estava na festa, apenas observando de longe! Liberei as chatas que vivem me seguindo e fiquei em um canto, apenas olhando o desenrolar da cena à minha frente e bebendo!

E olhem só. Quem diria. Judh traindo aquela por quem ela me trocou com o garoto ridículo a monstrinho gosta.
Querida, você realmente se supera!
Vai ser mais fácil do que imaginei me vingar delas, uma vez que a Kath correu para o banheiro depois de ver a Didi e o Dyeiden-sem-sal se beijando no meio da festa.
A Ro ainda tentou consolar, aquela sonsa. E ainda fica do lado daquela duas-caras.
Hahahahahah. Isso sim é que é prato cheio! E ainda a Kath se deixou ser seduzida e consolada pelo meu capacho idiota, Fred.
Estou todas em guerra declarada!
Já avisei Marcelo, e ele está pondo os rapazes à procura delas, para lhes pregar uma peça daquelas.
Vai ser um arraso!

