Lista de Músicas

domingo, 27 de março de 2016

Pass X Fure Capítulo 14: Minha vida resumida... Ou quase!

Nos dias que se seguiram, passei a ignorar Judh e Dyeiden, falando por vezes apenas com a Rosely.
Me distanciei deles, procurava ignorá-los no intervalo das aulas e durante as aulas. Se tínhamos trabalho em grupo e os professores me obrigavam a sentar no grupo deles, eu falava apenas o suficiente mas, se havia uma opinião que eu gostaria de expressar, falava, mas fingia não vê-los.
Estava lá para quem quisesse ver. Na segunda, após a festa no fim de semana, o que todos comentavam era o flagra dos pegas que Dyeiden deu em mim com Fred atrás do apartamento, e da cena de ciumes que ele fez atacando Frederico após eu mandá-lo embora. Todas pensavam que eu era uma endiabrada que só afastava os caras, mas mudaram muito de opinião após saberem da novidade dos dois caras gatos e legais, entre os poucos na escola, que brigaram por mim.
Passei no corredor, com várias garotas que olhavam para o celular com as amigas de grupo e lançavam olhares maliciosos para mim, risos ou mesmo "Oi", de forma animada, principalmente as assanhadas.
Quando cruzei com meu antigo grupo, Judh fez menção de vir falar comigo mas, para minha surpresa e ira, Dyeiden, que estava ao seu lado, passou um braço por seu ombro, envolvendo todo seu corpo e virando de costas, com ela olhando por cima do ombro com uma expressão que não consegui definir, entre triste e apreensiva. Rose olhava de mim para eles sem saber onde se enfiar, então veio falar comigo, e passamos a andar juntas, só nós. Passei a ignorar eles, cada vez que passavam por mim, fingindo não saber de suas existências, tratando-os como estranhos.
Na terça, quando vazou o vídeo feito das câmeras em frente ao condomínio e na boate, onde fomos perseguidas e atacadas, todos vinham falar conosco, perguntando como estávamos, se precisávamos de algo, se havíamos nos ferido... Coisas do tipo. Eu dizia que estava bem, me afastando assim que possível.
Após alguns dias, ninguém mais ligou e começaram os ensaios da banda e as provas antes das férias de meio de ano.
Eu ensaiava com vontade, com fúria, botando tudo pra fora na música. Por vezes, comecei a chorar durante os ensaios, convenci a todos que era de tanta emoção que botava na voz para cantar, porque começaram a se mostrar preocupados com minhas reações, principalmente quando comecei a aparecer com a ponta da guitarra toda remendada e a jogá-la em um canto do palco toda vez que ficava enfurecida ou que via Dyeiden na porta da sala, em meio a penumbra das cortinas, me vendo ensaiar. Nesses momentos, eu cantava as músicas que passariam para a imagem da garota ferida, em fúria e em chamas por dentro, machucada e se sentindo abandonada por aquele que sabe seus segredos e que a descartou como lixo. Quando acaba jogava a guitarra em um canto e saia para o banheiro interno da sala pisando firme. Me debulhava em lágrimas lá dentro. Já ia com uma bolça preta e com franjas que tinha ganhado de aniversário da Rose, com um kit de lenço umedecido, rímel, lápis, pó compacto e muita, mas muita sombra preta. Deixava o pessoal sem ter o que dizer, principalmente quando eu mandava trocar o vocalista e pegava a guitarra, tocando com fúria, deixando para eles apenas a opção de me obedecer. Mandava mais que a professora já. Ninguém vinha me contestando ou dizendo para parar, pois haviam ouvido as histórias da minha desilusão amorosa e ficaram com a impressão que havia aceitado namorar com Frederico apenas para esconder o que estava sentindo, o que, na opinião geral, visivelmente não vinha funcionando. Mas como eu mandava muito bem e não agredia ninguém, deixaram eu botar minha revolta para fora como fosse, como uma fase ruim da minha adolescência.
Passamos a sair juntos da escola, minha mãe por vezes nos levando de carro para casa, em um terrível climão dos 3 querendo se matar lá dentro, ela alheia a tudo. Era mais fácil de ônibus, que nos sentávamos bem no fundo, nos abaixando para ninguém ver nossos pegas. Começamos a sair aos fins de semana, ele ficando na minha casa, dormindo no quarto de hospedes, o que não o impedia de vir ao meu quarto no meio da noite. Já na casa dele, eu dormia na cama e ele em um colchão, como quando eramos mais novos. A família dele estava super feliz por nós, porque sempre gostaram de mim e eu deles. Minha mãe mais aliviada. Ele parecia contente. Eu queria morrer. Minha raiva borbulhava...
Eu já sabia mais coisas do qual eles jamais contariam, como por exemplo, que eu tenho um irmão mais novo chamado Marcos. Continuo a ter pesadelos com ele, de quando fomos separados. Antes nada era claro, pois eu não fazia distinção de lembrança com simples sonho. A verdade havia sido cruelmente arrancada de mim no passado.
Já estava naquela fuga da realidade havia uns 3 meses mais ou menos, estávamos em Setembro. Eu saia apenas com Rose e Fred, e eles não se davam muito bem, então tinha que sair dia com um, dia com outro.
Ele não é do tipo romântico sempre. Manda bilhetes, manda flores, está sempre perto e presente, mas curte mais ele mesmo, ficando desligado no próprio mundo.
As vezes é difícil ter de encarar Dyeiden quando estamos andando pela casa. Fecho portas na cara dele, corro para dentro quando o vejo no gramado, fecho a cara e o ignoro se cruzamos nos corredores.
Passei a ficar mais tempo quanto possível com Rosely, que agora era minha unica amiga de verdade. Eu possuía fãs na escola agora, mas não era nem perto. Passamos a conversar sobre o que ocorria em nossas vidas, até que, naturalmente, surgiu o assunto de como nos tornamos "feras". Ela tinha mais a contar do que aparentava.
- Minha irmã foi a primogênita da minha família e desenvolveu a força e as habilidades que nossas famílias, como "feras", vem a ter! - Disse feras entre aspas, não tendo um nome melhor para nos identificar. Estamos caminhando no gramado atrás da minha casa, e ela está novamente com aquela expressão de adulta séria enquanto explica sobre um assunto que entende. - Como sabe, as cinco famílias possuem esta habilidade: Os Baumten, os Dexten, os Strugaus, os Lorens e os Bulgarian. Possuem ligação com nós os Hell. - Falou toda a lista dos nomes das famílias, sem errar nenhum. Eu ficava admirada.
- Você pode perceber que sofremos mutações, possuímos enorme força quando bem usada. Mas isso não significa que irá mudar nossa natureza normal falha, como... A leviandade da minha irmã; O seu descontrole emocional; A lerdeza da minha irmã mais velha; O mau humor da Ju...
- Para! Se for para falar nessa pessoa, mudemos de assunto! - Cortei-a, com medo do que poderia ouvir. A verdade mesmo é que não conseguia perdoá-la. E a pergunta que nunca saiu da minha cabeça: Por que?
- Ok! Continuando... Nós possuímos, além disso, os denominados pelos ante-passados de irmãos de alma, que seriam os membros da família que nasceriam com uma ligação espiritual forte, fazendo com que sintam emoções, dores, transmitam pensamentos de um para o outro, e assim segue...
- Mas como saber se temos um?
- Você os sente! Pode sentir sua presença, pode sentir dores onde ele sente, ou seus sentimentos como se fossem seus... As vezes podem não estar perto o suficiente para seu radar sentir, ou mesmo nem terem nascido. Mas todos temos, com certeza, nossos irmãos de alma, que são os únicos capazes de nos ajudar a aprimorar quem somos, além de serem amigos íntimos com o tempo.
- Como você sabe que é seu irmão de alma?
- Como nas teorias da parte do corpo onde a alma se extrai com mais força, somos ligados pelo umbigo. - Ela aponta para a própria barriga - Quando está próxima, você sente ele como se fosse a si mesma, com força na barriga, que fica como um imã na direção dela. Existem os que são bloqueados por algum motivo, ou demoram a sentir, como você!
- E o seu irmão de alma seria... - Perguntei, já meio sabendo a resposta.
- Você sabe quem ela é! Teve muitas provas disso.
Concordei com a cabeça, sem precisar citar nomes.
Tivemos algumas conversas explicativas do gênero, ao longo do tempo. Minha vida não chegava a ser totalmente monótona. Mas, quando pude perceber, já estávamos no final do ano, passamos o Natal e o Ano Novo! 
Comemoramos as datas de maneira diferente, bagunceira, correndo pelas ruas da cidade em meio às pessoas e diversas festas, com o pessoal da escola soltando rojões, bombinhas e as velinhas que soltam faíscas. Caixas delas. Muitas e muitas. Pulando, correndo, rindo... Não lembrava a última vez que me senti tão feliz, elevada e de bem com a vida, sem ligar para o resto do mundo.
Eu iria para o ensino médio agora, e sabia que o inferno provavelmente seria maior na escola... Mas não estava pronta para tanto!
- Dyeiden foi reprovado! - Rose chegou correndo, eufórica e em pânico na frente do escritório que minha mãe trabalha, onde eu lia um livro, para me contar a bomba na lista das turmas do novo ano, que devo confessar, não me agrado por aqueles motivo. - Parece que ele não apresentou uns trabalhos e saiu antes do horário diversas vezes, estourando a cota! E, como somos pouco mais de 20 na turma... - Prendi a respiração, somente esperando ela falar o que já havia concluído - Ele vai ficar na nossa turma esse ano!
Encarar Judith todos os dias duas fileiras de distância mais a vaca da Celya já é difícil, agora com Dyeiden sentado propositalmente ATRÁS de mim... Vai ser quase impossível de aturar o ano todo!
No intervalo, comecei a ir direto para os ensaios, mesmo que agora tenha que aturar Judh dividindo o palco comigo e Celya contestando minhas ordens na maior parte do tempo e batendo de frente, algumas vezes nós duas saindo aos tapas na frente de todos, precisando sermos separadas, e desta vez ela virando o jogo: Conseguindo me deixar de culpada!
Yoland andava furiosa comigo, porque antes de Maio já haviam me chamado na diretoria e mandado avisos de comportamento para ela umas 10 vezes! O que pra mim era sinal para entrar em pânico e arrancar os cabelos...
- Furto; Porte de drogas na mochila dentro da escola; Agressão física e verbal; Ameaça... O que eu faço com você agora Lyn? Vou precisar mandar você de volta para a clínica? - Ela falava cansada comigo... Cansada da vida, do trabalho e da filha delinquente juvenil! - Você já vai completar 16 anos e começou o ano com a ficha corrida daquelas...
- Olha, Yoland, você realmente não precisa fazer nada disso... Estou bem, só... Só estou tendo problemas, desavenças, com certas pessoas... Mas logo isso será resolvido! - Precisava ganhar tempo...
- Você está perdendo tempo! Se pensa que vai se livrar do castigo apenas com desculpas, quando tenho as provas impressas bem aqui - Apontou para a cópia da minha ficha, que a droga da diretora mandara pelo correio, fazendo a situação parecer ainda mais agravante - Está enganada! Frederico não virá mais te ver, nem receberá Rose enquanto não mudar isso! Ou mandarei você de volta!
- Eu vou! Prometo! Mas não impeça Rose de vir aqui...
- Até mudar essa merda aqui, é minha palavra final! - E saiu.
A verdade é que ela está se esforçando, de verdade, para me manter perto dela, e eu estou, de verdade, procurando ficar longe de confusão. Se ela soubesse... Fica mais difícil ainda só de lembrar o porquê que não nos damos bem a anos...

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A senhora tem certeza que não vai aceitar fazer a internação da sua filha, Sra. Yoland? A Justiça não está a seu favor neste momento, mas ainda priorizam o bem-estar da menina! Garanto que ela será bem cuidada e tratada. - Fala o diretor da clínica. Mamãe está encolhida na cadeira, apertando a bolsa amarela com força no colo.
- Será que não haveria outra forma? Consultas que ela pudesse comparecer que ajudassem...
- Infelizmente, o caso dela é sério! Ainda mais que só tem 5 anos. Mas... Atacar à unhas e dentes outras crianças por uma coisinha boba... - Ele deu de ombros, desejando acabar logo com aquela conversa e mandar minha mãe embora é eu, para dentro de uma clínica psiquiatra infantil! - Ainda mais que ela se encontra agora sob a guarda do Conselho, e não terei como alterar a pena, a menos...
- A menos? - Perguntou minha mãe, esperançosa.
- A menos que a senhora tenha como pagar indenização aos pais daquelas crianças, o que não seria fácil, uma vez que uma das crianças ainda se encontra internada em estado grave. Os pais estão furiosos e desesperados!
- De quanto seria a multa?
- Uma grande quantia para a senhora pagar sozinha!
- De quanto estamos falando?
- Em torno de 30!
- 30?...
- R$30.000,00!
Mamãe ficou pálida, sem saber o que dizer.
- A outra solução... Sua menina, nos próximos 6 meses, não apresentar nenhum sinal de que irá acabar atacando novamente!
Mamãe orou em silêncio, pedindo forças para aguentar e que eu amadurece-se rápido o suficiente para ser livre novamente.
- Tudo bem doutor! Não terei como pagar este valor, e serei obrigada a concordar! - Ela então, assinou uns papéis.
Eu estava na sala de espera, encolhida, com uma atendente de cara fechada, cansada de ver malucos naquela sala. Corri para ela assim que saiu da sala.
- Já podemos ir mamãe? Não gosto deste lugar! - Doeu para ela ouvir minha opinião honesta de criança - Desculpe querida, mas... Não posso fazer isso! - Falou, me colocando no chão!
- Porque não? Eu não gosto daqui! - Falei, ficando assustada com o possível abandono dela.
- Não posso levar você... Preciso resolver algumas coisas, e não consegui permissão para você ir... - Falou, e foi saindo.
- Por favor mãezinha, não! Não me deixe... - A atendente me segurou pelo braço e me puxou para ela. Eu chorava e lutava, como na noite em que minha família foi dividida. Só que não pude me soltar... A mulher me aplicou uma injeção e foi esperando meu corpo amolecer e eu ficar quieta, enquanto chamava... - Mamãe, não! Não! Não! Não me abandone! Mamãe... Eu não... Quero ficar... Quero papai e Marcos... Por favor... - E caí no sono vendo ela partir, com a visão distorcida.
Nunca imaginaria que ela saiu chorando do consultório não querendo me deixar, mas permitindo com medo de eu estar solta novamente e vir a ser um fardo para ela.
Depois, começou uma longa jornada... Fui mandada para um reformatório em Santa Catarina, o qual não lembro o nome, aliás, não lembro o nome de nenhum dos lugares onde, por lei, fui enviada. Mamãe nunca foi me visitar, não depois de 6 meses. No primeiro reformatório, sentia muito medo, só desejando minha família, chorando todas as noites na primeira semana.
Tinha uma menina ruivinha, Lina, com grandes cachos cheios de nó, com duas "porteirinhas" nos dentes da frente, grandes e brilhantes olhos verdes e muito alegre que vivia atrás de mim, porque me achava fofa por ser uma loira de cabelos quase brancos de tão claros, olhos azuis limpos, os cabelos abaixo da cintura com cachos perfeitos e uma franja que cobria meus olhos, não permitindo que vissem, assim, quando eu chorava ao ser humilhada por uma das mais velhas. Lina ia para cima e para baixo com um urso de pelúcia pequeno e marrom. Não lembro bem, mas era desta cor por nunca ter sido lavado.
- Porque veio parar aqui? - Perguntei uma noite para ela.
-  Eu não sei ao certo... Falaram que foi algo na minha cabeça que me faz ser irritada as vezes...
- Esquizofrenia?
- Provavelmente um dos problemas!
- Foi o que falaram de mim... Mas eu sei que não é, eu ouvi minha mãe e meu pai falando, é algo de família, que me torna forte, por isso eles tem medo!
- Espera! Medo de que?
- Do que eu posso fazer. Das minhas possíveis habilidades! Estou presa aqui...
Minha mãe me visito lá brevemente, e passei 1 ano lá até as meninas planejarem uma fuga, eu me juntar a elas, eles irem até mesmo armados atrás de nós e matarem várias... Lina me protegeu, ou não estaria aqui! Fui forte por ela, peguei seu urso em meio aos prantos, nas chuva e no barro no meio do mato, vendo seus olhos e seu corpo perderem a vida, enquanto uma das meninas mais velhas me pegava no colo e corria comigo gritando, implorando para a ajudarem. Foi a primeira vez que vi a morte de perto.
- Nos encontraram 3 dias depois, escondidas em becos e, como éramos crianças e não tínhamos para onde ir, levaram cada uma para um local...
Eu tinha pesadelos a noite por ter visto uma amiga morrer, diziam os médicos, então me transferiram, porque o local era um lembrete da minha condição.
Fui mandada para o Paraná, onde foi mais difícil, pois lá tínhamos que dividir espaço com os meninos, alguns entrando na adolescência, gostavam de molestar as meninas, principalmente as da minha idade, por terem sofrido abuso nessa idade... Eu não fui diferente em ser molestada, ou melhor, ter garotos acariciando meu corpo... Mas fiz com que ficassem longe quando acertei as partes de um baixinho e corri, fazendo a imagem de garotinha braba, fazendo eles se afastarem. O respeito foi tanto que ganhei uma protetora, uma menina de 11 anos que já era assumidamente homossexual. Era linda e grandalhona. Passou a cuidar de mim enquanto estive lá, por quase dois anos. Nunca me tocou sem permissão. Minha mãe se transferiu do trabalho quando fui mandada para um reformatório no interior de São Paulo. Lá meus problemas aumentaram porque, além de uma das meninas ter sido encontrada morta na MINHA CAMA, com as mesmas marcas de ataque que constam no meu histórico, simplesmente deduziram que minha "esquizofrenia" era grave e eu demonstrava perigo.
No novo reformatório, bem... Tinha o tratamento de eletro choque para esquizofrênicos, assim como corredores imundos e úmidos, saídos de filme de terror. Quando fui levada para o primeiro tratamento de choque, tive um surto, gritei e me debati na maca, com aquelas luzes fracas e piscantes passando lentamente por mim, sendo que os quartos são no fim do corredor. Fui colocada na cadeira mas, antes de me amarrarem, os ataquei, acho que matei um dos funcionários e corri, virando tudo pelo caminho.
Mas quando me pegaram novamente... Bem, não preciso dizer que deu tudo certo. Conseguiram fazer o tratamento em mim... E meus sintomas? Não é muita coisa, só: A- Eu via um espírito sempre perto de mim, que hoje sei que era eu; B- Eu via outros espíritos onde eu ia, mas eram todos sombras malignas, o que me dava medo; C- Eu mordia de jorrar sangue das pessoas e arranhava de tirar pedaços... Bons motivos? Para uma criança que perdia tudo sem controle, não!
Os tratamentos foram tão brutos e fortes que eu fui perdendo a memória passada do que me feriu, de tudo o que me entristecia... Esqueci que tinha um irmão, pai vivo, que uma menina morreu para me salvar, que fui atacada... Quando fui na lanchonete com... Aquelas pessoas, não que eu não quisesse contar muito sobre mim, mas simplesmente não lembrava de nada!
Saí de lá em uma manhã nebulosa, toda vestida de preto para demonstrar meu humor azedo e melancólico, com apenas uma mochila nas costas, o ursinho dentro dele. Yoland estava me esperando no carro, ensaiando um discurso dentro do carro quando me aproximei e bati no vidro para destravar a porta e me deixar entrar. Estava com 10 anos. Já sabia que era forte simplesmente por ter resistido a todo aquele sofrimento. Mas não era mais a mesma. Não naquele momento. Não sozinha.
- Se despediu de seus amigos? - Perguntou, tentando puxar conversa, querendo amenizar o clima pesado que estava no carro, por eu simplesmente ter entrado e sentado silenciosa, sem dar oi.
- Não tinha com quem fazer isso. Podemos ir? - Puxei meu cinto, dando por encerrado o assunto. A verdade é que eu não queria me despedir. Não gosto de me despedir. Eu tive, após um longo tempo, uma garota de um grupo com quem eu andava. Era como andar com patricinhas, só que vestidas de preto, rebeldes, e que protegiam os seus e partiam para a briga quando era necessário. Eu era uma delas. Era do lado negro e seguro do lugar. Mas estava na minha, andando pelos corredores com duas ou mais crianças do grupo, sendo seguida, mas ficando na sombra, ou não sairia mais daquele lugar se me metesse em confusão. Até que aconteceu e eu saí.
Fomos morar em um apartamento novamente em Santa Catarina, e fui transferida para uma nova escola, Mary Clarence. Eu era fechada lá, só usava preto, sempre de fones, encostada nas paredes perto de locais mais escuros, não me misturava, não falava com ninguém, fazia meus trabalhos, incluindo os de grupo sozinha até... Até conhecer a garota mais maluca e vagabunda daquele escola, legítima ferrada e rejeitada, como eu. Com 11 anos, já tínhamos tido tantas aventuras quanto qualquer adolescente, mas eramos crianças ainda.
Nina tinha sérios problemas com os pais, então saiu de casa. Para piorar a situação, era viciada em coca. Se prostituía para conseguir o dinheiro, já os estudos... Nem sei que droga ela inventou para continuar. Morava em uma quitinete que era a pior merda do mundo, de tão mal cuidada. Saíamos as duas juntas, e foi em uma saída que eu fui apresentada ao Frederico, que tinha olhos medonhos e cativantes, além ser o mais popular da escola. Logo que pregou o olho em mim, veio puxar conversa, apesar de eu ser fechada, me derreti por dentro e me abri aos poucos, me permitindo ter mais alguém comigo. Saia com eles sempre que possível, para não aturar minha mãe perguntando o tempo todo se eu estava bem, se precisava de alguma coisa, só largando do meu pé ao me ver saindo com "amigos". Isso aliviava ela e me deixava mais solta. Também manteve controle sobre os remédios que eu devia tomar para possíveis alucinações e tal... Eu tomava, mas, ao parar de me vigiar tanto, comecei a jogar tudo fora. Matei 3 plantas assim, por colocar nos vasos onde elas ficavam. Também tentava fazer eu interagir com ela tendo tarefas em casa, mas isso nunca funcionou muito.
Quando ela recebeu a notícia da herança, bem... Larguei tudo e fui com ela. Sem lágrimas, despedidas e desespero. Não que a ideia tivesse me agradado, porque não foi o que aconteceu. Lá eu tinha amigos, consegui me encontrar e depois... Eu não sei! Nina, até onde fiquei sabendo antes da traição dos meus supostos amigos, morreu de overdose.
Claro que esqueci um detalhe... Não menos importante, mas estranho e ruim do meu passado... Um acidente horrível de verdade.
Ocorreu no abrigo para onde eu havia sido levada após fugir do primeiro "hospício" infantil. Era um prédio velho, mal cuidado, onde muitas pessoas se escondiam. Em uma noite, acordamos com um cheiro forte vindo de todos os lados... Tudo estava coberto de fumaça... Eu fiquei completamente apavorada... Tinha quase 7 anos, era só uma guriazinha assustada! Havia aprendido algumas coisas sobre sair de um incêndio... Pode acreditar, tudo o que eu havia aprendido que nunca expliquei, foi em um dos locais onde estive trancada!
Bem... Como eu dizia, não era algo fácil de se enfrentar... Eu ouvia pessoas gritando e pedindo socorro. Eu mesma teria pedido ajuda, mas era silenciosa e ágil sozinha! Com outra pessoa junto? Eu não sairia inteira! Corria, passando pelas diversas peças do prédio, vendo pessoas gritando, crianças chorando ao verem seus entes mortos por destroços que caíram sobre eles ou que simplesmente queimaram nas chamas... Era uma cena horrenda de ver... Eu sabia que poderia ter esquecido um detalhe, uma pessoa, mas não saberia dizer quem... Alguém que gostava de brincar com o fogo e o perigo mais do que qualquer criança que eu conhecesse... Uma menininha ruiva, toda suja e machucada... Não lembrava muito bem dela... Era a segunda vez que eu esquecia de alguém que havia conhecido... Assim como da última vez em que vi uma menina que pintou os cabelos de preto no outro reformatório, que era tão tímida que tinha medo até de uma mosca, e dormia na cama do outro lado da menina que foi encontrada morta na minha cama...
Enfim, eu desci correndo as escada o máximo que pude, mesmo tropeçando pelo caminho, engasgando com a fumaça e quase colocando meu jantar pra fora de tanta ânsia que eu fazia, cheguei ao terceiro andar, onde era mais aberto e poderia respirar e ver melhor... (Acreditem, era um prédio grande, e eu estava no oitavo andar!), quando fui descer outro lance de escadas, uma menina agarrou meu braço e tentou me puxar de voltar para o incêndio, mesmo que eu protestasse para ela me soltar. Ela gritava, chorava e implorava, mesmo eu não conseguindo entender o que ela dizia... Foi quando aconteceu. No momento em que uma parede iria cair sobre nós, eu percebi e a empurrei, fazendo ela me soltar. Como estava para o lado das escadas, tinha uma saída e, juro que não fiz por mal, no máximo seria homicídio culposo, porque não tive a intenção de matar ela... Apenas vi o momento em que ela desvio da parede, tropeçou em um destroço, perdeu o equilíbrio e, como os corrimão finíssimo da escada havia se partido no local onde ela estava, bom... Ela caiu... E eu pude apenas ouvir seu grito assustado antes do corpo atingir o piso do primeiro andar com um baque. Foi a primeira vez que larguei alguém para morrer, e fiz sem ter a intenção...
Eu... Não é o meu assunto favorito para conversar! Acredite, meus pesadelos pioraram muito depois disso, e nunca contei para ninguém do ocorrido, pois era meu peso para carregar. Minha cruz. Tudo começou a sumir após os tratamentos de choque, e um vazio foi se formando. Mas não agora. Agora eu lembro dos meus erros, sei que carrego um peso no peito e pensei, de verdade, que aqui nesse lugar eu iria melhorar, mas talvez eu tenha me enganado. Mas a verdade é que já cheguei ao ponto de tentar matar, mas é segredo de estado, guardado a sete chaves por mim e pela pessoa que eu feri!
Minha mãe cuidava de mim, ao modo dela, mesmo que não demonstrasse sentimentos... Ela as vezes parecia nem gostar de mim... Nunca leu para que eu dormisse, ficava furiosa comigo quando eu quebrava algo em casa, não gostava de me ver na cozinha nem para comer biscoito... Nem me fazia carinho! Exigia coisas idiotas, ficando perturbada por qualquer coisa... As vezes, naqueles lugares onde fiquei, me sentia mais em casa do que com minha própria mãe... As meninas cuidavam umas das outras como família, pelo menos, as que se davam bem! Tinha até as que liam para nós, das meninas mais velhas, que davam beijos de boa noite e dormiam junto das pequenas quando tinham pesadelos ou ficavam com medo das tempestades.
Minha mãe era fria muitas vezes e, somente agora, eu imagino se essa frieza comigo não seria apenas que ela desconta inconscientemente em mim a raiva do papai ter fugido e a tristeza de ter de ficar longe do meu irmão. Mas isso jamais justificaria ela agir não como uma mãe, mas como alguém que carrega um fardo de outra pessoa nas costas...
Bom... Seguindo até onde eu parei, para meus últimos problemas!
A história da minha ficha é assim: Eu tive um belo desentendimento com a vaca da bruxélya e ela se vingou mandando alguém colocar E na minha mochila, provando isso pelo meu estado de euforia quando cantava e minha total deprê disso; Juro que não roubei nada, como eu disse, evitando problemas. Um celular foi achado na minha mochila e páh! Fui apontada como culpada; Os outros eu admito, durante a discussão, dei um tapa forte de derrubar a Célya no chão, chamei ela de vadia oferecida ha ha ha ha e ameacei de matá-la caso se metesse no meu caminho outra vez. Acredite, ninguém nesta escola é santo! Todos somos demônios, mesmo que não aparentemos...

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