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sábado, 21 de novembro de 2015

Pass X Fure Capítulo 10: Rosely, a valente e corajosa por trás da boneca frágil

Não desmaiei dessa vez, durante a viagem pelo Portal. Fiquei com o estômago enjoado e tonta. Sentia o gosto da bile na boca e pontos piscando nos olhos. Aquela sensação era horrível, pois parecia que eu desencarnaria a qualquer instante, que todas as células do meu corpo iriam se afastar permanentemente e eu desaparecia no espaço-tempo. Tentei fechar os olhos e só piorou. Quando senti uma mão apertando a minha naquele redemoinho, naquele vento que batia contra o meu corpo fazendo meu cabelo ficar eriçado e todo embolado, cobrindo meu rosto e se enroscando em todos os lugares possíveis ao redor da minha cintura, sem libertar minha visão, foi que voltei para a realidade e abri os olhos.
Dyeiden me olhava, o cabelo chicoteando seu rosto e entrando nos olhos as vezes, fazendo-os lacrimejar. Segurava minha mão com força, tentando segurar a outra. Eu demorei um tempo para alcançar minha mão para ele, com aquele vento fazendo agora um dos tecidos subir e enrolar nos meus braços, me prendendo, parecendo alguém tentando me matar.
- Procure se acalmar! - Gritou ele, com o vento impedindo as palavras de saírem normais. - Se ficar nervosa como está agora, isso vai acontecer! Seu medo é cair no espaço escuro e ficar presa no infinito. - Disse, apontando ao redor.
Aquele lugar ficava escuro e claro, com forma de riscos e contornos coloridos e, olhando para baixo, era um olho de furacão de diversas cores, a coisa mais linda e horripilante de se ver, para quem está caindo no espaço do nada.
- NÃO ESTOU COM MEDO! - Gritei de volta para ele de forma ríspida, para parecer que estava com raiva.
- Está sim, senão seu vestido não enrolava em você, assim como seu cabelo, e você não estaria muito pálida, batendo os dentes e suas mãos geladas como as de uma morta! - Descreveu com calma todos os sintomas do que eu tinha. Mas que droga, porque ele tem que saber tudo sobre mim?
- Porque estamos neste lugar? Para onde você nos trouxe?
- Estamos dentro do portal! Você só não sabia disso porque nunca conseguiu ficar acordada aqui dentro. Desmaiava no mesmo minuto! - Explicou.
- Não sou fraca! - Gritei.
- Eu não disse que era! Você só era jogada de uma entrada para outra, mas agora, como eu estou aqui com você, estou mantendo sua consciência porque sou uma espécie de estímulo, como um sacolejo, e antes você não tinha isso.
- E quando tempo isso leva? - Perguntei, olhando para os lados, na esperança de visse um ponto de luz que indicasse que estávamos saindo dali.
- Cerca de 15 minutos!
- Merda! E o que vamos fazer? - Reclamei, não aguentando aquele voo no mesmo lugar, com os pontos pretos escurecendo minha visão outra vez. Como que percebendo o que acontecia, ele me puxou para mais perto, me abraçando. - Ei, fique comigo, ok? Fique acordada! - Balancei a cabeça, entendendo o que ele dizia.
Já não aguentava mais aquela queda livre em lugar algum. Foi quando Dyeiden falou:
- Já se passou bastante, então deve ser por lá que passaremos... - Ele mostrou com a cabeça, um círculo branco, bem abaixo, que parecia com o olho do furacão a distância. - É muito frio nessa parte... Tem certeza que estamos indo ao lugar certo?
- Talvez... - Disse ele com um meio sorriso no rosto. Encarei-o de maneira a parecer emburrada, e ele riu. - Claro que deve ser o lugar certo. Temos a linha do tempo, e a ligação. É mais do que raríssimo cair no lugar errado!
Quando nos aproximamos o suficiente para ter certeza de que ele realmente estava certo, algo aconteceu. Começamos a rodar. Rodamos muito, muito depressa. O vento batia com uma força assustadora, chiando alto demais para o meus ouvidos, mas eu não poderia cobri-los com as mãos, senão teria de soltar as de Dyeiden, e tinha medo de algo dar errado caso isso ocorresse. Mas, para meu completo pânico, o vento foi nos puxando de maneira irregular e, nossas mãos suadas de nervosismo, escorregando uma da outra. Sentia uma eletricidade nas mãos, uma forte corrente elétrica, que parecia que estava segurando várias canetas de choque, com uma corrente interminável correndo das minhas mãos para as dele, e das dele para as minhas. Mas, no momento em que nossas mãos escaparam, fui jogava com força para longe, e mal percebia que gritava descontrolada seu nome, apenas notei que gritava, apavorada. Ele gritava meu nome, sendo silenciado quando foi jogado com força para o centro daquele redemoinho branco e gelado, soltando um grito estridente ao se chocar contra uma espécie de espelho, que se estilhaçou e ficou rodando no mesmo lugar. Não acabei desmaiando, com o excesso de adrenalina fazendo meus ouvidos estalarem, conseguindo ouvir as batidas do meu coração. Estava assustada, com medo de ficar ali para sempre, pois o vento parou, e eu fiquei sem me mover por diversos minutos. Então, do nada, o vento soprou forte demais e eu estava sendo arremessada contra uma parede de gelo. O choque foi forte.
Senti dor em todo o corpo, mas não parecia sangrar nem ter quebrado nada, mas... Não podia respirar. Estava dentro d'água.


O completo pavor tomou conta de mim! Não queria morrer ali, no completo espaço vazio, sozinha...
Mas meu corpo não estava molhado, e não mais pesadas do que realmente eram. Pareciam até... Mais leves. Estava tão apavorada, que chegava a sentir meus pulmões queimando, não só de prender a respiração, como também tinha certeza de que meus pulmões estavam enchendo de água. Quando não aguentei mais segurar o ar, soltei e por reflexo puxei o ar de volta. Levei alguns instantes intermináveis para perceber que não estava me afogando, e sim, que meu pavor e prender o ar eram os causadores daquela sensação. Abri os olhos, que estava fechando com força sem perceber, e olhei em volta. Eu estava em uma espécie de piscina, no fundo, mas não me afogava.
Lá haviam reflexos de luz, e o lugar parecia não ter fim. Foi quando olhei para cima que vi. Estava de cabeça para baixo. É no fundo havia uma luz brilhante, de vinham reflexos, como da luz do sol. Dei impulso e fui nadando até lá.
Foi quando não senti mais o impulso da água e tudo ficando mais claro que notei que havia encontrado a saída.

Fui arremessada no meio do sótão sem perceber, simplesmente fui jogada de volta ali. Não caí com nenhuma leveza ou graça, nunca fiz ginástica, e o máximo que fiz foi ir a uma aula de ballet com 5 anos, mas era a ovelha negra e desagradava a professora, porque será? No cair, apenas tive tempo de por as mãos acima da cabeça e dobrar o corpo, e saí rolando rápido como uma bola de boliche, apenas parando ao acertar em cheio uma caixa virada em um canto, cheia de panos velhos dentro, e ficando presa dentro dele, toda torta. Tirando os cabelos do rosto, vi que Dyeiden veio em meu socorro, estendendo as mãos e me puxando para fora da caixa, de modo que eu desentalasse da posição onde meio que grudei nos trapos do fundo. Caindo sobre os joelhos e saindo de marcha-ré, levantei e senti o corpo muito mais leve e, só quando notei Dyeiden me avaliando de cima a baixo, foi que percebi que o vestido enorme tinha sumido, e que eu estava novamente com o vestido velho do armário, minha roupas originais por baixo.
- Está tudo bem? Se machucou? - Perguntou Dyeiden, apalpando de leve meu corpo, para ver se havia algo quebrado.
- Não, acho que tá tudo bem! - Sorri levemente pra ele,
- Será?
Fiz que sim com a cabeça.
- Bom, então... Vamos descer!
Enquanto descíamos, ouvimos o som de alguém subindo rápido pela escadaria. Era um homem, que parou ao alguns poucos degraus de diferença de nós, eu descendo um degrau na frente do Dy. O homem deu um leve sorriso quando paramos, encarou Dyeiden e falou:
- Seu celular tocou, achei que precisasse ver aquelas mensagens! - Falou. Não gostei do seu tom. Parecia sugerir aquelas mensagens como da outra. Fiquei com uma sensação ruim.
- Que mensagens Dyeiden? - Perguntei, tentando me intrometer, me esticando para olhar a tela do celular dele, que aquele cara tinha alcançado.
- Não pode ficar se intrometendo assim na vida dos outros, senhorita Kathlyn! - Falou, virando a tela e passando por mim na escada. Fiquei parada olhando os 2 descerem os degraus sem me chamarem.
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Me joguei na cama, com uma pontada no peito. Quem será que mandou uma mensagem para o Dyeiden que ele não quisesse nem mencionar o nome? Ele até parecia já ter esquecido o que aconteceu minutos atrás... Já eram amigos, certo? Se bem que esse negócio de amigos estava me incomodando, como eu estava ficando doida por ele e não era correspondida. De novo. Eu tinha mesmo um grave problema de afastar os garotos. Será que eu seria como nos contos de fadas, que a única pessoa com que você consegue ficar depois de passar a vida sozinha era com seu príncipe encanto, e que as vezes ele não era flor que se cheire, na vida real?
Me sentia cansada, meu estômago se contorcia, e lembrei que não tinha almoçado. Outra vez. Será que tudo era como a lenda do Triângulo das Bermudas na sua vida, que só voltava a se repetir?
Dyeiden tinha saído sem nem olhar para trás, como se não houvesse ocorrido nada. Sentiu-se muito enciumada de repente.
Pegou o celular ao lado da cama e começou a digitar.
- Sabe se o Dyeiden tá fincando interessado em outra guria?
Enviei, não esperando uma resposta imediata, mas foi o que recebi.
- Caramba mulher, tu te preocupa demais com os gosto desse guri, para um pok! Tu sabe que a minha suspeita é q sim, ele gosta de ti!
- É, mas não é o que ele demostra muitas vezes! Me parece muito bipolar! Estávamos descendo do sótão, e ele começou a manda sms pra alguém, e se afastou quando tentei ver quem era... Será que era outra garota?
- Chega de paranoia! Eu te proíbo! Até pq, ninguém é besta de n v cm vcs se olham!
- Eu n olho pra ninguém, para vc c isso!
- Ata! Sabe cm eu sei? Vc nunk + tok no assunto F.M. percebeu?
Eu apenas olhei para a tela. Não. Eu não tinha percebido isso. Tenho que ser muito burra pra não notar que não procurei mais o Fred depois do que aconteceu no banheiro.
- Vc é muito leviana, sabia?
Kath riu. Não era fácil ter uma amiga como essa, que na maioria das vezes era bobinha e desligada, mas que era mais ligada na vida que todo mundo. Aquela cabeleira ruiva escondia uma geniazinha ainda adormecida.
Resolvi então perguntar para quem mais tinha no quesito "garotos indecisos".
- Axo q o Dyeiden tá querendo outra guria, o q eu faço?
Demorou pra resposta vim, e quando veio, era áspera.
- Vc é doida!? Duvido muito! Ele gosta d ti e pronto! E n me perturbe + c essas perguntas bestas.
Credo, o que deu nela? Parecia incomodada com a pergunta como eu nunca vi!
Estava absorta em pensamentos, inventando mentalmente diversas possibilidades e chances de outro garoto me trocar quando ouvi uma batida na porta e uma voz familiar me chamando.
- Kath? Está aí? Não vi você descer para comer! Tomou seu remédio?
Minha mãe!
Droga
Não lembro a última vez que tomei aquela porcaria desde que cheguei aqui! Vamos arriscar então!
- Tomei mais cedo, não se preocupe! - Precisava mentir, ou não me livraria dela.
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Maravilha! Outra vez na droga desse colégio, só que, dessa vez, sem aquela Paty-metida me enchendo a paciência!
Andando pelo corredor, notei que algumas pessoas me olhavam com um sorriso no rosto. Estranho. Tipo, muito, muito estranho mesmo. Ninguém olhava pra mim naquela escola, não com um sorriso no rosto! Mais a frente, algumas pessoas até começaram a me cumprimentar. Tá, isso ta esquisito já.
Vi a Rose num canto, tentando desesperada e sem sucesso parecer invisível cobrindo o rosto com o cabelo. O maior problema é que ela tem um cabelo ruivo-alaranjado muito brilhante e vivo que destaca de longe, e sendo ela bem baixinha pra uma menina de 16 anos, dava pra vê aquele ponto de fogo desajeitado e nervoso de longe.
Cheguei silenciosamente por trás dela, pé por pé, e a cutuquei logo abaixo das costelas, com os indicadores, fazendo ela dar um pulo, contorcendo-se e gritando de susto.
- Ai, caramba! Kath, como você faz isso comigo? Aqui? - Perguntou ela, incrédula.
Eu ria da maneira como o rosto dela ficou todo vermelho de susto, e de como ela franziu o nariz e cruzou os braços, enfurecida.
- Isso! Vá rindo de mim! Mas você vai ver na próxima! - Avisou.
- Que próxima? - Perguntei, parando o riso e me encostando na parede.
- É mesmo, você chega depois de mim... - Lembrou-se.
- E não nos desgrudamos mais até meu horário de pegar o transporte!
Como se acendesse uma luzinha na cabeça dela, deixando seu cabelo muito mais brilhante, o rosto pálido iluminado, olhos arregalados brilhantes, ela teve uma ideia, que parecia o descobrimento do século.
- Porque não dorme na minha casa ou na da Judi? Afinal, hoje é sexta! Podemos passar o fim de semana juntas!
- Taí, não é má ideia não! Mas tenho que avisa minha mãe pra me trazer umas roupas.
- Então liga logo, que já ligo pra minha mãe e aviso a Judi!
Quando peguei meu celular na mochila pra ligar, o sinal tocou!
- Depois eu aviso ela, vamos entrar, ou teremos problemas com a monitora. - Falei, empurrando ela em direção a nossa sala.
- Queria entender o porque desse seu medo todo de se meter em pequenas encrencas, principalmente com a monitora.
- Uma hora eu te conto, e você vai entender!

Ao sairmos para o pátio, Rose contou sua ideia para Judith, que olhou séria para ela, até mesmo surpresa, e pela expressão pensei que ela ia bater na Rose por fazer aquele convite. Olhou de uma para a outra e falou:
- Durma na minha casa amanhã, que a confusão vai ser menor, e hoje na sua Rose!
Concordamos, e ela perguntou: - Então, já ligo pra tua mãe pra pergunta se tu tem permissão? - Perguntou Judith, com um sorriso divertido nos lábios. Peguei o celular e corri para um canto para ter privacidade. O celular deu dois bipes até minha mãe atender.
- Alô?
- Yoland, sou eu.
- Oi filha. Precisa de alguma coisa? 
- Vou direto ao assunto! As minhas amigas me convidaram para passar o fim de semana na casa delas, e eu só to avisando porque não vou voltar para casa e preciso de roupas!
- Acha que ela vai conseguir? - Perguntei a Judith. Ela sempre sabe a resposta para tudo!
- Você ainda duvida?  Essa garota é doida! Ela vai conseguir!
Dava pra ouvir a Kath perto da parede gritando no telefone com a mãe dela, que parecia tão furiosa que dava para ouvir as palavras cortadas do que diziam.
- Não, mãe... Não, não me importo mesmo com o que você pensa... Pode mandar o exército atrás de mim se quiser, vou assim mesmo... E você acha que isso adianta?!... Já fugi com facilidade de um reformatório, de casa não seria o melhor lugar pra você me manter em cativeiro!... O que é que ele tem a ver com isso?... Eu vou e pronto! Pode jogar minhas roupas na porta da casa da Rose se quiser...
E ela desligou. Começou a vir em nossa direção, o olhar um pouco triste e um grande sorriso falso nos lábios. Judith percebeu, eu sabia que sim. Podia sentir.
- Ela deixou! Vai deixar uma bolsa com o básico na sua casa Rose! - Falou ela enquanto guardava o celular na mochila.
- Falsidade sem limites, Rock girl - Perguntou Judith, com um sorriso maldoso, estendendo a mão - Bem-vinda ao clube.
- O que? - Perguntei com arrogância, pondo as mãos na cintura, de modo a desafiá-la a repetir o que disse.
- Nada! - Ela recolheu a mão.
O sinal tocou para o fim do intervalo, e para todos serem liberados da aula, pois teria reunião de fim de semestre e não teriam professores atendendo. Estávamos nos dirigindo para a saída quando um garoto se aproximou rapidamente de Judith, tocou seu braço e deu a ela um bilhete dizendo apenas "destrua isso depois de ler" e saiu com um grupo que passava.
- Carta de um admirador Judith? - Falei, rindo.
Ela leu, ficando momentaneamente com o rosto como uma pedra, rasgou o bilhete inteiro, pegou um isqueiro que ela carregava no bolso da calça  jeans, acendeu os papéis e largou tudo em uma lixeira, enfiando as mãos nos bolsos da jaqueta, saindo sem olhar para trás.
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Oi meninas! Chegaram cedo... - Era a mãe da Rose, que já esperaria alguém hoje.
- Não tinha mais turnos hoje por causa do Conselho de Classe e da reunião de professoras de fim semestre! - Explicou Rose rapidamente, quase atropelando as palavras, como sempre. - A mãe da Kath vai deixar uma bolsa aqui mais tarde com algumas coisas dela, pra ela poder passar o fim de semana na cidade comigo e com a Judi! - Avisou Rose, antes que eu pudesse me pronunciar.
- Ok, podem deixar que eu cuido disso!
- Vem comigo! Vamos deixar as mochilas no meu quarto!
Quando viramos para entrar no quarto dela, encontramos seu irmão, Chris, que saía do quarto ao lado do de Rose. Também tinha acabado de chegar da escola, pois todas as escolas da região tinham conselho nos mesmos dias, e todos tinham turnos reduzidos, incluindo as creches.
- Ei, mana, essa não é aquela sua amiga que entro pra banda da sua escola essa semana? - Perguntou, depois de nos cumprimentar.
- É ela sim... Mas, como você sabe Chris? Eu não te contei nada ainda. Mal conversamos sobre a escola essa semana! - Especulou ela, olhando de testa franzida de um para o outro.
- Eu vi no Youtube o vídeo! As garotas da minha turma ficaram doidas com as músicas e gostaram da voz  de vocês! Vai fica popular mana! Muita gente também gostou da sua roupa Kath! Querem até que tenha um show! - Falava ele animadamente. Realmente ele ficava solto quando se sentia bem com alguém que ele gostava por perto. Ficava com as mãos leves dançando na frente do rosto enquanto gesticulava. Tinha cílios longos, e parecia gostar de mostrar isso, pois piscava frequentemente.
Eu e Rose nos sentimos bem com o que ele disse, e eu fiz um comentário sobre "entender os olhares na escola hoje".
Depois de sair do quarto dela, ouvimos um barulho da sala para a cozinha e, quando fomos ver o que era, encontramos Jev, o caçula da família da Rose, que parecia endiabrado, sem roupa, correndo pela sala enrolado em um tapete, todo sujo de barro do quintal da casa, fugindo da mãe dele, trepando em cima de tudo o que podia, virando objetos e cobrindo tudo de barro. Parecia se divertir com a mãe correndo atrás dele, exausta, tentando pegá-lo no colo para levá-lo para o banho. Ele dava altas gargalhas, achando a correria divertida. Quando pulou da mesa de centro da sala, deixando para trás uma marca de banho na quina, virou o rosto e viu que estávamos na porta da sala, assistindo ele botar terror na casa as 10 da manhã. Foi tentar fazer graça para nós correndo mais rápido e, percebendo tarde demais que tinha um tapete prendendo o seu pé, tropeçou, virou uma cambalhota e caiu sentadinho no chão, o corpinho chacoalhando ao se chocar com o chão de madeira da sala. Antes que percebesse, a mãe o agarrou pelas pernas e o levantou para cima daquele jeito mesmo, segurando-o pela cintura logo depois, de costas para ela, Jev esperneando até o banheiro, com a mãe tentando cobrir suas partes, na tentativa de evitar que eu ficasse constrangida, afinal, eu não tinha irmão, mas não que eu nunca tivesse visto um menino pequeno encapetado pelado. Passou por nós, comentando "vocês não iriam querer estar aqui mais cedo para ver o que aprontou!" E foi com Jev pendurado até o banheiro. Havia parado de se debater.
- Porque ele é tão agitado? - Perguntei, olhando para a Rose, depois que a mãe dela fechou a porta do banheiro e ligou chuveiro, com o gritedo de Jev reiniciando.
- Eu não sei! Mamãe fala que talvez ele seja muito hiperativo, não se concentra bem e quase não para pra nada! Na escola deixa os professores quase loucos! - Falava, enquanto sentava no sofá e ligava a tevê!
- O-K! Vô leva isso em consideração se eu ficar sozinha com ele em algum momento e ele quiser aprontar. - Falei, surpresa que o irmão dela tinha um ponto pra parar. - E é só ele, ou todos vocês eram assim quando pequenos - Fiquei curiosa de repente, imaginando a Rose tímida muito capeta quando criança, virando a casa de pernas pro ar, com a irmã mais velha doida atrás dela.
- Na verdade, só a minha irmã, Carol, era assim quando criança pelo que a minha mãe conta. - Fez uma pausa - Acha que isso ajudou a afetar o cérebro dela. - Concluiu, e nós rimos ao lembrar o desastre ambulância que a Carol era dirigindo.
Estávamos assistindo aos desenhos no Bom Dia e cia. por não ter nada melhor pra faze, quando ouvimos um barulho vindo do quarto da Rose. Nos viramos ao mesmo tempo para ver a seguinte cena: Chris saindo do quarto dela lentamente com um salto nos pés muito grandes para ele, que o faziam tropeçar, muita sombra colorida nos olhos e purpurina no rosto, uma peruca de cabelo castanho com chiquinhas curtas dos lados, um vestido de fada cor-de-rosa, uma varinha de condão com uma estrela na ponta e uma fita amarrada e uma coroa de princesa.
- Droga, como ele encontro a minha fantasia? - Falou Rose, pela primeira vez eu vendo ela parecer adulta. Pulou por cima do sofá e correu até ele tentando arrastá-lo pro quarto dela novamente.
- Mano, por favor, vamos lá para dentro de novo? Vamos botar outra roupa? Você que o papai não gosta de você vestido assim, se ele vir você... - Tentava argumentar, sem muito sucesso. Parecia nervosa e preocupada, as bochechas em fogo, mas o tom carinhoso. Ele se recusa a obedecer, alegando não entender o porque de não gostarem dele vestido assim e que queria me mostrar a roupa. Depois que concordei que ele ficara lindo, para alívio dela, ele aceitou trocar de roupa, mas antes disso acontecer... Chegou o pai deles! Parecia bem cansado! Era um homem grande, ombros largos que faziam ele parecer um armário, cabelos levemente grisá-los nas têmporas, deixando que o ruivo do cabelo destacasse ainda mais. Largou a maleta na bancada, com a expressão de quem está para morrer, com olhos semi-abertos, a boca também, e muito vermelho. Afrouxou a gravata, indo pegar um copo de água.
Nesse meio tempo, Rose que já quase fazia o irmão entrar para dentro do quarto, sem querer perder tempo, parecendo esconder um cavalo roubado no quarto e não seu irmão, deu um chute na bunda do menino, fazendo-o cair de cara no chão, fechou a porta e tentou disfarçar com um grande sorriso no rosto. - Oi pai, como foi no trabalho? - Gaguejou, um pouco nervosa, enquanto ia de volta para o sofá. - Lembra da Kath, minha colega de classe? Ela vai ficar aqui até amanhã!
Voltando a atenção para as meninas, já com o rosto na coloração normal, parecendo perceber a presença das meninas pela primeira vez na sala, cumprimentou-as, meio sem vontade. - O que fazem vocês duas? Perguntou, vindo para trás do sofá, com o copo na mão.
- Só estamos assistindo TV, por não ter mais nada pra fazer! - Respondeu, cuidando a porta do próprio quarto discretamente.
O pai da Rose, pondo uma mão grande no ombro da filha, questionou-a: - Querida, não deveria ter pedido a sua amiga para lhe ajudar com os deveres? Não foi você mesma que disse que ela era excelente nas matérias? - Ela encolheu-se, mas, como uma troca de pensamentos, respondemos as duas ao mesmo tempo: - Menos em Educação Física!- Então nos olhamos surpresas e rimos. Aquilo aliviou um pouco o estresse ali... Até o pai dela ir para perto da porta do quarto. Ela parecia uma leoa protegendo o filhote escondido do predador. Saltou novamente do sofá, ao perceber que iria mesmo entrar, quando pôs a mão na maçaneta.
- Papai, não é melhor o senhor ir trocar de roupa? Parece desconfortável! Nessa época, o senhor enfrentando esse tempo... - Ela meneou, estalando a língua - Isso não faz bem! E ainda que vai esfriar novamente mais tarde. Eu vi a previsão! Sabe que com esse tempo maluco, em meados de maio, aqui, não pode bobear! - Ela falou tudo isso distraindo o pai, se colocando entre ele e a porta, distraindo-o para se afastar. Então aconteceu o inesperado.
Chris saiu do quarto, vestido com suas roupas normais novamente, tentando chamar a atenção do pai, para o completo assombro de Rose, também me fazendo gelar de medo por ele.
- Papai, que bom que chegou! - Ele correu, abraçando o pai e erguendo a cabeça para olhá-lo. Ao fazer isso, o pai foi fazer carinho na sua cabeça e pareceu ver algo no rosto do menino, que, ingenuamente, pensou não levantar as suspeitas. Passando os dedos de leve no rosto do menino, virou a mão para cima e eu e Rose vimos o que era, em choque. O rosto de Chris ainda estava brilhante de purpurina.
O pai deles, de testa franzida, apenas disse, calmamente, mas evidentemente controlando a voz: - Filho, vá lavar o rosto, que à noite conversaremos sobre isso! - E o soltou. O garoto deu de ombro, pensando não ser nada, e foi para o banheiro.
Rose veio de volta para o sofá, muito pálida. Ela estava tremendo, mas tentava disfarçar para eu não me preocupar. Pôs a cabeça nas mãos, triste, e desabafou: - Eu tenho medo pelo meu irmão! Da ultima vez que papai o viu assim, ele estava com um batom muito vermelho e dançando na sala. Ele apanhou até as pernas cortarem. Mamãe fez os curativos e não o deixou ir para a aula por 3 dias. Pediu que guardássemos segredo, para tentar protegê-lo, mas isso não adianta... - Ela perdeu a voz, embargada por tentar conter as lágrimas. Nesse tempo, começamos a ouvir gritos e risos vindos do banheiro, e saiu um Chris, agora de rosto limpo, mas ensopado até os ombros, e um Jev que ria descontrolado.
Rose respirou fundo, puxou os cabelos e virou, perguntando com uma falsa alegria: - O que aconteceu lá dentro?
A mãe dela, que secava os cabelos, toda molhada pela batalha para dar banho no caçula, respondeu:
- Adivinha, filha? Jev não para, você sabe! Então, o Chris entrou para lavar o rosto enquanto eu terminava de vestir o Jev e... Ele aproveitou o Chris debruçado na pia brincar de cavalinho ali mesmo, quase o afogando com a cabeça mergulhada. Quase não deu tempo de tirá-lo! - Respondeu, cansada. Era uma mulher linda, de cabelos negros, com aparência de uma jovem de 20 anos. Estava observando enquanto Jev caçoava de Chris por não se defender de suas brincadeiras.
- Querida, porque você e a Kath não vão para o quarto estudar, ou fazer qualquer coisa? - Perguntou a mãe dela, com um sorriso doce.
- O-OK mãe... Nós... Vamos sim! - Concordou, dando um sorriso de volta.
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No meio da tarde, resolvemos sair para dar um passeio, e a mãe da Rose nos pediu para passar na farmácia comprar algumas coisas que precisavam.
- Porque ela pediu para comprar essas coisas aqui da lista na farmácia, se tudo isso tem no mercado? - Perguntei, lendo a lista. Eram desodorantes, cotonetes, lixas de unhas e outras coisas do tipo.
- Porque lá é mais barato, e ela tem desconto por ser funcionária da Secretaria de Saúde! Então, pra ela nós sai tudo quase de graça!
- Puxa, deve ser ótimo!
- E é! Menos quando tá atendendo o seu Fausto lá. Aquele homem é uma praga. Sempre diz que o cartão de funcionário da minha mãe tá com problemas e não passa, aí eu tenho que voltar em casa pra ela ir, e aí é que dá certo. As vezes eu tenho a suspeita que ele faz isso porque é apaixonado por ela! - Cochichou ela, me fazendo rir.
Tínhamos passado a manhã inteira lendo os livros, porque a média da Rose estava na linha e o pai dela tinha ficado quase uma fera porque não foi uma média maior, como a minha, que foi de 8 à 9. Só não brigou com ela porque ela tinha conseguido média. Senão...
- É aqui! Se prepara para ver quem nós vamos encontrar aqui! - Avisou, com um risinho.
- Quem?
Quando entramos, fomos para o setor de higiene e beleza da mulher, caçar uns esmaltes que a mãe dela tinha pedido, quando alguém pulou nas minhas costas, me assustando, e eu, após gritar de susto, vejo no ultimo minuto aqueles cabelos ruivos que eram a marca da família da Rose. Rindo, brinquei: - Judi, você pode acabar matando alguém assim!
- Mas foi engraçado você ter gritado de susto, e nem ao menos me viu, mesmo com esse espelho na sua frente! - Me virei para olhar para um espelho, que ficava na prateleira de sombras para os olhos. E não era pequeno. Me senti enrubescendo.
Pensei que você não estaria aqui hoje!? - Falou Rose, indo para o lado de Judi.
- Pensou errado guria.
- Mas o que você faz aqui? - Perguntei, sem entender aquela conversinha das duas.
- Bom, é legal eu ter um primo que é dono da farmácia aqui! - Disse, com ênfase na palavra dono. - Eu venho aqui fuxicar, pegar algumas coisas e também dar uma força! - Explicou.
- Então você fica de funcionária de vez em quando?
- É. Isso mesmo! - Ganho uns trocados do meu primo. Ele é bem legal. E ainda venho quando eu quero. - Gabou-se, nos guiando até as prateleiras que tinham quase tudo da lista que a mãe da Rose deu.
- Parece que a tia tem sexto-sentido em te mandar aqui exatamente nos dias que eu venho xaropear o pessoal!
- Sei lá! Parece até que a minha mãe liga pra cá só pra me mandar duma vez pra fala contigo.
Elas riram juntas.
Enquanto pegávamos tudo que estava na lista, eu parei para olhar um rímel de uma marca que gosto, e, meio escondida atrás da prateleira, vi que entraram duas garotas com um garoto junto e vieram as duas para a prateleira ao meu lado, passando por mim, e deixando o garoto perto de outras prateleiras, na frente da farmácia.
Eu fiquei ouvindo sem querer a conversa delas enquanto revirava os produtos por não ter o que fazer, quando vi aquela cabeleira loira entrando pra dentro, cambaleando, usando uma mini-saia curtíssima, uma blusa com um decote em v profundo e toda aberta atrás, presa apenas no pescoço, meias 3/4 pretas, uma mini-saia tão curta que quando ela se inclinava um pouco para se apoiar nas prateleiras dava para ver a calcinha colorida. Os cabelos estavam desgrenhados e a maquiagem, borrada. Andava cambaleante entre as prateleiras, mas conseguindo ver a sua frente o que havia.
Eu me escondi na prateleira atrás da que as duas garotas estavam, que conversavam distraidamente. Rose e Judi nem haviam notado que eu tinha me afastado, melhor assim.
Quando Célya viu o garoto perto da prateleira checando a hora no celular, foi até ele, toda atirada, ponto as mãos espalmadas no peito dele e debruçando-se sobre seu corpo, falando com a voz estendida e enrolada de quem está muito bêbado.
- Olha, você até que é bem gatinho... O que você acha ti ir pra rua... - Começou a fazer sons estranho e rir de leve, como se tivesse contado uma piada que só ela entendesse - E irmos dar uns pegas. Você tem um corpo forte, então deve ser fácil pra você me dar um trato, que eu não arrumei homem que preste pra faze ixxxxxo - Falou com ênfase no preste, puxando a cintura do garoto para mais perto do corpo dela. Parecia muito miúda perto daquele garoto, que devia ter uns 1,80m.
Ele estava se apoiando nas prateleiras, claramente tentando se desviar dela, de suas investidas nada sugestivas e cuidadosas de quem está no maior porre. Até senti pena dele, afastando o corpo, a ponto de se apoiar nas prateleiras, derrubando algumas coisas, enquanto ela tentava convencê-lo.
- Ora... Vamos garotão... Você não gostaria de se divertir um pouco comigo? Posso fazer tudo o que você quiser... Ou posso fazer tudo aqui mesmo... - Completou, tentando abrir o cinto dele, não tendo sucesso com as mãos que desajeitadas e a visão a enganando.
- N-Não é isso, é só que eu...
- O que? - Perguntou ela, ficando enfurecida.
- Bem, eu... - E deu uma olhadela para as prateleiras, na direção em que estávamos.
E a conversa estava furiosa entre as duas garotas:
- Quem é aquela piriguete ali? - Perguntou uma.
- Quem? - A outra olhou.
- Quem é aquela garota com o Lucas? - Perguntou novamente a primeira garota, uma morena alta, de corpo esbelto e de postura firme.
- Aquela? É a sobrinha da diretora daquele colégio... Pa. Joaquim Spil, eu acho, o que fica perto da entrada da cidade, o que chamam de Encanted!? - Falou, como se tivesse descoberto um tesouro, um pouco eufórica. - É Célya. Rebecca Célya Albuquerque, sobrinha da diretora. - Respondeu apressadamente, mostrando que era muito bem informada.
- A rainha da escola, hein? Essa garota é uma oferecida! Eu vou lá para dar um jeito nisso... - Disse, largando na prateleira o que tinha na mão.
Eu me movi em silêncio para o lado delas, e disse, como quem não quer nada:
- Eu iria logo se fosse você! É só um conselho, mas... - Me aproximei, para um sussurro - Ela tem fama de ser ladra de namorados, faz com que comam na palma da mão dela!
A garota arregalou os olhos, virou-se para a outra menina, de cabelos pretos na raiz e vermelho nas pontas, forçando a bolsa para que esta segurasse. - Eu vou lá Julia, e não respondo por mim. Vou dar um jeito nela... - E saiu.
Julia, que olhou da bolsa pra mim, embasbacada, saiu atrás da outra, chamando. - Elena, por favor...
Judi olhou para mim, parando de falar, e Rose acompanhou o seu olhar. Eu apenas apontei com um inclinar de cabeça para o que iria acontecer. Era hora de nos metermos na confusão de novo!
- Você não vai se arrepender, eu prometo! Posso realizar todos os seus desejos! - Oferecia ela, sem pestanejar.
- Olha só, sem querer ser chato, mas é que eu...
- Tem namorada! - Disse Elena, parando na frente dos dois e cruzando os braços, com Julia ao seu lado, não sabendo que postura adotar. - Posso saber o que tá querendo com o meu namorado?
Eles estavam em uma posição comprometedora, eles com os braços nas prateleiras, apoiando-se, e ela, de joelhos com as mãos no cós da calça dele.
- Além de querer fazer uma festinha a qual você não foi convidada meu bem, eu quero ele pra mim! SÓ PRA MIM! - Provocou Célya, querendo mostrar quem mandava, mas na verdade nem ao menos raciocinando direito.
- Sai fora, piranha! - Gritou Elena, afastando brutalmente Célya do garoto, Lucas, que relaxou um pouco, aproximando-se da namorada, que o manteve afastando, pondo a mão no peito dele antes que pudesse tocá-la. - Não mesmo, depois teremos uma conversa. Antes, vou dar um jeito nela e você - Apontou o dedo para o meio do rosto dele, assustando-o - Vá se desinfetar. Não gosto de chegar perto de você depois que lixo te toca!
- Mas meu bem, eu não fiz nada, foi ela que veio e...
- Sem desculpas Lucas!
E ele calou-se
Célya, que havia sido jogada de lado, era tão leve que mais foi arremessada para o outro lado da farmácia, gritando para a garota, enquanto deslizava pelo chão: - Olha como fala comigo, pois acabo com você em dois tempos!
- Você tá bêbada, sua chinela! Saia daqui antes que eu acabe com você! - Ameaçou.
- Pode vir, que tô esperando! - Falou Célya, levantando desajeitada.

- Lá se vão minhas compras pra minha mãe! - Falou Rose, enquanto chegávamos do lado de Célya, infelizmente, para defender aquela besta.
Rose e Judi posicionaram-se uma de cada lado de Célya, e eu na frente, para formarmos um tipo de escudo protetor. Quando Rose tentou ajudar Célya a levantar, esta ficou irritada, puxou de volta a mão que Rose segurava para tentar ajudá-la e resmungou: - Me deixa, ruiva! Não preciso da sua ajuda. Aliás - Ela olhou de Rose para mim e Judi - Não preciso da ajuda de nenhuma de vocês!
- Não é o que parece! - Olhei para ela por cima do ombro. - As garotas a nossa frente deram risadas abafadas. - Então me diga, princesa, se não precisa de nossa ajuda, aceitaria a das suas seguidoras, mas... Onde elas estão? - Perguntei a ela, provocando.
Ela me olhou espantada, como se nem ao menos tivesse reparado que fora nós 3 junto dela, não havia mais ninguém para tentar defendê-la. - Isso é sujeira! - Retrucou, mais para ela mesma.
- Caiam fora, vocês 3! O assunto é entre mim e essa vagabunda! - Falou Elena, lembrando para nós o porque de estarmos defendendo a garota que mais me irritava no colégio. - Vocês nem lembravam mais que eu estava aqui, com toda essa lenga-lenga, certo? - Ela não esperou resposta - Esqueçam! Apenas saiam, que isso irá acabar rápido! - Afirmou, me empurrando com o ombro, enquanto ia até Célya estralando as juntas dos dedos.
Me meti na frente dela. Não ajudaria em nada Célya apanhando enquanto estava de porre, pois nem ao menos poderia se defender, é isso é algo que eu acho injusto!
- Saia guria, ou vai sobrar para você e as tuas amiguinhas! - Ameaçou Elena.
- Eu bem que gostaria, de verdade, mas bater em uma idiota bêbada - Apontei para Célya, que tinha cedido a receber ajuda de Rose, que se revezava com Judi no levanta-segura - Me parece um pouco injusto, ainda mais que eu também tenho contas a acertar com ela, e não vai ser você que fará isso por mim comigo assistindo! Eu daria um jeito nela, pois ela roubou um dos meus! - Expliquei. Ela concerteza tinha uns 17 anos, eram bem mais alta que eu. Dava até medo. Mas eu já tinha enfrentado "gorilas" como ela. Fiquei surpresa quando terminei a frase, ao ouvir uma pancada, olhar para trás e ver que Judi tinha deixado o lado que ela segurava de Célya escorregar e cair no chão, derrubando junto Rose, que era miudinha, apressando-se para ajudá-la novamente a levantar Célya, que protestava.
- Não quero sua ajuda, monstrinha, sei me virar muito bem sem uma rival para dar apoio moral!
- Eu tô vendo!
- Sei mesmo!
- Sabe nada!
- Ei, vocês duas! - Chamou Elena.
E assim se deu início a um bate boca cada vez mais alto, onde quem passava pela farmácia ou estava de fora da briga ficava espantado com o volume das vozes que agora gritavam uma com as outras, sem nunca dar início a tal briga.
Percebendo que a confusão só iria piorar, o senhor que estava atrás do balcão saiu, e começou a dar ralhadas em todas nós. Eu e as meninas juntamos Célya da menor maneira que conseguimos e corremos dali. Nem vimos para onde as duas garotas e o rapas tinham corrido, ou se ao menos tinham ficado na farmácia.
- Para onde estamos levando ela, Judi? - Perguntei.
- Para casa! - Respondeu.
Estava frio na rua, e Judi que estava de sobretudo e um casaco grosso, tirou este e fez Célya vestir, pois estava praticamente nua na rua com aquelas roupas e naquele clima de meio de ano.
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Algumas horas mais tarde...
Cheguei onde os garotos estavam reunidos. Já me sentia melhor, mas ainda tinha o estômago enjoado, e a grande fúria por aquela idiota me fazer passar vergonha. Quem ela pensa que é?
- E aí, minha gatinha, por onde andou? Saiu da festa mais cedo e nem me chamou para fazer a festa com você? - Perguntou Marcelo, passando os braços ao redor da minha cintura, apoiando seu corpo estrutural contra o meu, me dando um beijo, quente naquele frio. Os garotos atrás dele riam e faziam bagunça, encostados na parede de um prédio em construção, o qual haviam saqueado.
- Eu não me sentia bem, por isso saí logo... Fui até a farmácia... E tenho um serviço para você... Mais um pedido! - Eu insistia em falar, mesmo com ele afrouxando os braços ao meu redor e revirando os olhos. - Quero que você dê uma lição em alguém, alguém que está me perturbando e atravessando o meu caminho, e quero já! - Insisti.
- Claro, claro, minha princesa. Tudo para você! Mas não acha meio ridículo mandar um grupo de caras como nós atrás de um bando de guriazinhas assustadas que não sabem o limite das coisas? Acha que quero sujar minhas mãos assim? - Perguntou para mim, mostrando suas grandes e fortes mãos, que tinham um toque especial em mim.
- Certo, eu sei! Bom, então deixa pra lá! Deve haver por aqui outro grupo de traficantes tão rápidos quanto o seu é para fazer esse imenso favor pra mim! - Fiz um pouco de melodrama para fazer com que fosse convencido logo, ameaçando novamente deixá-lo. Como eu o conheço. Funciona toda vez...
- Não, pode deixa conosco! Eu e os rapazes damos um jeito! - Ajoelhou-se para pegar minhas mãos, apontando para os rapazes atrás dele, que concordavam.
- Muito bem! Aqui está uma foto delas! Estão sempre juntas, não tem como errar! E essa, usa óculos!


- Não posso ficar encontrando você toda hora, ainda mais com o que você está planejando fazer com ela, já não acha que a vida de todos já tá bem ferrada pra você aprontar isso, ela...
- Não cite nomes! - Avisou
- Olha, eu não quero que ela se machuque! Já basta o que aquele lixo fez, a baita cachorrada que ele apronto, não quero eu ser o motivo do descaso de mais um ferimento na vida dela! Por favor, não siga com esse plano suicida! Eu sei que você é apaixonado por ela, ela também é! Já passaram por muita coisa e...
- Mas não podemos! - Ele me cortou, e pude ver dor em seus lindos olhos lilás, e tive que admitir que sabia o porque dela gostar tanto daqueles olhos. - Podemos acabar morrendo se esse plano não funcionar, e se ela não se afastar por um tempo de mim, tendo o dobro da fúria que tem agora, não sei o que vou fazer. - Ele estava encolhido, triste, mas decidido em seguir com o plano " Destroçando um Coração" para ninguém mais se ferir. Mesmo que a perdesse para sempre... - Eu aguento! Aguento qualquer castigo que essa Marca me der, mas não posso ver ela recebendo isso também... - Ele se calou.
Fiquei intrigada com essa conversa estranha.
- Que... tipo de castigo você recebeu? - Perguntei lentamente, testando até onde ele iria soltar a língua.
- Bem... Eu tenho tido muita tosse com sangue, desde a noite que eu a dominei no quarto dela e...
- VOCÊ O QUE?
- Não aconteceu nada, juro! Mas é o suficiente para que eu seja castigado, ainda mais que está chegando a hora...
- Você... Você só pode estar brincando! Sabia da consequência de forçar a barra... Você... É um completo idiota! Ela sabe disso? - Ele fez que não com a cabeça - Ótimo, mais essa agora. Você pode morrer a qualquer momento e não tá nem aí, e a garota que você gosta pode morrer também, então " que se danem" - Berrei com ele, enfurecida. - Tá certo, eu vou até o fim para ajudar você! Mas saiba que se morrer perto de mim durante o processo, vou abandonar você no mato! - E saí, pisando firme de raiva da burrica dele.
- Obrigado por essa! - Ele sorriu, um pouco aliviado.
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- Ta a fim de assistir um filme de terror Kath? Quem sabe assim vomito mais rápido o jantar, porque to muito cheia! - Disse, mostrando a barriga. A mãe da Rose fez um prato gigante de macarrão com queijo e molho de tomate, junto com uma tigela de salada, que eu comi primorosamente. Já a Rose e o Jev eram os únicos que se olhavam de soslaio, jogando por baixo da mesa metade da salada para um poodle que eu não tinha reparado antes, e cuidavam para os pais não verem o que faziam, os quais comiam silenciosamente, concentrados nos alimentos. Eles insistiram que devíamos comer todos como família, na mesa, mostrando para a convidada que eram unidos.
Aquilo tinha ficado um verdadeiro clima de velório!
Ao terminar a refeição (só comendo todo o macarrão do prato, não sei como não engordou ainda) ela pediu licença para se retirar falando baixo, me chamando junto, que fiquei tensamente quieta após acabar a refeição, sem poder sair, apenas esperando uma deixa, e com o pai de Rose com os olhos assustadoramente sérios grudados nela.
- Porque não lava a louça antes de ir para o quarto, Rosely? - Perguntou ele, mais ordenando que perguntando.
- Deixa querido, ela está com a amiga hoje, precisam de um tempo juntas! - A mãe dela sugeriu para seu pai, sussurrando. Ele então acentiu para nós, mostrando que podíamos ir.
Como eu não fazia minhas refeições com frequência na mesa, e éramos somente minha mãe e eu, não gostava desse clima de aprisionamento nas refeições!
Você não come nada de salada Ro? - Perguntei, porque o chão ao redor dos pés dela ficou cheio de pedacinhos de cenoura, pepino e alface.
- Era salada de conserva, e eu não consigo comer porque me faz mal sempre, mas papai fica furioso quando não comemos toda a refeição servida! Nossa sorte é ter um cachorro vegetariano, digamos assim, porque ele come toda a salada! - Me contava, enquanto ligava o notebook em cima de uma mesa e colocava o DVD madrugada dos mortos, puxava um peniquinho azul com flores do lado da cama, de forma casual, como se fosse a coisa mais comum do mundo ver filmes de terror com um penico do lado.
Quando ela se arrumou do meu lado na cama, perguntei:
- Porque é que você pegou esse penico e colocou do seu lado na cama?
- Eu to de barriga cheia, e adoro esse filme, mas toda vez que eu assisto, vomito! Então já deixei aqui para diminuir o estrago! - Me dizia quase contente. Foi uma das coisas mais estranhas que alguém já me disse!
Mal chegou na parte que a filha da personagem principal, morta, mordia o pai e matava ele com os lençóis da cama do casal ensopados de sangue, ela vomitou todo o jantar!
Até a parte em que o grupo se reúne em cima do prédio para mandar o cachorro levar comida para o homem que ficou preso no prédio vizinho, ela estava branca e fraca! Cochilou logo, mas, quando o filme estava terminando, ouvimos umas batidas no quarto ao lado e gritos, e Rose levantou em um pulo, assustada, correndo para a porta.
Quando abriu a porta, era um verdadeiro caos do lado de fora: A mãe e a irmã de Rose batendo na porta do quarto de Chris, no fundo do corredor, parecendo desesperadas, com Jev gritando ao redor e, ao ver uma versão pálida de Rose na indo para o corredor, pulou para os braços da irmã gritando: - Me protege mana! To com medo do papai!
A mãe dela, vendo os filhos assustados, correu para Rose, insistindo para ela entrar no quarto e trancar a porta com o irmão junto!
Estavam chorando, desesperados!
- O que foi Rose, pra que tudo isso?
Ela chorava enquanto me respondia:
- Tranca a porta e não deixa meu irmão sair! - Pediu
- Mas onde você pensa que vai? - Perguntei, sentindo o medo e a tristeza exalando dela, se transformando em desespero, enquanto passava seu irmãozinho para meu colo, que se agarrou em mim e começou a chorar baixinho com o rosto enfiado na minha jaqueta.
- Eu vou lá, tentar resolver as coisas!
- Mas o que está acontecendo lá dentro?
- Lembra que te contei da vez em que o Jev derrubou um copo e o Chris foi limpar? - Eu me lembrava - O que está acontecendo no quarto dele é bem pior! - Disse, e correu para a porta, onde a mãe e a irmã já estavam desistindo de insistir em pedir para abrir a porta.
- Papai, por favor, abra a porta! Me deixa entrar! Deixe o Chris em paz! - Implorava ela, desesperada, com um pranto incontrolado.
- Eu não pude ficar sem sentir o desespero daquela família, sabendo que precisavam de ajuda e me sentindo... Impontante! Não havia o que fazer, para piorar a situação. Agora eu me encontrava com Jev agachado na minha frente, espiando pela fresta da porta, que tentamos disfarçar para ficar a par de tudo, comigo com os dois braços ao redor de seu pescoço magro, sentindo as lágrimas dele pingando em meus ante-braços e minhas mãos. Era desesperador sentir aquela criança inquieta simplesmente... Parada, chorando nos braços de uma pessoa praticamente estranha para ele.
Dava para ouvir os gritos que vinham de dentro daquele quarto, do garoto implorando ao pai que parasse de bater nele porque já não aguentava mais a punição e o pai gritando de volta que aquilo era para o bem dele, que aquilo iria ajudar ele a se tornar homem. Eu estava abismada e desesperada em ouvir tudo aquilo e não poder fazer nada. Minha vontade era e tirar aquele garoto de lá e fugir para longe daqui, para mantê-lo protegido do pai homofóbico.
A mãe de Rose e a irmã foram para os quartos e se trancaram lá, dizendo para Rose que não adiantava mais, que só podiam esperar agora, mas antes que fechassem as portas de seus quartos, a porta do quarto de Chris abriu, surpreendendo a todos.
O pai de Rose deveria estar muito bravo, porque a Rose parou imediatamente de gritar para o pai abrir a porta e ficou muito mais pálida do que já estava, dando contraste aos dedos machucados de tanto bater contra a madeira, o rosto ficando surpreso, depois passando para pavor ao olhar para dentro do quarto e mudando rapidamente para medo, um completo pavor estampado no rosto, um medo que eu cheguei sentir passar pelos meus ossos, arrepiando minha pele. Medo por ela. Não dava para ver muito do pai dela na porta, apenas as mãos com um cinto e... Meu Deus! Sangue! Pobre Chris!
- O que você está fazendo aqui, Rosely? Não deveria estar no seu quarto com a sua amiga que veio lhe fazer uma visita? - Perguntou ele, disfarçando a calma, a voz grossa e ressonante me atravessando de forma violenta.
- Papai, o que você fez com meu irmão? Porque fez isso com o Chris? Para quê castigá-lo? - Gritou ela, desesperada em fazê-lo voltar à razão.
- Apenas lhe dei uma lição! Homem tem que ser homem, e mulher tem de ser mulher. Os dois não se misturam minha filha, você sabe bem! Ele tem que aprender! - Dizia ele, cada vez mais alto.
- Você não pode mudar a natureza de ninguém! E se também fosse como ele? O senhor também me bateria porque gosto de mulheres? - Perguntou, a voz um grito agudo.
Ele pareceu em choque.
- Mana, sai daqui. Eu aguento. Não quero que se machuque... - Ouviu-se uma vozinha vinda de dentro do quarto, fraca e rouca, como de alguém que já iria morrer... Fiquei completamente arrepiada. E enfurecida.
Do outro lado do corredor, dava para ouvir alguns gemidinhos, claramente a mãe e a irmã tentando controlar o choro, espiando na porta como nós.
- Meu Deus, pai. O que você fez. Olha pra ele - Ela apontou para dentro do quarto, o pai virando para acompanhar a direção que ela mostrava. - Eu vou tirá-lo daí. - Disse, indo em direção da porta.
Nesse momento, precisei cobrir a boca de Jev e virá-lo para mim, para ele não ver a cena a seguir: - Ao tentar entrar, o pai a pegou pelo braço, puxando-a de volta e perguntando "Onde pensa que vai", empurrando ela de volta e desferindo um rápido golpe com o cinto de cima para baixo, acertando com força o rosto dela, sem aviso e sem tempo para se defender, fazer ar um estalo alto, ela gemendo entre dentes para aguentar a dor, caindo meio de lado. Precisei fechar a porta, para abraçar Jev com força, que recomeçou o choro e virou para mim, me abraçando.
Pode-se ouvir o som do cinto contra a pele de Rose várias vezes, por alguns minutos. Eu não pude segurar meu pranto, e chorei junto com Jev novamente, compartilhando de sua dor, fazendo carinho no cabelo dele, dizendo que ia passar, mesmo não tendo certeza disso.
Dava para ouvir a voz do pai dele dizendo para Rose não se meter mais nas conversas com os irmãos, que tudo era necessário, enquanto batia nela.
Meu coração se contorcia ao ouvir e ver tanto sofrimento camuflado por tanto tempo, se mostrando para mim naquele momento.
Após alguns minutos, o barulho do cinto parou, e puxei a porta novamente, para ver o pai dela entrando outra vez no quarto e fechando a porta, abandonado a filha de joelhos no mesmo lugar, coberta de cortes, um pior na bochecha, que pude ver quando ela ergueu a cabeça. Era um corte profundo, que possivelmente deixaria uma cicatriz.
O som do cinto começou novamente, de dentro do quarto outra vez. Então Rose avançou na porta e eu fechei novamente, não aguentando mais ver aquela criança nos meus braços se submetendo a tanto sofrimento e levando ele para a cama. Ao deitá-lo do meu lado, de forma à mantê-lo protegido, pude ouvir rosnados, arranhões altos de unhas na madeira, e Rose gritando com mais fúria ainda, batendo com mais força na porta. Prometia que seria a ultima vez que o pai machucaria alguém naquela casa.
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Durante a madrugada, acordei com Jev entrelaçado no corpo, tremendo de frio, pois não estávamos mais cobertos. Todos os nossos cobertores estavam no chão, e nós na beirada da cama. Quando mexi meu braço esquerdo, que estava caído para fora da cama, meus dedos se enroscaram nos cabelos de alguém. Virando devagar para não acordar o garoto, vi que era Rose, que tinha dormido sentada, as costas apoiadas no colchão. Puxei as cobertas e afastei Jev lentamente, deixando-o dormindo sozinho, emaranhado em um mar de cobertores. Desci da cama, sem fazer barulhos, sentei ao lado de Rose e lhe dei alguns cutucões de leve, para fazê-la acordar. Fiquei esperando até vê-la de olhos abertos, perdida, olhando para mim.
Ao se dar conta de onde estava, disse, em meio a um sorriso constrangido:
- Desculpe, não era para isso ter acontecido justo esta noite! - Desculpou-se, a voz fraca e rouca, sem se importar muito naquele momento.
- Deixa quieto! Estou correndo perigo? - Perguntei, brincando, para tentar fazê-la rir um pouco. O sorriso aumentou um pouco e depois diminuiu novamente, triste.
- Não! Ele não faria nada para você! - Fez-se um momento de silêncio. - E, aliás, que horas são? - Perguntou, esfregando os olhos e olhando em volta, no escuro, mesmo sabendo que não encontraria nada ali que tivesse ponteiros e fizesse tic-tac. Estava realmente desorientada naquele momento.
- Não faço ideia! - Respondi, e era verdade. Meu celular deveria estar em cima do criado-mudo da Rose, onde eu não olhava desde o momento que ela sentou ao meu lado para olhar o filme.
Ela levantou cambaleante, procurando equilíbrio na beirada do colchão. Chegou até o criado mudo e acendeu a luz do abajur. Encontrando meu celular, acendeu a tela e disse:
- São 4 horas da manhã. Eu me sinto um lixo. - Afirmou, olhando pra mim. Estava com um curativo enorme na bochecha direita, onde havia batido o gancho da fivela do cinto, que eu não percebi ao descer da casa, porque desci do outro lado. - Devo estar dormindo a cerca de 1 hora!
- O que aconteceu depois que ele entrou de volta para o quarto? - Perguntei, pois eu dormi consolando o irmão dela, que só pedia para ver os irmãos, mas não queria sair de perto de mim. Sentando ao meu lado novamente, depois de dar uma olhada no irmãozinho, constatar que estava tudo bem com ele e dar-lhe um beijo, ela começou a narração.
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Droga, papai fechou a porta novamente, e já posso ouvir os gritos fracos do meu irmão novamente. Ele apanhou muito em poucos minutos. Nunca vi meu pai assim, com uma fúria nos olhos, uma repugnância nos gestos, como se... Não amasse meu irmão. Senti meus ossos gelarem, minha pele arrepiar e o ar saindo de mim de tanto pavor ao vê-lo parado na porta, quase de maneira casual, com o cinto ensanguentado nas mãos, meu irmão deitado sobre os joelhos, tremendo de dor e frio, no escuro, a única coisa que permanecia sem ferir nele era a boca, pois os dentes estavam à mostra, inteiros, mas isso não significava que seu rosto não estivesse ensanguentado, pelo contrário. Ele estava ensopado de sangue. Do próprio sangue. Tive que segurar muito para não fazer as duas coisas que tinha mais vontade naquele momento. 1º: Empurrar meu pai e ajudar meu irmão; 2º: Vomitar todo o nojo que eu sentia por ele, naquele momento nos sapatos lustrados dele.
- O que você está fazendo aqui, Rosely? Não deveria estar no seu quarto com a sua amiga que veio lhe fazer uma visita? - Me perguntou, fazendo eu voltar a minha atenção de volta para ele. Tinha um sorriso arrogante nos lábios, e maldade nos olhos. Eu odeio quando ele está assim. Estava parado casualmente, como se estivesse mais do que acostumado a dar castigos cruéis e tiranos em crianças que ele achava "defeituosas".
Papai sempre tinha sido assim. Nunca gostaria do jeito mais delicado do meu irmão. Ao contrário dele, eu e meus irmãos sempre nos amamos incondicionalmente, apoiando cada um pelo que é longe dos olhos dele. Minha casa é sempre um caos, mas eu adoro tudo isso, e adoro como minha mãe demonstra seu amor por nós!
Como enfermeira, ela foi ensinada a amar todos, independente da classe, cor, ou se era perfeito ou não. Só tem um problema. Todos somos perfeitos à nossa maneira, por sermos únicos. Meu pai é quem parece nunca ter entendido isso.
Ele era o chefe de um escritório de contabilidade, o melhor do nosso município. Sempre dizia como os jovens estavam assumindo um sexo o papel do outro, e como isso era repugnante para toda a sociedade.
Minha família sempre foi apoiadora de causas de direitos humanos nos grupos da região, só que, meu pai nunca aceitou eles, e mandou minha mãe cancelar todas as doações e grupos de ajuda para pessoas que sofriam violência como abuso físico ou intelectual, bulling, homofobia, etc. Ela então começou a ajudar secretamente, pois não sabíamos o que papai podia ser capaz de fazer. Desde criança ela nos leva no hospital no sábado à tarde, quando está de folga, para fazermos visitas aos grupos e também para crianças no tratamento do câncer. Não sei se tem alguém que não nos conhece lá, talvez sejam mesmo os estagiários e aqueles que fazem tratamento temporariamente.
Mamãe precisou procurar o grupo anti-homofobia depois do episódio do copo, mesmo com meu irmão dizendo que estava bem, porque meu irmão começou a ter falta de concentração e ter medo de dormir sozinho, além de ter crises de ansiedade e hiperatividade. Foi feito um tratamento com ele, melhorou, claro, mas eu não esqueci o que aconteceu. E não era a primeira vez e nem seria a última!
- Papai, o que você fez com meu irmão? Porque fez isso com o Chris? Para quê castigá-lo? - Eu sabia que era perda de tempo perguntar, mas mesmo assim, eu teria que tentar fazer alguma coisa, sendo que minha mãe e minha irmã morriam de medo dele.
- Apenas lhe dei uma lição! Homem tem que ser homem, e mulher tem de ser mulher. Os dois não se misturam minha filha, você sabe bem! Ele tem que aprender! - Papai falava como se o Chris tivesse feito algo terrivelmente grave que era totalmente inaceitável e intolerável.
- Você não pode mudar a natureza de ninguém! E se também fosse como ele? O senhor também me bateria porque gosto de mulheres? - Testei ele, imaginando que isso faria com que ele parasse naquele momento, olhasse para as próprias mãos, vendo o castigo cruel que dera ao filho e caísse de joelhos implorando por perdão. Como sou ingênua e nunca notei, porque isso só acontece em filmes. Ele nem ao menos chegou a 10% da reação que eu imaginei e, quando ouvi meu irmão mandando eu sair, entrei em desespero, falei tudo o que vinha com toda a raiva e indi guinação que consegui reunir e, ao tentar entrar, recebi o primeiro golpe, tão surpreendente que mal pude desviar para diminuir o estrago, porque o gancho enroscou na minha bochecha e puxou a pele junto, abrindo um buraco, me dando muita dor na boca, enchendo ela com o gosto metálico e forte do meu sangue. Tive consciência de todos que assistiam minha surra e choravam. Aquilo era frustrante, decepcionante, ilógico, anormal... Era tudo de errado no mundo. Um pai batendo na filha por tentar proteger o irmão mais novo de levar outra surra porque o canalha é a droga de um homofóbico violento.
Quando pulei na porta, sentindo minha força interior saindo, senti minhas unhas ficando firmes, todo o sangue indo para a cabeça, turvando minha visão. Mas eu não ligava. Não naquele momento. Foi muito abuso e humilhação por uma noite, e eu me sentia também fraca por ter botado para fora meu jantar vendo um filme de terror.
Me sentia mal pela Kathlyn, que foi obrigada a ficar no meio disso. Ela era minha melhor amiga, não precisava passar por isso, não quando tinha outras coisas no que pensar. Senti até vergonha do meu pai naquele momento.
Não aguentei a dor no corpo e apaguei por um momento. Quando abri os olhos novamente, estava deitada no sofá, o rosto apoiado em uma almofada verde com a foto de uma rosa amarela que eu adorava, meu rosto martelando. Dava para sentir o cheiro de ervas medicinais e antibióticos que minha mãe estava usando para fazer a bandagens nos meus curativos. Era tudo receita da minha avó, que recebeu da minha bisa, que havia aprendido com a família do Dyeiden. Pela manhã eu praticamente não teria dores nem as marcas nas costas, onde o cinto injustamente me acertou. O problema seria meu rosto, que levaria talvez até a segunda-feira para sumir a marca.
Não notei quando minha irmã idiota ajoelhou-se no meu lado no chão, e não senti os trapos da minha blusa levantada, só notei quando ela largou o pano fervente de ervas que queimam profundamente as feridas nas minhas costas expostas, sem me avisar. Bati os pés freneticamente para mostrar que sentia muita dor e enfiei o rosto na almofada para abafar meus gritos.
- Carol... Sua anta, porque não avisou que iria largar o pano com remédio? Isso doeu demais! - Resmunguei, rouca.
- Está reclamando do que? Os cortes do Chris foram muito piores! Ele ficou desmaiado durante todo o tempo em que eu e mamãe fizemos os curativos nele! - Disse ela, como se fosse só um joelhos ralado.
- E onde o papai está agora?
- Agora? Dormindo! Ele tinha bebido depois que vocês foram para o quarto e, quando lembrou que queria ter uma conversa com o Chris, ninguém podia imaginar o que era, só notamos algo muito errado quando ele foi até o tapete onde o Chris e o Jev estavam brincando, pegou o Chris pela gola da camisa e o arrastou até o quarto. O Jev ficou assustado e correu nos avisar, então começamos a ouvir os gritos deles e vocês duas saíram do quarto quando começamos a bater na porta. - Me contou Carolina, enquanto terminava de amarrar os curativos nas minhas costas.
Fiz um esforço e fui levantando e chamei: - Mãe? - Ela veio quase imediatamente.
- Sim, querida?
- Isso tem que acabar! Pela manhã, se você não fizer, eu faço! - Disse, sem rodeios.
-M-mas, querida, ele é seu pai! Não podemos destruir nossa família por uma... Coisinha que saiu fora do controle... - Implorou, sem saber o que inventar.
- Não, mãe! Isso não foi uma coisinha, e nunca vai deixar de ser uma coisinha. Dessa forma, a senhora vai estar apoiando o que papai fez com Chris... E comigo, que fui a única a enfrentá-lo e sofrer as consequências.
- Ele faz isso por amor à vocês, filhos dele, senão... - Ela parecia não encontrar palavras para aquela desculpa.
- Senão o que mãe? Onde está o amor de um pai violento que vê o mundo de maneira distorcida? Que bate nos filho quase até matá-lo por ele ser gay, com a desculpa de estar fazendo ele ser homem? De bater na filha por tentar defender o irmão que está muito ferido? Desculpa mãe, mas isso não é amor, isso é doença! E eu não vou ficar calada.
- Rose, como vamos nos sustentar sem ele? A sua irmã está estagiando, você não trabalha, o meu trabalho e do seu pai divide as despesas da casa...
- Você pensa no dinheiro em vez do bem estar dos seus filhos? Nós nos levantamos, mãe! Eu posso trabalhar meio turno na farmácia do primo da Judh, numa boa. A Becca é certo que será efetivada no escritório, e a senhora ganha bem! Não ficaremos mal, porque estamos unidas! - Quando terminei, ela me abraçou e pediu perdão, dizendo que eu estava certa. A verdade é que ela tem medo do meu pai.
- Ok, pela manhã, vamos ao Fórum de Proteção pedir ajuda.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Pass X Fure Capítulo 9: Aqueles do passado que eu não sabia quem eram de verdade...

Liguei para minha mãe para avisar que eu já havia chegado em casa, deixando ela surpresa!
- A irmã mais velha da Rose me trouxe em casa... - Não quis terminar a frase.
- O-OK querida! Vou logo para casa.
Nos despedimos e eu desliguei, ainda lembrando de como a irmã da Rose é a pior barbeira do mundo!
É sexta! Não gosto de experimentar roupas, mas mesmo assim vou revirar o armário antigo que está no sótão. É pequeno, mas muito bonito, em estilo antigo.
Subo até o sótão, pela escada velha que range a cada passo que dou, um rangido longo, mas que prega sustos, pois a subida é um pouco escura e está tudo em silêncio absoluto. Vou subindo os degraus devagar e com cautela, não quero chamar a atenção de ninguém nesta casa... Ainda mais para interrogatório.
Eu chego no topo da escada e olho ao redor. O armário fica no canto, parece até o guarda-roupa de As Crônicas de Nárnia. Vou até ele e o abro, vendo as roupas lindas e antiguissimas guardadas ali. Tiro um lindo vestido longo, como o de uma princesa, e pego pequenas sandálias que combinam. Vesti a roupa e me olhei no espelho velho e manchado que se encontrava atrás de algumas caixas, que tinha um pano sujo que lhe cobria a metade. Girei e rodopiei, me sentindo um pouco mais leve e menos melancólica, da forma que eu não me sentia desde meus 6 anos.
Como qualquer garota, mesmo que eu não gostasse da ideia, desejava e sonhava as vezes com a droga de um príncipe em um cavalo alado que viria me salvar de toda a dúvida, o pânico e o medo de me sentir muitas vezes, sozinha no mundo, mesmo tendo minha mãe que fazia um ridículo esforço fingido para me ver bem e equilibrada, as minhas novas amigas e os dois garotos que mais confundiram minha cabeça em toda a minha existência. Eu insistia comigo mesma em esquecer o garoto que havia traído minha confiança, pelo qual eu admito, era completamente apaixonada, e que me abandonou quando escolheu a garota que mais bate de frente comigo na escola. O garoto que mais demonstra querer cuidar de mim e me proteger, apesar de ser dever de família de acordo com sua descendência, diz me odiar a ponto de não me querer... Mas deixa escapar que sente algo por mim.
Se Dyeiden sentia realmente algo por mim, porque tentava me proteger, se aproximou de mim outro dia de forma inesperada, entrando no meu quarto, ficando a milímetros de me beijar e... fugindo! Porque ele foge?
Enquanto minha cabeça ficava as voltas com tantos pensamentos voltados para o garoto que mais mexia comigo, mal percebi quando alguém se aproximou de mim pela escadaria. Apenas vi um leve reflexo quando completei uma volta na frente do espelho. Arfei de susto e, antes que a pessoa que subia pudesse me ver vestida daquele jeito, com um vestido velho que estava guardado sabe-se lá a quanto tempo, segurei-o pelas duas pontas da barra e corri silenciosa para trás de alguns caixotes, agachei-me, e fiquei ali, esperando que a pessoa que subia pegasse logo o que procurava e fosse embora. Quando vi que era a mesma senhora que limpava o chão no dia em que cheguei (a qual raríssimas vezes se via nesta casa, aliás), pegou um balde velho, um esfregão, algumas caixas de papelão e, descendo devagar, como alguém de mal jeito na coluna, foi saindo aos poucos do sótão. Suspirando aliviada, fui me levantar do meu esconderijo, perdi o equilíbrio e caí desajeitadamente no chão, de costas para o grande espelho no meio da sala. Porque esse lugar tem tantos espelhos velhos guardados? Quando fui tentar um ponto de equilíbrio em sua moldura, senti os redemoinhos na minha palma. Então olhei mais diretamente para ele e, sentindo que algo tentava me puxar, recuei e me pus a correr, tropeçando na barra do vestindo, quase caindo e levantando novamente. Senti algo escorregadio sob meus pés, me desvincilhei mas, quando senti novamente, era gelado. Tentei me afastar, mas aquela coisa, que parecia fumaça, puxando meus pés e enroscando-os, fazendo-me perder o equilíbrio e caindo de bruços no chão. De frente para a porta, ainda tentei me soltar e fugir, mas aquela fumaça me puxava, obsessiva, e sem esforço, pelo meu calcanhar, para mais e mais perto do espelho. Droga, sinto que estou perdendo os sentidos, o tecido do vestido está levantando para cima enquanto sou lentamente puxada de volta para o meio da sala, roçando meu rosto, enrolando-se com meu longo cabelo loiro, me deixando semi-nua da cintura para baixo. Agora sentia frio também nas pernas e subindo para o restante do corpo. Mal tinha forças para me mexer, estava com a visão muito embaraçada e ficando escura, a cabeça rodando. O que é esta fumaça? É muito entorpecente! Parecia que alguém estava espalhando no meu corpo analgésicos para cirurgias, pois estava ficando toda dormente, e os pensamentos então... Imagens tão embaralhadas quanto a minha visão... Senti que era levantada pelo invisível, dos pés para a cabeça, subindo devagar, entrando em um lugar escuro e com luzes brilhantes, que iluminavam aquele negrume coloridamente, diferente das estrelas, com seu brilho de branco fantasmagórico. Tudo foi ficando leve e, cansada, adormeci, livrando-me, naquele instante, de tudo o que angustiava o meu coração.

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Acordei em meio a um monte de feno, com pedaços se entrelaçando no meu cabelo e na minha roupa. Quando fiz menção de levantar, ouvi os relinches de um cavalo e levantei rapidamente, sobressaltada. Parei para olhar ao redor. Estava no celeiro da casa!
Fui saindo com pressa, tentando tirar um pouco do feno que se enroscava persistente em mim quando uma voz me chamou, e fez eu me assustar.
- Ei, qual é a sua? Quer me matar de susto?
Um jovem muito familiar vinha de um canto limpando as mãos em um paninho e calmamente perguntou:
- O que fazia aqui, Senhorita Margareth? Pensei que estivesse muito ocupada para vir me visitar hoje.
Ele era lindo! Forte, com o corpo que se destacava por baixo da camisa justa de algodão, cabelos loiros acastanhados lisos, que lhe caiam sobre o olho e, aqueles olhos, eu os conhecia... Eram os mesmos olhos do Dyeiden, lilás! Na mesma hora, procurei mudar minha postura, ficando mais ereta, e falando de modo mais distinto.
- Perdão, o que disse? - Fiz-me de desentendida, ou estaria ferrada. Ele pensava estar falando com a Mag, quando na verdade era a Kath, e eu, por um instante, quase o insultei por pensar que era o Dyeiden, quando na verdade era o mordomo que ela gostava, como era mesmo o nome dele...
- A senhorita inventou uma desculpa para não vir me ver hoje, ou estou apenas tendo ciume bobo por pensar que iria me trocar pelo motorista da charrete? - Sorriu com malícia, seus olhos cintilando, brincalhões. Garoto, como eu queria que fossemos da mesma época para que eu te agarrasse agora! Comecei a ficar corada e distraída, mas ele me fez voltar dos meus devaneios.
- Parece um pouco distraída hoje, mademosel. Certamente existe uma boa explicação para ter vindo até o celeiro hoje e não ter vindo ter comigo logo. - Ter com ele o que? Vai dizer que a Meg é uma safadienha dessa época? Ô garota sem vergonha!
 Ele passou um dedo pela minha bochecha, acariciando lentamente o meu rosto, ficando todo corado. Fechei os olhos para sentir seu toque leve de dedos quentes, e comecei a sentir um calor irradiando dentro de mim e se espalhando lentamente. Abri os olhos e me afastei um pouco. Eu não sou dessa época e esse cara é da Mag. Para que ele não estranhasse o meu comportamento, dei um sorriso tímido e convidei:
- Me acompanhe até a porta, sim? Tenho muitas coisas para fazer e vim aqui apenas para relaxar um pouco, o que não me impediu de vê-lo antes de voltar as minha tarefas. - Eu falei de modo nervoso, apertando os dedos, de modo que ficassem longe de seu campo de visão. Sorte que vi muitas garotas malucas atuando no reformatório, ou não saberia o que fazer!
Ele andou ao meu lado até a porta e sorriu, parando para se despedir.
- Olhe só para esse seu lindo rosto angelical, e suas vestes... - Ele riu - Está parecendo uma sem-terra que invadiu o celeiro de um fazendeiro! - Sorriu, estendendo a mão até o meu cabelo, puxando uma mecha onde havia feno enroscado, soltou-o, puxou a mecha inteira e aproximou o rosto do meu cabelo, cheirando-o de leve, e falou sorridente - Se me permite dizer, fica ainda mais encantadora quando está fazendo estripulias Margareth! Você é tão bela, delicada e cheirosa, sua pele e seu cabelo são fascinantes, e me sinto a cada dia mais e mais encantado com a pessoa em que vem se transformando! Você é como um poema para mim, pois me encanta, me deslumbra e preenche minha alma. Por isso eu a amo tanto. - Enquanto falava, ele girava delicadamente uma mecha de cabelo no dedo, visivelmente deslumbrado. E sem avisos, passou o outro braço pela minha cintura, puxando meu corpo firme contra o seu, me permitindo sentir seus braços fortes e seu peitoral, que deveria deixar aquela garota maluca, enfiou os dedos da outra mão nos meus cabelos e os enrolou na mão, de forma que meu cabelo ficou todo em sua mão, e minha cabeça firme de acordo com sua vontade. Eu respirei com dificuldade, com medo de que aquele avanço significasse algo que eu não queria que acontecesse entre nós. Ele beijou levemente minha testa, apoiou-a contra a sua e roçou meus lábios, mas, para meu alívio, não me beijou. Mas tudo aquilo durou vários segundos, com ele respirando com dificuldade, visivelmente demonstrando em mim a paixão feroz e carinhosa que sentia pela mulher que amava. Quando me soltou, pegou minha mão, segurando meus dedos e, curvando-se como um verdadeiro cavalheiro, beijou-a delicadamente e, olhando nos meus olhos, disse:
- Estarei ansiosamente esperando sua próxima visita, minha deusa maravilhosa. - Soltou minha mão e se afastou, visivelmente mostrando que aquele momento estava encerrado.
Levantei a barra do vestido e, vendo que ninguém estava por perto para me observar, saí correndo por trás da casa até a porta dos fundos, igual uma doida varrida, tropeçando e quase caindo várias vezes durante o caminho.
Quando cheguei na casa, entrei discretamente, e saí a procura da Mag. Encontrei ela na sala do piano, tocando uma linda melodia triste. Sentei-me ao seu lado delicadamente para ouví-la tocar, tentando não assustá-la. Ao sentir a presença de alguém sentando no banquinho junto dela, bateu os dedos no piano em um som fora do compasso e olhou para mim.
- Kathlyn! Que bom revê-la! - E abraçou-me - Já faz algum tempo... Por onde andou? O que fez? Como chegou aqui? É realmente bom ver você de novo! - Bombardeou-me com perguntas, falando rápido, me deixando até zonza.
- Calma lá, mulher! Eu já respondo você, só... Fale mais devagar! - Pedi, fechando os olhou, com uma mão na frente do rosto, como se fosse cega. - Calma! Eu sei que faz um tempo, eu andei pelo mundo, como dizem uns amigos; Só estudei e me meti em confusão; E cheguei aqui da mesma maneira que da outra vez: pelo "portal" que é o espelho do seu estúdio particular de ballet, lá em cima! - Disse, apontando com o indicador para cima.
- Mas, como pode ser possível? - Perguntou, um tanto surpresa e abismada.
- Vem, que eu mostro pra você! - Falei, levantando e estendendo uma mão, para ela me seguir.
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- Como você vem parar aqui? - Perguntou Margareth, caminhando até o meio do salão, afastando um pouco os braços, virando para mim e olhando ao redor.
- Não tenho certeza mas, eu acho que é por aqui... - Disse, apontando para um pedacinho do espelho, que, no meu tempo, era levemente lascadinho.
- Não! Como pode ser possível? Você ficou louca? Onde quer chegar com isso? - Perguntou, indignada, aumentando o tom de voz.
- Eu não sei explicar, mas, parece que, toda vez que eu me aproximo dele, algum tipo de energia, ou alguma coisa, me puxa para ele, algo que não posso evitar. - Fiquei em silêncio um momento, e olhei para ela, que digeria o que eu acabara de falar, pálida e chocada! Deve achar que sou louca, como todos os outros... 
- Você deve estar brincando comigo, só pode ser! Isso é totalmente impossível de acontecer! - Dizia, não acreditando em nada do que eu acabara de falar (e descobrir).
- Então como explica sermos tão parecidas? Hã? Em como eu apareci duas vezes aqui do nada? Em como moramos na mesma casa? De termos o mesmo sobrenome? E da nossa escola ter o mesmo nome mas 100 anos de diferença? E...- Perdi a voz, já com sua atenção completamente no que eu falava - Do garoto que mora na pequena casa atrás da minha ser uma cópia fiel do que mora atrás da sua? - Falei, forçando um pouco as palavras para saírem. Ela arregalou os olhos, surpresa com todas as minhas colocações vistas de um ângulo quase impossível para ela.
- Vo... Você tem toda razão! - Falou lentamente. - Eu nem havia pensado nisso antes! Perdão! Perdoe-me  por chamar você de louca e lhe acusar, mas... É quase fisicamente impossível!
- Também pensei nisso, até olhar bem esse lugar, um momento atrás... É o sótão da minha casa mas... Está lindo, bonito, espaçoso e arejado... E o espelho inteiro! - Apontei para o espelho. - Não são coisas normais!
- Então, qual seria sua teoria? - Perguntou, começando a falar na minha língua.
- Outro dia meu professor falou sobre acontecimentos cruéis no passado, como um assassinato no lugar e que, com uma grande eliminação de energia no local, feita pela alma que foi bruscamente arrancada do corpo, ela pode ficar ali até que alguém a encontre e, como parece que o armazenador é o espelho e, esta sala é você que usa, provavelmente seja algo que tenha a ver com você! - Falei, de braços cruzados, apontando um dedo direto para ela.
- Eu? Mas porque eu? Como eu posso ter passado tanta energia para ele a ponto de abrir um "portal", como você disse? E também, eu estou bem viva na sua frente! - Falou, tentando achar a lógica daquilo tudo.
Pensei um momento e disse a ela: - Talvez você não passou... Ainda!
- Como... Ainda? - Falou, perturbando-se.
- Será algo que ainda vai acontecer! Não existe outra explicação! - Falou, totalmente na lógica da coisa toda.
Visivelmente indignada, e assustada, não queria acreditar.
- Não, você tem de estar errada Kath! Tem de estar! - Esbravejou, parando de frente para mim.
Antes que eu pudesse responder, alguém bateu à porta. Antes de poder pensar em qualquer coisa, corri e me escondi no armário.
- Entre! - Ela falou, um pouco alto demais.
- Madame, já está anoitecendo, os convidados estão chegando! Sua mãe pede que vá se aprontar e descer logo! - Pediu o mordomo, que estava no vão da porta entreaberta.
- Certo! Descerei logo!
E ele se foi
- Convidados pra quê? - Perguntei, saindo do armário, toda enrolada em roupas delicadas, saias e meias de ballet.
- É aniversário do meu irmão! Muitas pessoas são convidadas!
- Então terei de me arrumar também! - Falei, saindo aos tropeços do armário, exibindo minha roupa nada formal e de gente... Decente.
- Sim, terá de se vestir formalmente... E comportar-se!
- O que? Já sou muito comportada pro meu gosto! - Protestei.
- Você entenderá depois! Vamos, não podemos deixar os convidados esperando! - E, virando as costas para mim, fez sinal para que eu a seguisse até seu quarto.
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Dispensando mordomo e acompanhante, pediu que eu a ajudasse a se vestir. Era tanta roupa, tanto pano, tanto brilho, tanto cadarço no meio de espartilho... É de pirar qualquer um! - Porque você usa tanto cadarço nesse espatilho? - Perguntei.
- Uso o que?
- Cadarços! Essas cordas compridas e coloridas aqui, que são para amarrar os sapatos que ficam soltos nos pés! - Expliquei da forma como os conhecia.
- O que? Não! - Ela soltou um risinho divertido. - Homens usam cadarços, e as mulheres usam as tiras maiores e mais fortes para prender bem o corpo! As que os senhores usam são muito mais finas! - Explicou, toda orgulhosa e de nariz empinado.
- Ok! Então, fiquei firme e não grite! Vou deixá-lo o mais apertado que eu puder! - Avisei e, no instante em que ela ia começar a protestar, joguei o pé direito no meio da sua cintura com as botas firmes no tecido, e com o rosto fazendo força para trás, apertava o espartilho. Puxei com tanta força, que ela se segurou com força penteadeira de princesa, tentando manter os dedos segurando o corpo ali, pois ela estava sendo puxada com a minha força, apesar dos pés em suas costas, forçando-a para baixo.
- Por favor, não exagere! Assim não chegarei inteira lá embaixo! - Implorava, com a voz fraca, tentando se manter em pé.
- Espera só mais um pouco, eu estou quase conseguindo... Consegui! - Avisei, soltando-a, no momento em que todo o tecido transpassado saiu e prendeu firmemente sua saia e o espartilho na cintura, deixando com o corpo definido, boa postura, o busto realçado. Ficou encantadora!

- Agora, me ajude a vestir as saias e o vestido! - Fiz o que pediu, pegando montes de tecidos e passando por sua cabeça e os braços, um atrás do outro. Aquilo devia pesar toneladas! Após terminarmos de amarrar tudo, ela virou-se satisfeita e anunciou:
- Agora, é a sua vez! - Disse, com um grande sorriso no rosto e olhos de felino brilhantes.
- Ei, não! Não mesmo! Eu não vou vestir seu guarda-roupas inteiro! De maneira nenhuma! - Implorei, ficando realmente assustada.
- Há, mas você vai sim! - Falou, puxando meu braço com força e me jogando em uma cadeira. Começou prendendo meu cabelo, que ela dizia estar "cheio demais", seja lá o que isso significasse! Pegou dos lados e prendeu levantado para cima, parecendo um galo no meio da minha cabeça. Tentei soltar e bagunçar tudo outra vez, mas ela abaixou minhas mãos e puxou o restante, fazendo um coque alto, com uma mecha colorida enrolada ao redor e puxando na frente. Ficou bonito. Depois, começou a me vestir com tanta roupa e me fez dar tantas voltas em um tecido que diminuiria a parte ruim do meu corpo que quase precisei procurar um penico. Por fim, pôs um lenço leve na minha cabeça. Quando terminou com toda a arrumação, eu parecia uma princesa. - Você está pronta! - Anunciou.

- Mas como vou saber se ninguém vai estranhar meu cabelo ou minha maquiagem? - Perguntei, virando para ela, ainda sentada na cadeira.
- Você acha que é a única aqui? Tem uma duquesa que virá hoje que usa os trajes mais loucos e espalhafatosos, e os cabelos mais coloridos que um arco-íris, e uma menina que usa a maquiagem tão forte que mais parece a assombração de alguém, com o vestido branco de renda sempre imundo! Não se preocupe em parecer estranha, pois estranhos, todos somos! - Disse, tranquilizando-me. Mesmo que de longe parecíamos gêmeas. Mas gostei do seu pensamento, me fazia sentir... Normal! Normal mesmo, como era, quando criança, antes do incidente que mudou minha vida do qual nem me lembro, só lembro das consequências!
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O salão estava lindo, muito enfeitado da maneira que a realeza gostava.
Tinha tanta gente se vestindo esquisita ali, como Meg falou, que fez eu me sentir menos um peixe fora d'água de como já estava. Ela me apresentou as pessoas que lhe perguntavam quem eu era como uma parente muuuuuuuito distante camada Isabel. Fez o mesmo aos pais, e pude notar grande semelhança entre ela e a mãe. Assim como o irmão, que provavelmente minha aparência vinha do lado deles da família, afinal, eram meus antepassados.
Estava entediada, perto de uma mesa, provando uns doces esquisitos que eu nunca vira na vida, e, como alguns eu não me agradava, dava umas espiadas rápidas ao redor para ver se ninguém estava olhando e cuspia tudo de volta dentro dos pequenos embrulhos delicadamente feitos e muitíssimo sofisticados. Precisei segurar o riso quando veio um mordomo e levou a bandeja e uma mulher incrivelmente emperiquitada pegou o doce estranho que eu tinha devolvido e mordeu delicadamente um pedaço, distraída, sem desconfiar de nada. 
Notei que Meg olhava furiosa para mim, pois percebeu o que eu havia feito. Após uns instantes de troca de olhares, ela cobriu levemente a boca e riu, pois também não gostava daquela mulher. Foi então, na prova daqueles doces (alguns de amargar até o estado de espirito, não sei como alguém come aquilo), joguei alguns para trás, no instante em que um mordomo passava com a bandeja, assustando-se quando o doce caiu em sua bandeja e se atirando no chão, fazendo voar doces para todos os lados, acertando aquelas mulheres com cara de nojentas e nariz empinado. Elas olhavam escandalizadas para o homem, e seus maridos ou filhos vinham correndo em seus socorros. Quando foram ajudar o homem a levantar, Meg olhou de forma furiosa para mim e cruzou os braços. Eu, que havia me divertido com aquilo, apenas dei de ombros com um olhar de "não fui eu" e fingi que não tinha acontecido nada. Pouco depois, me aparece um duque "metido a besta" rechonchudo e com cabelo lambido para o lado dando em cima de mim discretamente. Veio com uma conversa ridícula sobre politica e algo mais que nem parei para ouvi-lo, estava muito desesperada para fazê-lo sumir dali. Quando ele se distraiu virando para falar com alguém, peguei um punhado de pimentas que tinham em uma bandejinha, cortei um pedacinho de cada uma rapidamente e joguei-as com cuidado dentro da taça que ele tinha na mão. Era todo engomadinho, e aquilo me irritou. Quando ele virou para mostrar ao homem quem eu era, escondi mais algumas pimentas e temperos que ia colocar no drink dele. Enfiei tudo em um das camadas do vestido, que foram lentamente caindo pelas saiam e indo para o chão. Após ele me apresentar, fiz uma rápida reverência, e pedi licença, apressada para sair dali, para não sobrar pra mim. Corri para trás de algumas cortinas e apenas observei o momento em que aquele engomadinho bebeu um longo gole da bebida e começou a tossir feito louco, todo vermelho, pedindo socorro e gritando que a bebida era forte demais. Eu cai na risada! Ri tanto que perdi o equilíbrio e cai para trás, após tropeçar em uma cadeira.
Para minha surpresa, quem eu vejo em pé olhando para mim, aos pés da minha cabeça? Sim, Dyeiden! Eu ria tanto que nem liguei muito para o fato de ele estar ali, em outro tempo, me olhando, com as mãos na cintura e a cara fechada.
Virei meu rosto meio de lado para olhá-lo melhor, parando de rir, agora só com um sorriso no rosto, e perguntei:
- Como conseguiu me seguir? E, principalmente, como sabia que eu estaria aqui? - Perguntei, com uma curiosidade crescente disfarçada, pois muitas perguntas corriam na minha cabeça: Como ele me encontrou? Como foi passar pelo portal? Como saberia onde eu ia estar? Como entrou aqui sem ser visto? É impossível que ele saiba atravessar de qualquer maneira sem ser puxado! Estendendo a mão para me ajudar a levantar, esperou que eu estivesse de frente para ele - Não importa como eu vim parar aqui, o que interessa é que o que você está fazendo é muito arriscado! A sua interferência inexperiente pode mudar e muito o curso da sua história! E de todos aqui! - Ele me pegou pelo braço, me fazendo girar para olhar para o salão, com a boca perto da minha orelha direita, seu hálito quente me fazendo ter arrepios por todo o corpo e falou, me fazendo sair daquele torpor - Aquele cara que você colocou pimenta na bebida dele para deixá-la em paz - Ele apontou para o homem, agora sentado, com uma criada o abanando, com um copo de água na mão, parecendo cansado, mas não o suficiente para perder de admirar o corpo da mulher quando ela se virava - Esse cara é um mala, pelo que minha biza me contou. Ele é um tremendo mulherengo, que não pode ver um rabo de saia na frente que vai correndo atrás! - Me virou para ele e segurou minhas mãos. Apenas agora eu pude reparar que ele estava vestido de acordo com as vestimentas da festa. - Você não deve fazer brincadeiras perigosas como quase matar um homem nessa época com uma bebida daquelas - Avisou, apontando para o salão - Você só consegue vim pra cá para descobrir como as coisas aconteceram no passado da sua família, fazer tudo vir a tona. E não mudar todo o curso da história! - Ele parecia completamente furioso agora, mas eu podia ver tristeza em seus olhos. E medo. Medo de que algo saísse errado e pudéssemos mudar o curso da história e da nossa vida. Eu também tinha esse medo. Não pedi para nascer, muito menos para ter a vida que eu tinha, para passar pelo que eu passei. Mas essa era minha vida, e essa era a droga da tarefa que eu recebi. estava sem palavras para responder a ele qualquer coisa, e ele continuou:
- Temos que deixar certas coisas acontecerem, como ele, por exemplo. Você não pode matar ele, porque o certo é que ele morra uma semana após esse baile. Encontrado dentro do mato, perto do rio, sem roupas, com uma corda no pescoço e uma pedra enrolada na ponta.
- Para que a pedra? - Aquilo não fazia sentido!
- Para forçá-lo para o fundo do rio! Ele vai ser afogado por dormir com uma mulher casada, e quando encontrarem o corpo, já estará seco! - Ele se virou e foi saindo, me arrastando para fora do salão, indo em direção a biblioteca.

Chegando lá, ele abriu a porta rapidamente, me jogou para dentro e eu, cambaleando, me joguei em uma cadeira para não acabar caindo estatelada no chão, sob aquele monte de tecidos. Fechando a porta, ele foi até uma espécie de gaveta em uma parede com uma alça redonda na ponta. Puxando-a para o lado, ele a abriu, inundando a sala com o som de uma música suave que vinha do salão e muitas conversas. Me pegando de forma brusca pelo braço, me puxou para perto dele, de frente para aquela pequenina janela antiga na parede, de costas para ele. Com o corpo colado no meu, e as mãos firmes apertando minha cintura, ele falo, irritado:
- Sabe aquela mulher? - Ele apontou para a mãe de Kath, o hálito quente contra meu pescoço me deixando de pernas muito bambas de tantos arrepios - Você é esperta e já deve ter notado que ela é sua parente direta de linhagem, certo? - Perguntou, apertando minha cintura com as mãos, me deixando com falta de ar e uma dorzinha nas costas. - Eles tem muitos segredos, e nesse momento vou lhe contar um, já que isso você não vai descobrir sozinha - Prendi o ar, com medo do que ele falaria - Ela não é a mãe da Margareth, uma antepassada cigana desta sim, é a verdadeira mãe dela! - Não conseguia responder devido a surpresa. Como ela poderia não ser filha daquela mulher, e sim neta? São muito parecidas. O que teria acontecido?
- Eleonora e Harry Baumtos são descendentes de pessoas influentes e poderosas, daí é que surge seu poder em todos os lugares! E vou contar a história deles. Mas, primeiro... - Ele me soltou e foi até a parte de trás de uma estante, puxando um fundo falso. De lá, tirou um livro muito velho e um pouco rasgado, mas com indícios de ser um diário. Trouxe até mim e explicou:
- Este diário pertenceu a uma jovem, Angela, que amou e foi odiada pelo fruto gerado do seu grande amor e de sua dor. Tudo começa com uma família de ciganos que sai da Europa e vem para o Brasil, mais precisamente, para o Rio Grande do Sul - Ele andava vagamente de um lado para o outro, com a voz friamente calma - E, bom... - Deu um risinho triste e surpreso - Melhor eu ler para você entender... - Abrindo o diário, começou a ler devagar, olhando para mim de tempos em tempos, para saber se eu ainda prestava atenção. Fiquei completamente petrificada, de pavor pelo modo como ele agia, medo de ele tentar me machucar. Estava só começando a conhecer o lado sombrio deste garoto tão lindo.

- Viemos para o Brasil, em um vilarejo nos pampas gaúchos, os quais nos prometiam ter fartura, terras férteis e trabalho. Fomos abrigados na casa de um senhor poderoso, que tinha seu poder estendido pelo mundo afora, que nos ofereceu a morada em troca de nossos fiéis serviços. 
Ele tinha um único filho, ao qual ele e a esposa amavam muito. O rapaz era gentil comigo, e eu fiquei deslumbrada por sua beleza e o modo como me cortejava furtivamente. Mas, antes que isso ocorresse, antes dele seduzir uma ciganinha de 15 anos que mal havia aprendido algumas boas lições da vida, durante a Primeira Guerra Mundial, recebemos a notícia que a maior parte da minha família, que ainda se localizava na Europa, havia morrido em uma explosão. Nossa família ficou devastada, e os donos da casa nos ajudaram a suportar e superar nossa terrível perda... E foi assim que Jacobs encontrou uma maneira de se aproximar de mim e me destruir...
Me seduziu para seus braços em meu momento de maior fraqueza pelo luto, me levando por aqueles braços fortes, que me seguravam de maneira firme, protetora e um tanto obsessiva... Me amou todas as noites por dois meses. Às vezes, de maneira um pouco agressiva demais... Até que comecei a sentir dores em meu ventre, e nossos encontros terminaram... Para depois de seis meses termos nossa linda ciganinha de cabelos cor de ouro, olhos claros como o céu, pele branca como o leite, e tão graciosa... 
Tive pouco tempo junto a ela!
Após eu ter a criança, nossos pais não sabiam o que fazer, como esconder a respeito daquele escândalo, do filho herdeiro do seu império ter um bebê com a cigana mais nova da família de serviçais... 
Ele teve um ataque de fúria!
Disse que sumiria comigo e que eu nunca mais voltaria a ver minha menininha novamente!
Escrevo na esperança de algum dia você saber o quanto a amo, mesmo que tenha estado próxima pouco tempo, e que seu pai disse que me levaria para longe, no mato, me mataria enforcada, espedaçaria meu corpo, e enterraria, para jamais ser encontrada novamente!

- Isso é uma carta? - Perguntei, mesmo já tendo meia certeza de que sim era a resposta.
- Você prestou atenção? - Perguntou friamente, rebatendo sem responder a minha pergunta.
- Então... Jacobs não era irmão dela e sim pai? Como eles esconderam tudo isso? Como conseguiram? E... Por Deus, como sua família teve estômago para aturar tudo isso, perder os familiares, perder Angela e... Não fazer nada? - Minha voz muito áspera e eu estava indignada.
- Bem, ai é que a história virou! Como a menina não havia ganhado nome e tinha a beleza do lado da família do pai, além da graça deles, e como ele era muito jovem e não era casado, seus pais, Eleonora e Harry, avós paternos da menina, a adotaram como filha, mesmo doendo não contar a verdade para ela sobre quem era, ela cresceu pensando que eles eram seus pais, e seu verdadeiro pai, seu irmão muito mais velho! Da para acreditar nessa invenção para todos que não sabem da verdade e os conhece, observe!
Eu olhei para o salão novamente, e podia ver: Enquanto os pais olhavam amorosamente para Margareth e cuidavam zelosamente dela, o seu verdadeiro pai apenas a observava e procurava apenas proteger de longe, como um irmão mais velho faria por ela!
- Coitada! Pensa apenas que tem sobrinho e um irmão mais velho, quando, na verdade, o menininho é irmão mais novo dela... - Senti certa tristeza em dizer aquilo, como se eu, de alguma forma, me encaixasse naquilo, e não sei como.
- Agora sabe a verdade!
- Mas e a sua família? O que fizeram? - Perguntei, com uma curiosidade que, de repente, parecia querer me consumir.
- Minha bisa, Marlene, irmã de Angela, sabia de certas "coisas" que ocorriam nessa casa, era muito curiosa! Ela descobriu dos surtos que vem de gerações passadas na sua família, de homens que tinham surtos psicóticos quando estavam com raiva e nada continha sua fúria! Antes eles controlavam bem, mas depois de muitas gerações, foi criado um tratamento, e muitos deles que vinham perdendo o controle, pois cada geração se enfraquecia mais por usar menos força, conseguiu voltar a controlar. Alguns nem ao menos apresentaram uma vez sequer sinais da fúria descontrolada, como Harry Baumtos, e outros que, sem tratamento eram um perigo até para si mesmos, como Jacobs Baumtos. Um assassino frio mas, com muito poder nas mãos. E Marlene era praticante de magia e simpatias! Ela tinha desenvolvido muita habilidade desde criança. Usou a doença genética da sua família contra ela mesma! Aquela força passaria a trazer alguns consequências desastrosas, tristeza, e separação da família, caso não houvesse amor. E, claro, eles ganharam muitos inimigos depois que Jacobs assassinou um líder político com esse poder, e teve em troca, a fúria eterna da família daquele homem contra a sua, até os últimos descendentes de cada lado! Cada pista que deixassem, eles caçariam os homens cruéis da família, pois era apenas entre homens que se passava esse sangue sujo.
- Como pode isso, apenas homens? Mas e Meg? E eu? E as outras mulheres?
- Meg teve sorte, pois foi a 1º mulher da geração com sangue fraco que não mostrou um sinal sequer e morreu cedo! Você veio depois de 4 gerações, o sangue muito fraco!
- Me... Meg morreu? - Fiquei abismada.
- Sim, você vai descobrir isso logo!
- Mas, quantas mulheres tiveram esse sangue? E minha avó?...
- Ela apenas recebeu o nome! Era adotada! Você e Margareth foram as 2 únicas mulheres da família em mais de 20 gerações, que incluía apenas homens, principalmente filhos únicos! E o filho mais velho é quem sempre apresenta os sinais mais fortes!
- Eu sei... Sou filha única... - Falei tristemente.
- Na verdade... - Dyeiden começou a falar, mais foi interrompido por uma batida na porta, nos deixando sobressaltados.
- Vamos embora, não temos mais nada para fazer aqui...
- Mas... - Tentei protestar, mas ele me puxou pelo braço e me arrastou para trás de uma cortina. 
Já escurecia, e pela janela se via um pedaço da escadaria na lateral da casa, onde conseguimos ver o amado de Meg saindo correndo pelas sombras para o celeiro, com ela ao pé da escada, a fraca e amarelada luz do salão deixando seu contorno em um amarelo esbranquiçado, parecendo uma porta na entrada, a diferença era que ela estava dando adeus para ele.

- Vamos logo, quem estava aqui já deve ter ido. - Me puxou de trás da cortina, abriu a porta e, cuidadosamente, me levou para o andar de cima.
Entrando, me deu o braço, fechou a porta, e me levou correndo contra o enorme espelho na parede, que começou a tremer e brilhar, nos esperando, e tudo ficou escuro.