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segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Pass X Fure Capítulo 15: O traidor e os apaixonados

As coisas na escola estavam voltando a se equilibrar para o meu lado, eu até não estou entendendo bem o que vem ocorrendo, tem uma certa... calmaria no ar. É como se tudo estivesse em estática, parado, a energia estalando, apenas esperando algo para tornar tudo inflamável e explodir de uma vez.
Desde que fiquei de castigo, os problemas parece que simplesmente fizeram puf, e sumiram.
Sério, até sinto medo desse suspense.
Célya simplesmente parece ter esquecido que eu existo e voltou a tentar assumir o grupo de populares, mas não parece estar sendo bem aceita. Como eu sei? Digo com base no que vi outro dia: Ela chegou com suas seguidoras no grupo de populares veteranos do ensino médio ( que no momento se encontram sem líder definido devido a última eleita ter se formado em dezembro!), e ela foi jogar seu charminho para lhes fazer a cabeça mas... Elas disseram algo e foram embora, deixando uma Célya furiosa, toda vermelha de raiva, pensando em um plano mirabolante de vingança para ser aceita a todo custo e tornar-se a nova líder do "clã". Suas seguidoras não gostavam quando isso acontecia, pois tinham de fazer esforços inúteis na tentativa de agrada-la para que esta se acalme.
Já não vejo mais Judith e Dyeiden andando sempre juntos... (será que o paraíso está ruindo?).
Mas o que vem me preocupando é a Rosely... Anda muito calada, evitando as pessoas, sempre triste e desanimada, sem brilho, chorosa e até... Evitando ser tocada. Não é do feitio isso, pois ela é muito chiclete sempre abraçada nas pessoas, carentona, rindo a toa e extremamente agitada e desastrada... Tenho até medo do que pode ser desta vez...
E quanto a mim? Bem... Eu continuo viajando pelo espelho, agora que sei como atravessar o portal, estou descobrindo mais sobre o passado, e sei que Margareth (ou eu) morreu por traição de alguém de confiança, que avisou de sua fuga... Mas ainda existem coisas que não entendo.
Já estou sentindo algo de diferente na minha relação com Fred... Sinto ele distante já faz algum tempo, mas... Como eu disse, está tudo muito quieto, apenas suspeitas.
Nas aulas, fico irritada com Dyeiden, me vigiando quando não olho para ele, mesmo que eu sinta o calor que me percorre e deixa meu rosto em fogo, mas fingindo total indiferença quando me atrevo a olhar para ele. Judith sempre fica indiferente a tudo, como se não ligasse... E Fred anda distraído ao ponto de que eu imagine se ele ainda tem interesse em mim... Se bem que eu, bom... Estou cansando dele.
Mas, foi um tempo depois, logo após eu terminar um ensaio em grupo e estar guardando meu equipamento antes de sair que Rosely entrou esbaforida, bufando, muito sufocada, com as mãos apoiadas nos joelhos, erguendo um dedo pedindo atenção para falar, mas desistindo ao baixar a cabeça para respirar novamente. Ficou assim por um tempo, até recuperar bem o fôlego, sem ter percebido que todos na sala haviam parado com o que estavam fazendo, até mesmo alguns colegas foram perguntar se ela estava bem, e um rapaz pôs a mão em seu ombro, com ela discretamente se encolhendo ao seu toque e se afastando, dizendo que estava bem, que foi apenas a pressa de vir correndo que a deixou exausta. Ela se aproximou de mim, dando tchau para os que saiam, apenas ganhando tempo. Quando fazia esse tipo de coisa, de forma equilibrada, era motivo de preocupação para mim.
- Ok, o que pode ser tão sério para essa cena que você acabou de fazer aqui? Pensei que, dessa vez, você ia ter um ataque!
- Ora, por favor, Kath querida. Eu sei que eu exagero as vezes, mas também dou as minhas bolas dentro.
- As vezes Ro? Você tá doida? Tá sempre se apresentando... - Falei ironicamente, já assustada com ela...
- Ok, esqueça. Tem algo importante e sério que você precisa ver AGORA, algo importante, que explica isso... - Ela estava com a mão apoiada no braço, e decidi segui-la, obediente e silenciosa.
Fomos andando pelo corredor, saindo e, para minha surpresa, segui Rosely até a parte de trás da arquibancada do ginásio. Aquilo estava definitivamente me assustando. O que pode ser tão sério a ponto de... AimeuDeus.
PARA TUDO!
Rosely cobriu minha boca com a mão com força para que eu não fizesse barulho, para não entregar nossa presença atrás do pilar onde estávamos escondidas. Eu estava sem ar, com os olhos arregalados, surpresa com a cena que ela me faz assistir silenciosamente.
- Não faça barulho, que eu vou pegar o celular para filmar, para termos provas posteriormente. Me desculpe não ter falado nada antes que eles seguiam se encontrando, mas você precisava ver com seus olhos. Não é justo que você esteja com o cara errado, certo? - Falava ela bem baixo no meu ouvido, para que apenas eu pudesse ouvir. Ela pegou o celular no bolso, cortou o som, agachou-se na minha frente e ficou ali por cerca de 1 minuto que, para nossa surpresa, ouvimos a conversa mais reveladora de todas!
- Nossa Frederico, seu beijo fica melhor a cada dia... Nem parece que beijar a esquisita sem-sal da monstrinha valia o esforço mas, afinal, foi bom para você treinar. Não acha?
- Ora, ora, majestade. Você me fazendo um elogio? É coisa rara... Quer dizer que treinar com ela foi bom então? - Ele sorriu, deixando meu coração totalmente partido ao perceber com o tom de brincadeira com o qual ele se refere a mim. Sem contar que ele não me defendeu da forma com a qual ela também debochou de mim, com o apelido que ela me colocou no primeiro dia. Mas é claro que viria mais por aí.
- Porque não termina logo com ela meu bem? Perdendo tempo com essa esquisita... Já não me entregou informações o suficiente sobre ela? - ... O que?...
- Você que me mandou ficar de espião, descobrindo o máximo de podres sobre ela e a família, e é isso que tenho feito até agora... Não seria o bastante?
- O bastante? Nunca é para mim! Se não fosse por ela, eu ainda estaria no topo da cadeia alimentar deste lugar, comandando tudo como faço desde que cheguei. Ela me desafiou desde o começo, e para agradecer, vou devolver o favor, expondo para todo mundo sobre as esquisitices dela e da família... - E deu uma grande gargalhada irônica com uma voz muito desafinada e roncando com o nariz.
Eles foram saindo, e Rose desligou a câmera, me puxando para perto, tomando o cuidado para que eles não me vissem.
Vou mandar para o grupo fechado das famílias pactuadas. Podemos precisar de ajuda logo. Frederico sabe muito sobre nossas famílias de "feras", assim como a Célya, que a mãe casou com um de nós... Mas os de fora sabem quase nada, e ela está querendo derrubar você com isso. Mas é efeito dominó. 80% desta escola é de crianças das famílias do pacto, as outras são só problemáticas mesmo ou o pai/mãe casou com um da nossa linhagem e teve um filho que pertence à família e que, por isso, os "normais" frequentam esta escola. Graças aos irmãos. Mas se ela fizer você cair, todos cairemos juntos. Teremos apoio.
Ela acessou uma página pelo celular e enviou o vídeo, que de membros continha o equivalente à todos que eu conhecia na cidade.
Mas minha cabeça não estava ali, estava no Fred, em suas palavras duras e na sua traição. Outra vez. Ele mentiu pra mim. Nunca gostou de mim. Começou a namorar para me usar. Não era á toa que as vezes eu sentia certa repunancia com sua presença. Ainda bem que nunca dormi com ele, ou estaria morrendo de arrependimento agora.
- Me mande o vídeo! Vou precisar mais tarde. - Dito isso, saí apressada. Tinha um termino de namoro para fazer e um carinha vigarista para expor.
Na frente da escola, cheguei a tempo de ver muita gente pegando o celular no bolso no momento em que recebiam e abriam o vídeo enviado pela Rô, incluindo eu mesma, já tendo na mão o que eu precisava para esfregar na cara dela sua automutilação. Ele veio tentando me abraçar, e eu me esquivei levemente.
 - Ei, aconteceu algo querida? Algum problema? - Perguntou, na maior cara de pau.
Comprimi os lábios com raiva, mas sabia que não estava ali sozinha para enfrentar a situação. Percebi que muitos assistiam surpresos ao vídeo, olhando para nós, ouvindo o comentário para o grupo que Rosely falou no final, ficando todos alertas e preparados ao nosso redor. Alguns, ao terminarem de assistir, se aproximaram e aguardaram, caso eu desse algum sinal.
- É engraçado você falar isso Frederico porque, sim, tem um probleminha aqui, um problema entre nós, um problema, inclusive, muito grave. - Falei, irônica, mudando meu tom para furiosa em seguida. - O grande problema que é VOCÊ, seu canalha maldito! Traidor! - Rosnei, quase sem conseguir me conter.
- Mas do que é que você está falando? - Ele deu uma risada sem graça, como se me chamasse de louca.
- Você não sabe, então, deixe que eu refresque sua memória! - Desbloqueei a tela do celular, abri o vídeo e virei a tela para ele assistir. Foi ficando pálido na medida que as imagens se desenrolavam na tela, e eu desliguei antes da parte sobre ir para o grupo. Ele não era digno disso.
- Háháháhá, é sério isso? A Rosely fez isso? É sério meu amor que você vai acreditar na montagem que aquela vaca invejosa fez? Por favor Kath... - Não deixei ele terminar. Deu um tapa tão forte no seu rosto que o deixou mudo de surpresa.
- Nunca mais fale da minha amiga desse jeito, tá me ouvindo, seu merda? Traiu minha confiança pela última vez com aquela piranha de quinta! E para sua informação, não é montagem, porque eu estava presente e assisti a sua maravilhosa performance como ator aqui, e lá! É sério, você devia ganhar um Oscar, por me enganar tão bem todo esse tempo... Mas agora chega! - E bati palmas para ele, em um silêncio mortífero nos cercando, sem graça nem beleza, só o clima pesado. - Pensou que poderia me enganar, mas eu tenho com ela algo chamado lealdade, coisa que você jamais teve comigo, e que eu quero me matar por ter tido por você. - Eu gritava pra ele, sem ligar para quem estivesse ouvindo. Eu estava dilacerada, e só queria pôr minha fúria para fora. - Nunca mais se dirija a Rosely da forma como falou aqui. E nem a mim. Acabou tudo entre nós. A partir de agora, não estamos mais namorando.
Eu me virei e ia sair, quando senti ele segurar meu pulso com toda a força, me puxando de volta. Ele estava me machucando.
- Escuta aqui, sua idiota, ninguém fala assim comigo e sai ileso... - Ele não terminou, erguendo a mão para me dar um tapa, quando Dyeiden chegou e segurou seu pulso.
- Ei, não acha que já fez o bastante Frederico? Solta ela. - Falou, muito sério.
- Não se meta, macumbeiro! - Falou Frederico, praticamente cuspindo as palavras no Dyeiden. - Vai fazer o que? - Desafiou.
- Eu? Vou deixar para o julgamento geral, afinal, as provas todas apontam para você! - Falou ele, soltando o pulso de Fred, que olhou para mim e me soltou, olhando ao redor. Várias câmeras de celular apontadas para nós, com imagens congeladas de Frederico me segurando com força, a outra mão ameaçadoramente erguida para me bater, com Dyeiden me defendendo, segurando sua mão, evitando que sobrasse para mim.
- Você ainda vai se ver comigo! - Me ameaçou ele.
- Será? Você está envolvendo muita gente nisso! Vá agora! - Eu falei, sentindo muitos alunos parados ao meu redor e atrás de mim, como uma corrente, todos com a fúria das feras borbulhando. Podia sentir todos nós conectados. Meus olhos, assim como o de todos, incluindo Dyeiden, brilhando em vermelho, como se fossemos atacar a presa da matilha, mas apenas dando um aviso de que ali todos eram família. Quando ele se afastou, todos se dispersaram, não sentindo mais o perigo, cada um tomando o caminho para casa.
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Eu achava que iria me sentir um tanto humilhada por toda a confusão pública mas, como sou eu, não foi para tanto. Apenas me incomoda o fato de ter de envolver tanta gente em assuntos particulares que só trazem problemas.
Já não bastasse o que aconteceu hoje durante a manhã, viria mais por aí...
Eu estava no ponto de ônibus dos alunos do interior, porque hoje Yoland saía mais cedo e não podia passar aqui. Foi quando Rosely veio novamente falar comigo.
- Ei, preciso falar uma coisa... - Pediu baixinho, para que só eu escutasse. Lá vem bomba.
- Precisa ser agora Rô? Não pode ser mais tarde ou amanhã, quando eu estiver com a cabeça mais fria? - Perguntei baixinho pra ela, com a menor vontade do mundo de conversar com alguém agora. Apenas queria pegar a droga do transporte, chegar em casa e me trancar no quarto antes que minha mãe descobrisse o que aconteceu hoje e viesse me cobrar.
- Eu... Preciso... Falar logo de uma vez... É... Sobre nós... Sobre o que sinto... - Ela falava cortado, muito nervosa, como se fosse a primeira vez que me encontra e não sabe o que dizer. Não sei porque mas... Não quero ouvir o quer falar.
- O que tem nós Rose? Por acaso não é minha amiga de verdade como a Judh? Fez algo do qual eu não te perdoaria? - Perguntei, chutando, para acabar o mistério. Minha cabeça estava em outro lugar.
- Não, pelo amor de Deus, não! Eu... Jamais mentiria assim para você...
- Então, o porque desse nervosismo? - Eu não olhava para ela, mas vi pelo canto do olho que o rosto dela estava tão vermelho quanto o cabelo... E ela respirou fundo, pronta para despejar...
- Achoquetoapaixonadaporvocêeporissofiqueidesejandovocêdescobriratraiçãodoseunamoradoparamedeclararporqueeueelenosodiamosporsuacausa! - Meu Deus! Pisquei algumas vezes, esperando meu cérebro traduzir o que ela tinha dito. Deveria ser uma vergonha pra ela ter falado desse jeito.
E graças ao bom Senhor, chegou o ônibus e eu subi, sendo seguida por ela, que ainda queria uma resposta para o que ela havia falado.
- Você não tem que ir pra casa? - Perguntei por ela estar me seguindo.
- O ônibus passa na frente da minha casa, caso não lembre!
Segui andando, mas senti alguém segurar a manga do meu casaco, me puxando, fazendo eu me virar. Era Dyeiden.
- O que você quer? Um obrigado por não deixar o Frederico me bater em público? Obrigada! Agora me solta! - Falei, puxando meu braço, mas ele não soltou.
- Nada disso! Eu só queria dizer que... Que eu te am... - E não terminou a frase porque, como paramos no corredor do ônibus, quando ele arrancou, perdemos o equilíbrio. Ele caiu se jogou em um banco e caiu deitado e, como não tinha me soltado, eu caí por cima dele, ouvido os gritinhos que os outros davam, mais alto que os nossos grunhidos com a queda.
- Que droga... Porque não me deixa em paz? Já não basta o que eu to passando hoje?
- Eu preciso te dizer?
- Dizer o que? - Perguntei, pulando de cima dele, esperando que sentasse, para que nos acomodássemos de forma decente nos bancos.
- Dizer que... Eu te amo! - Falou ele, emocionado, corado e tremendo.
Eu soltei uma enorme gargalhada sarcástica, demonstrando como eu não acreditava nele.
- Você? Depois de tudo o que disse e fez?
- Eu precisei! Não podia ficar com você!
- E porque será? Alguém te proibiu?
- A maldição que está na sua família, isso me proíbe, porque me atinge diretamente.
- Não me venha com essa.
- Posso provar.
- Então faça! - E ele fez.
Me puxou para seus braços e encostou nossos lábios. Aquilo nem chegava a ser beijo, pois era apenas um leve selinho, mas eu me senti nas nuvens, com o corpo quente e formigando, me encostando no banco com a moleza que senti do efeito que me causava.
- Err... Isso não é prova! - Disse, procurando forças para abrir os olhos após ele afastar-se. Podia ouvir um coro de huuuuuuuu atrás de nós.
- Espere um pouco! - Falou. E eu esperei. Fiquei surpresa e paralisada quando o vi tirar um lenço do bolso e cobrir o nariz, que agora estava deixando o lenço coberto de sangue.
Pensei em pedir ajuda, ia mesmo pedir, mas ele tocou meu braço, fez que não, me obrigando a esperar. Pouco depois, limpou o sangue, guardou o lenço, levantou a cabeça, o rosto um pouco pálido, dizendo:
- É isso que ocorre quando me aproximo demais de você e te toco. Um toque, algumas gotas de um leve corte; Um beijo, um sangramento nasal; Ter relações... Bem... Hemorragia interna até a morte! Não posso me aproximar demais até a maldição ser quebrada. - Ele explicou, e eu ainda digeria tudo e tentava acreditar no que dizia. - A maneira de quebrá-la, seria encontrando o corpo de Margareth Baumtos, que nunca foi localizado, apesar de que, sob todas as circunstâncias, tudo aponte por ainda estar na casa... Mas ninguém jamais encontrou.
Nesse tempo, o ônibus parou na frente da casa da Rosely e, quando ela foi descer, tocou meu braço e falou que falava comigo mais tarde.
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Desci do ônibus, novamente não querendo olhar para ele, que vinha atrás de mim, sem saber o que dizer. Não me conformo por ele ter demorado tanto tempo para me contar isso. Pior, escolher uma das minhas amigas para trair minha confiança somente para ficar longe de mim. É justo por eu machucar ele, mas poderia ter vindo falar sobre isso direto comigo, e não deixar a situação chegar ao ponto que chegou. Pensando assim, é até idiota esse plano dele, mas, como fez com que eu me afastasse deles por tanto tempo, apenas me deixava com raiva.
- Porque decidiu fazer assim? - Me virei bruscamente pra ele, fazendo-o parar e me olhar, surpreso. - Não podia ter resolvido tudo conversando? Tem ideia de quanto sofrimento causou? Fez eu me afastar da Judh... De você... - Fiz uma pausa. recuperando o fôlego.
- O efeito cai em você também! - Disse ele, passando as mãos pelos cabelos, trocando o peso de uma perna para a outra, claramente desconfortável em falar o que iria falar. - Eu sofro os efeito só em tocar você e qualquer coisa que eu fosse fazer com você mas... Se um dia viéssemos a ter algo mais, na hora você não sentiria nada mas... Nós dois iriamos morrer.
Eu não tinha palavras para responder a isso.
- Mas... E porque não aconteceu nada quando você estava com a Judith? - Prendi a respiração, esperando a resposta.
- Você viu como morremos na outra vida e... Minha mãe, enraivecida, jogou sobre as duas famílias a Marca de Sangue. Ela toca dois sangues, mantendo eles afastados. No momento em que eles se tocam, se misturam, incendeiam e explodem o interior dos corpos de seus donos, simplesmente congelando.
- Qual é o problema dessa família? Qual o problema delas? Qual é o problema de TODO MUNDO? - Esbravejei, depois entrei de supetão pra dentro do casarão, soltando fogo pelas ventas. - Porque temos que sofrer tudo isso? Ser obrigados a sentir essa dor? Porque eu não posso viver em paz? Se desde o início, nossos ancestrais idiotas não tivessem tanta sede por poder, não iríamos passar por tanto sofrimento; Não seriamos taxados de "esquisitos"!; Não entraríamos em guerra por causa da força... E não teria essa porcaria de maldição! - Eu estava histérica, gritando com ele na sala, minhas palavras ecoando. Sentia meu rosto queimando de raiva.
- Eu juro pra você, vamos dar um jeito! - Prometeu ele, dando um passo à frente para me alcançar, mas me esquivei, dando um para trás.
- Não prometa o que não pode cumprir! - Disse, virando e subindo correndo as escadas, com ele atrás de mim.
- KATH! KATH! - Gritou, antes de me alcançar na porta do meu quarto e antes que eu batesse a porta bem na cara dele. - Por favor, preciso que me perdoe. Eu... Eu não sabia como te afastar, e sabia que você correspondia as minhas expectativas quanto ao que eu sentia... - Ele falava, sabendo que eu estava encostada na porta, chorando e ouvindo tudo em silêncio. eu não sabia o que pensar. Parte de mim queria ouvir o que ele falava e gritar que também amava ele profundamente; A outra parte não conseguia acreditar, pelo simples fato de que ele também traíra minha confiança. Estou em um dilema. Uma escolha difícil. Como seguir amando e confiando nestas pessoas, que só me usavam, sem ligar para meus sentimentos, sem tentar me conhecer melhor, me entender...
Eu sei que pareço egoísta, mas eles foram egoístas primeiro, a vida foi. Isso me tornou forte, mas igualmente desconfiada.
- Podia simplesmente ter me dado um fora decente, além de ter me escurrassado naquela vez, no pátio! - Falei finalmente, deixando ele aparentemente sem reação, pois ficou um tempo em silêncio.
- Eu já perdi perdão! Sei que fui idiota, e que você me acha egoísta, que fiz você e as meninas passarem ridículo com aquela cena na festa...
- Ridículo é pouco! Sabe quanto tempo eu fiquei tentando me recuperar, digerindo o que eu fiz para não ter sido informada de nada daquilo?
- Eu sei. Me sinto terrível, mas entenda, eu não sabia como te afastar, ainda mais quando eu não estava mais aguentando ficar longe...
- E ainda resiste? - Perguntei, um fio de voz. Mesmo fazendo silêncio prolongado, sabia que ele tinha me ouvido.
- Na noite em que discutimos no seu quarto, em que ficamos muito próximos no seu quarto... Minha resistência quase foi para o beleléu, sentindo você embaixo de mim, o seu calor, o seu cheiro... - Ouvi uma leve batida na porta, e noite que ele encostou a cabeça na porta, suspirando, resignado. Quando percebi, a cena daquela noite dançava na minha cabeça. O corpo dele me prendendo, e o calor que emanava dele, o hálito contra meu rosto... Senti um calor repentino e toquei minhas bochechas, sentindo que eu corava violentamente ao lembrar disso. Ainda bem que ele estava do outro lado da porta e não me via naquele estado, ou eu seria obrigada a jogá-lo pela janela.
Naquele momento, entrou uma mensagem no meu celular. Não deveria ter aberto naquele momento mas, como não se tem aviso prévio para mensagem-bomba, eu abri a mensagem de texto que a Rosely enviou e, droga, precisei destrancar a porta e deixar Dyeiden entrar, com expressão surpresa, indo rápido para me segurar ao perceber que eu ia cair com o que eu li. Como não percebi que as coisas estavam chegando a este ponto? Isso não era certo, pois era confuso.
Porque eu acho isso?
- O que foi que você leu para ficar assim? - Perguntou ele, preocupado. Sem me virar para encará-lo, levantei o celular para que ele lesse com os próprio olhos, para entender. Vi com o canto do olho quando ele franziu as sobrancelhas, aparentando confusão com a mensagem, chegando a abrir e fechar a mensagem mais de uma vez, verificando o nome do remetente e o corpo da mensagem, com uma expressão já tão estranha que parecia mesmo era que ele nunca nem havia visto um celular na frente e tentava descobrir como funcionava.
- É... É isso mesmo que eu li? Estou confuso.
- Eu que o diga... Já desconfiava que ela era mas... Comigo? Não! Alguma coisa está errado com ela que eu tenho notado, isso já faz pouco mais de dois meses, e eu ignorei esperando passar mas... Agora está na hora de agir. Ela é forte, mas até onde uma pessoa pode seguir sozinha, existe limite.
- E o que pretende fazer?
- Vou conversar, descobrir o porque disso.
- Tudo bem. Se... Se precisar de algo, estou por perto.
Ele saiu, me deixando tentar decifrar o tipo de pedido de socorro que uma alma como a dela pedia com uma declaração dessas. Pois claro que não queria dizer o que dizia, pois era apenas a confusão de uma mente em perigo. Repassei de novo a mensagem.
Ñ sei cm dizer isso pra vc mas... Eu ñ pude evitar, mas estou completamente apaixonada por vc Kath. É minha melhor amiga, cuida de mim, e somos tão próximas... Preciso saber se sou correspondida.
Pra mim aquilo não era uma declaração de amor. Minha melhor amiga Rosely, que eu a muito tempo já suspeitava ser gay como seu irmão mais novo, estava se declarando para mim. Mas aquilo, vindo dela, que nunca tinha interesse por ninguém, em absoluto, porque dizia acreditar naquela paixão especial, o amor que só acontece uma vez na vida, de forma alguma podia estar apaixonada por mim, porque ela mesma já havia declarado que seu tipo era "excêntrico". Eu imaginava como seria a tal criatura excêntrica. Não tenho o menor preconceito com isso. Na verdade, não tenho o menor interesse em intervir na vida amorosa da minha amiga, quero mais é que ela seja feliz, seja com quem for. E por isso eu me preocupei seriamente com ela naquele momento. De excentricismo, o que eu tenho além da forma de me vestir e do temperamento variativo, e que estou presa em uma maldição. Isso lá é "excêntrico" para alguém como ela? Acho que não!
Manda um rápido torpedo dizendo um O q vc tá escondendo de mim? que foi logo respondido com um ñ sei o q ta querendo dizer...
Bingo! Pensei, já tendo a prova que precisava de que havia algo errado. Ela simplesmente transferiu uma necessidade dela de amor pra mim, por ser alguém que ela adora e que sabe que cuidará dela. Somente nós nos entenderíamos com esses códigos de linguagem.
Mandei pra Judh uma mensagem, meio a contragosto por ainda não ter conversado e perdoado ela, pedindo pra procura Rose e tentar fazer ela escapar um detalhe, já que ela era a melhor de nós nisso.
Uma hora depois, quando eu já tinha terminado de me arrumar para ir à cidade atrás da Rose, Judh respondeu minha mensagem com um a coisa tá preta! me deixando mais intrigada e preocupada.
Pq?
Comecei a perguntar cm estavam as coisas na casa dela, e até perguntei de forma inocente sobre o nv namo da irmã dela, e ela mal falou q achava o cara legal e q a irmã parecia feliz e... Chorou! Acho q vamos ter q espionar essa...
Gelei quando ela disse que a Rose chorou. Havia algo entre ela e o novo cunhado que ela não havia mencionado nem pra mim?
Apenas terminei de me agasalhar, achando na minha bagunça meu par de luvas de couro e minha toca, pois estava frio lá fora. No hall, calcei minhas pesadas botas modelo militar, gritei que iria até a cidade ver uma amiga e saí, sem escutar resposta ou ligando se alguém tinha escutado meu aviso.
Quando havia contornado a casa e me encolhi com o vento frio que subia do lago. Percebi passos pesados no gramado e me virei, deparando com Dyeiden ainda mais agasalhado que eu, correndo com muito esforço, roxo de frio, tentando me alcançar.
- Vou com você! Sinto que vai precisar de uma ajuda masculina! - Justificou após parar ao meu lado, oferecendo o braço, que eu aceitei. Os dois juntos conseguiriam suportar o frio e chegar mais rápido.

domingo, 27 de março de 2016

Pass X Fure Capítulo 14: Minha vida resumida... Ou quase!

Nos dias que se seguiram, passei a ignorar Judh e Dyeiden, falando por vezes apenas com a Rosely.
Me distanciei deles, procurava ignorá-los no intervalo das aulas e durante as aulas. Se tínhamos trabalho em grupo e os professores me obrigavam a sentar no grupo deles, eu falava apenas o suficiente mas, se havia uma opinião que eu gostaria de expressar, falava, mas fingia não vê-los.
Estava lá para quem quisesse ver. Na segunda, após a festa no fim de semana, o que todos comentavam era o flagra dos pegas que Dyeiden deu em mim com Fred atrás do apartamento, e da cena de ciumes que ele fez atacando Frederico após eu mandá-lo embora. Todas pensavam que eu era uma endiabrada que só afastava os caras, mas mudaram muito de opinião após saberem da novidade dos dois caras gatos e legais, entre os poucos na escola, que brigaram por mim.
Passei no corredor, com várias garotas que olhavam para o celular com as amigas de grupo e lançavam olhares maliciosos para mim, risos ou mesmo "Oi", de forma animada, principalmente as assanhadas.
Quando cruzei com meu antigo grupo, Judh fez menção de vir falar comigo mas, para minha surpresa e ira, Dyeiden, que estava ao seu lado, passou um braço por seu ombro, envolvendo todo seu corpo e virando de costas, com ela olhando por cima do ombro com uma expressão que não consegui definir, entre triste e apreensiva. Rose olhava de mim para eles sem saber onde se enfiar, então veio falar comigo, e passamos a andar juntas, só nós. Passei a ignorar eles, cada vez que passavam por mim, fingindo não saber de suas existências, tratando-os como estranhos.
Na terça, quando vazou o vídeo feito das câmeras em frente ao condomínio e na boate, onde fomos perseguidas e atacadas, todos vinham falar conosco, perguntando como estávamos, se precisávamos de algo, se havíamos nos ferido... Coisas do tipo. Eu dizia que estava bem, me afastando assim que possível.
Após alguns dias, ninguém mais ligou e começaram os ensaios da banda e as provas antes das férias de meio de ano.
Eu ensaiava com vontade, com fúria, botando tudo pra fora na música. Por vezes, comecei a chorar durante os ensaios, convenci a todos que era de tanta emoção que botava na voz para cantar, porque começaram a se mostrar preocupados com minhas reações, principalmente quando comecei a aparecer com a ponta da guitarra toda remendada e a jogá-la em um canto do palco toda vez que ficava enfurecida ou que via Dyeiden na porta da sala, em meio a penumbra das cortinas, me vendo ensaiar. Nesses momentos, eu cantava as músicas que passariam para a imagem da garota ferida, em fúria e em chamas por dentro, machucada e se sentindo abandonada por aquele que sabe seus segredos e que a descartou como lixo. Quando acaba jogava a guitarra em um canto e saia para o banheiro interno da sala pisando firme. Me debulhava em lágrimas lá dentro. Já ia com uma bolça preta e com franjas que tinha ganhado de aniversário da Rose, com um kit de lenço umedecido, rímel, lápis, pó compacto e muita, mas muita sombra preta. Deixava o pessoal sem ter o que dizer, principalmente quando eu mandava trocar o vocalista e pegava a guitarra, tocando com fúria, deixando para eles apenas a opção de me obedecer. Mandava mais que a professora já. Ninguém vinha me contestando ou dizendo para parar, pois haviam ouvido as histórias da minha desilusão amorosa e ficaram com a impressão que havia aceitado namorar com Frederico apenas para esconder o que estava sentindo, o que, na opinião geral, visivelmente não vinha funcionando. Mas como eu mandava muito bem e não agredia ninguém, deixaram eu botar minha revolta para fora como fosse, como uma fase ruim da minha adolescência.
Passamos a sair juntos da escola, minha mãe por vezes nos levando de carro para casa, em um terrível climão dos 3 querendo se matar lá dentro, ela alheia a tudo. Era mais fácil de ônibus, que nos sentávamos bem no fundo, nos abaixando para ninguém ver nossos pegas. Começamos a sair aos fins de semana, ele ficando na minha casa, dormindo no quarto de hospedes, o que não o impedia de vir ao meu quarto no meio da noite. Já na casa dele, eu dormia na cama e ele em um colchão, como quando eramos mais novos. A família dele estava super feliz por nós, porque sempre gostaram de mim e eu deles. Minha mãe mais aliviada. Ele parecia contente. Eu queria morrer. Minha raiva borbulhava...
Eu já sabia mais coisas do qual eles jamais contariam, como por exemplo, que eu tenho um irmão mais novo chamado Marcos. Continuo a ter pesadelos com ele, de quando fomos separados. Antes nada era claro, pois eu não fazia distinção de lembrança com simples sonho. A verdade havia sido cruelmente arrancada de mim no passado.
Já estava naquela fuga da realidade havia uns 3 meses mais ou menos, estávamos em Setembro. Eu saia apenas com Rose e Fred, e eles não se davam muito bem, então tinha que sair dia com um, dia com outro.
Ele não é do tipo romântico sempre. Manda bilhetes, manda flores, está sempre perto e presente, mas curte mais ele mesmo, ficando desligado no próprio mundo.
As vezes é difícil ter de encarar Dyeiden quando estamos andando pela casa. Fecho portas na cara dele, corro para dentro quando o vejo no gramado, fecho a cara e o ignoro se cruzamos nos corredores.
Passei a ficar mais tempo quanto possível com Rosely, que agora era minha unica amiga de verdade. Eu possuía fãs na escola agora, mas não era nem perto. Passamos a conversar sobre o que ocorria em nossas vidas, até que, naturalmente, surgiu o assunto de como nos tornamos "feras". Ela tinha mais a contar do que aparentava.
- Minha irmã foi a primogênita da minha família e desenvolveu a força e as habilidades que nossas famílias, como "feras", vem a ter! - Disse feras entre aspas, não tendo um nome melhor para nos identificar. Estamos caminhando no gramado atrás da minha casa, e ela está novamente com aquela expressão de adulta séria enquanto explica sobre um assunto que entende. - Como sabe, as cinco famílias possuem esta habilidade: Os Baumten, os Dexten, os Strugaus, os Lorens e os Bulgarian. Possuem ligação com nós os Hell. - Falou toda a lista dos nomes das famílias, sem errar nenhum. Eu ficava admirada.
- Você pode perceber que sofremos mutações, possuímos enorme força quando bem usada. Mas isso não significa que irá mudar nossa natureza normal falha, como... A leviandade da minha irmã; O seu descontrole emocional; A lerdeza da minha irmã mais velha; O mau humor da Ju...
- Para! Se for para falar nessa pessoa, mudemos de assunto! - Cortei-a, com medo do que poderia ouvir. A verdade mesmo é que não conseguia perdoá-la. E a pergunta que nunca saiu da minha cabeça: Por que?
- Ok! Continuando... Nós possuímos, além disso, os denominados pelos ante-passados de irmãos de alma, que seriam os membros da família que nasceriam com uma ligação espiritual forte, fazendo com que sintam emoções, dores, transmitam pensamentos de um para o outro, e assim segue...
- Mas como saber se temos um?
- Você os sente! Pode sentir sua presença, pode sentir dores onde ele sente, ou seus sentimentos como se fossem seus... As vezes podem não estar perto o suficiente para seu radar sentir, ou mesmo nem terem nascido. Mas todos temos, com certeza, nossos irmãos de alma, que são os únicos capazes de nos ajudar a aprimorar quem somos, além de serem amigos íntimos com o tempo.
- Como você sabe que é seu irmão de alma?
- Como nas teorias da parte do corpo onde a alma se extrai com mais força, somos ligados pelo umbigo. - Ela aponta para a própria barriga - Quando está próxima, você sente ele como se fosse a si mesma, com força na barriga, que fica como um imã na direção dela. Existem os que são bloqueados por algum motivo, ou demoram a sentir, como você!
- E o seu irmão de alma seria... - Perguntei, já meio sabendo a resposta.
- Você sabe quem ela é! Teve muitas provas disso.
Concordei com a cabeça, sem precisar citar nomes.
Tivemos algumas conversas explicativas do gênero, ao longo do tempo. Minha vida não chegava a ser totalmente monótona. Mas, quando pude perceber, já estávamos no final do ano, passamos o Natal e o Ano Novo! 
Comemoramos as datas de maneira diferente, bagunceira, correndo pelas ruas da cidade em meio às pessoas e diversas festas, com o pessoal da escola soltando rojões, bombinhas e as velinhas que soltam faíscas. Caixas delas. Muitas e muitas. Pulando, correndo, rindo... Não lembrava a última vez que me senti tão feliz, elevada e de bem com a vida, sem ligar para o resto do mundo.
Eu iria para o ensino médio agora, e sabia que o inferno provavelmente seria maior na escola... Mas não estava pronta para tanto!
- Dyeiden foi reprovado! - Rose chegou correndo, eufórica e em pânico na frente do escritório que minha mãe trabalha, onde eu lia um livro, para me contar a bomba na lista das turmas do novo ano, que devo confessar, não me agrado por aqueles motivo. - Parece que ele não apresentou uns trabalhos e saiu antes do horário diversas vezes, estourando a cota! E, como somos pouco mais de 20 na turma... - Prendi a respiração, somente esperando ela falar o que já havia concluído - Ele vai ficar na nossa turma esse ano!
Encarar Judith todos os dias duas fileiras de distância mais a vaca da Celya já é difícil, agora com Dyeiden sentado propositalmente ATRÁS de mim... Vai ser quase impossível de aturar o ano todo!
No intervalo, comecei a ir direto para os ensaios, mesmo que agora tenha que aturar Judh dividindo o palco comigo e Celya contestando minhas ordens na maior parte do tempo e batendo de frente, algumas vezes nós duas saindo aos tapas na frente de todos, precisando sermos separadas, e desta vez ela virando o jogo: Conseguindo me deixar de culpada!
Yoland andava furiosa comigo, porque antes de Maio já haviam me chamado na diretoria e mandado avisos de comportamento para ela umas 10 vezes! O que pra mim era sinal para entrar em pânico e arrancar os cabelos...
- Furto; Porte de drogas na mochila dentro da escola; Agressão física e verbal; Ameaça... O que eu faço com você agora Lyn? Vou precisar mandar você de volta para a clínica? - Ela falava cansada comigo... Cansada da vida, do trabalho e da filha delinquente juvenil! - Você já vai completar 16 anos e começou o ano com a ficha corrida daquelas...
- Olha, Yoland, você realmente não precisa fazer nada disso... Estou bem, só... Só estou tendo problemas, desavenças, com certas pessoas... Mas logo isso será resolvido! - Precisava ganhar tempo...
- Você está perdendo tempo! Se pensa que vai se livrar do castigo apenas com desculpas, quando tenho as provas impressas bem aqui - Apontou para a cópia da minha ficha, que a droga da diretora mandara pelo correio, fazendo a situação parecer ainda mais agravante - Está enganada! Frederico não virá mais te ver, nem receberá Rose enquanto não mudar isso! Ou mandarei você de volta!
- Eu vou! Prometo! Mas não impeça Rose de vir aqui...
- Até mudar essa merda aqui, é minha palavra final! - E saiu.
A verdade é que ela está se esforçando, de verdade, para me manter perto dela, e eu estou, de verdade, procurando ficar longe de confusão. Se ela soubesse... Fica mais difícil ainda só de lembrar o porquê que não nos damos bem a anos...

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A senhora tem certeza que não vai aceitar fazer a internação da sua filha, Sra. Yoland? A Justiça não está a seu favor neste momento, mas ainda priorizam o bem-estar da menina! Garanto que ela será bem cuidada e tratada. - Fala o diretor da clínica. Mamãe está encolhida na cadeira, apertando a bolsa amarela com força no colo.
- Será que não haveria outra forma? Consultas que ela pudesse comparecer que ajudassem...
- Infelizmente, o caso dela é sério! Ainda mais que só tem 5 anos. Mas... Atacar à unhas e dentes outras crianças por uma coisinha boba... - Ele deu de ombros, desejando acabar logo com aquela conversa e mandar minha mãe embora é eu, para dentro de uma clínica psiquiatra infantil! - Ainda mais que ela se encontra agora sob a guarda do Conselho, e não terei como alterar a pena, a menos...
- A menos? - Perguntou minha mãe, esperançosa.
- A menos que a senhora tenha como pagar indenização aos pais daquelas crianças, o que não seria fácil, uma vez que uma das crianças ainda se encontra internada em estado grave. Os pais estão furiosos e desesperados!
- De quanto seria a multa?
- Uma grande quantia para a senhora pagar sozinha!
- De quanto estamos falando?
- Em torno de 30!
- 30?...
- R$30.000,00!
Mamãe ficou pálida, sem saber o que dizer.
- A outra solução... Sua menina, nos próximos 6 meses, não apresentar nenhum sinal de que irá acabar atacando novamente!
Mamãe orou em silêncio, pedindo forças para aguentar e que eu amadurece-se rápido o suficiente para ser livre novamente.
- Tudo bem doutor! Não terei como pagar este valor, e serei obrigada a concordar! - Ela então, assinou uns papéis.
Eu estava na sala de espera, encolhida, com uma atendente de cara fechada, cansada de ver malucos naquela sala. Corri para ela assim que saiu da sala.
- Já podemos ir mamãe? Não gosto deste lugar! - Doeu para ela ouvir minha opinião honesta de criança - Desculpe querida, mas... Não posso fazer isso! - Falou, me colocando no chão!
- Porque não? Eu não gosto daqui! - Falei, ficando assustada com o possível abandono dela.
- Não posso levar você... Preciso resolver algumas coisas, e não consegui permissão para você ir... - Falou, e foi saindo.
- Por favor mãezinha, não! Não me deixe... - A atendente me segurou pelo braço e me puxou para ela. Eu chorava e lutava, como na noite em que minha família foi dividida. Só que não pude me soltar... A mulher me aplicou uma injeção e foi esperando meu corpo amolecer e eu ficar quieta, enquanto chamava... - Mamãe, não! Não! Não! Não me abandone! Mamãe... Eu não... Quero ficar... Quero papai e Marcos... Por favor... - E caí no sono vendo ela partir, com a visão distorcida.
Nunca imaginaria que ela saiu chorando do consultório não querendo me deixar, mas permitindo com medo de eu estar solta novamente e vir a ser um fardo para ela.
Depois, começou uma longa jornada... Fui mandada para um reformatório em Santa Catarina, o qual não lembro o nome, aliás, não lembro o nome de nenhum dos lugares onde, por lei, fui enviada. Mamãe nunca foi me visitar, não depois de 6 meses. No primeiro reformatório, sentia muito medo, só desejando minha família, chorando todas as noites na primeira semana.
Tinha uma menina ruivinha, Lina, com grandes cachos cheios de nó, com duas "porteirinhas" nos dentes da frente, grandes e brilhantes olhos verdes e muito alegre que vivia atrás de mim, porque me achava fofa por ser uma loira de cabelos quase brancos de tão claros, olhos azuis limpos, os cabelos abaixo da cintura com cachos perfeitos e uma franja que cobria meus olhos, não permitindo que vissem, assim, quando eu chorava ao ser humilhada por uma das mais velhas. Lina ia para cima e para baixo com um urso de pelúcia pequeno e marrom. Não lembro bem, mas era desta cor por nunca ter sido lavado.
- Porque veio parar aqui? - Perguntei uma noite para ela.
-  Eu não sei ao certo... Falaram que foi algo na minha cabeça que me faz ser irritada as vezes...
- Esquizofrenia?
- Provavelmente um dos problemas!
- Foi o que falaram de mim... Mas eu sei que não é, eu ouvi minha mãe e meu pai falando, é algo de família, que me torna forte, por isso eles tem medo!
- Espera! Medo de que?
- Do que eu posso fazer. Das minhas possíveis habilidades! Estou presa aqui...
Minha mãe me visito lá brevemente, e passei 1 ano lá até as meninas planejarem uma fuga, eu me juntar a elas, eles irem até mesmo armados atrás de nós e matarem várias... Lina me protegeu, ou não estaria aqui! Fui forte por ela, peguei seu urso em meio aos prantos, nas chuva e no barro no meio do mato, vendo seus olhos e seu corpo perderem a vida, enquanto uma das meninas mais velhas me pegava no colo e corria comigo gritando, implorando para a ajudarem. Foi a primeira vez que vi a morte de perto.
- Nos encontraram 3 dias depois, escondidas em becos e, como éramos crianças e não tínhamos para onde ir, levaram cada uma para um local...
Eu tinha pesadelos a noite por ter visto uma amiga morrer, diziam os médicos, então me transferiram, porque o local era um lembrete da minha condição.
Fui mandada para o Paraná, onde foi mais difícil, pois lá tínhamos que dividir espaço com os meninos, alguns entrando na adolescência, gostavam de molestar as meninas, principalmente as da minha idade, por terem sofrido abuso nessa idade... Eu não fui diferente em ser molestada, ou melhor, ter garotos acariciando meu corpo... Mas fiz com que ficassem longe quando acertei as partes de um baixinho e corri, fazendo a imagem de garotinha braba, fazendo eles se afastarem. O respeito foi tanto que ganhei uma protetora, uma menina de 11 anos que já era assumidamente homossexual. Era linda e grandalhona. Passou a cuidar de mim enquanto estive lá, por quase dois anos. Nunca me tocou sem permissão. Minha mãe se transferiu do trabalho quando fui mandada para um reformatório no interior de São Paulo. Lá meus problemas aumentaram porque, além de uma das meninas ter sido encontrada morta na MINHA CAMA, com as mesmas marcas de ataque que constam no meu histórico, simplesmente deduziram que minha "esquizofrenia" era grave e eu demonstrava perigo.
No novo reformatório, bem... Tinha o tratamento de eletro choque para esquizofrênicos, assim como corredores imundos e úmidos, saídos de filme de terror. Quando fui levada para o primeiro tratamento de choque, tive um surto, gritei e me debati na maca, com aquelas luzes fracas e piscantes passando lentamente por mim, sendo que os quartos são no fim do corredor. Fui colocada na cadeira mas, antes de me amarrarem, os ataquei, acho que matei um dos funcionários e corri, virando tudo pelo caminho.
Mas quando me pegaram novamente... Bem, não preciso dizer que deu tudo certo. Conseguiram fazer o tratamento em mim... E meus sintomas? Não é muita coisa, só: A- Eu via um espírito sempre perto de mim, que hoje sei que era eu; B- Eu via outros espíritos onde eu ia, mas eram todos sombras malignas, o que me dava medo; C- Eu mordia de jorrar sangue das pessoas e arranhava de tirar pedaços... Bons motivos? Para uma criança que perdia tudo sem controle, não!
Os tratamentos foram tão brutos e fortes que eu fui perdendo a memória passada do que me feriu, de tudo o que me entristecia... Esqueci que tinha um irmão, pai vivo, que uma menina morreu para me salvar, que fui atacada... Quando fui na lanchonete com... Aquelas pessoas, não que eu não quisesse contar muito sobre mim, mas simplesmente não lembrava de nada!
Saí de lá em uma manhã nebulosa, toda vestida de preto para demonstrar meu humor azedo e melancólico, com apenas uma mochila nas costas, o ursinho dentro dele. Yoland estava me esperando no carro, ensaiando um discurso dentro do carro quando me aproximei e bati no vidro para destravar a porta e me deixar entrar. Estava com 10 anos. Já sabia que era forte simplesmente por ter resistido a todo aquele sofrimento. Mas não era mais a mesma. Não naquele momento. Não sozinha.
- Se despediu de seus amigos? - Perguntou, tentando puxar conversa, querendo amenizar o clima pesado que estava no carro, por eu simplesmente ter entrado e sentado silenciosa, sem dar oi.
- Não tinha com quem fazer isso. Podemos ir? - Puxei meu cinto, dando por encerrado o assunto. A verdade é que eu não queria me despedir. Não gosto de me despedir. Eu tive, após um longo tempo, uma garota de um grupo com quem eu andava. Era como andar com patricinhas, só que vestidas de preto, rebeldes, e que protegiam os seus e partiam para a briga quando era necessário. Eu era uma delas. Era do lado negro e seguro do lugar. Mas estava na minha, andando pelos corredores com duas ou mais crianças do grupo, sendo seguida, mas ficando na sombra, ou não sairia mais daquele lugar se me metesse em confusão. Até que aconteceu e eu saí.
Fomos morar em um apartamento novamente em Santa Catarina, e fui transferida para uma nova escola, Mary Clarence. Eu era fechada lá, só usava preto, sempre de fones, encostada nas paredes perto de locais mais escuros, não me misturava, não falava com ninguém, fazia meus trabalhos, incluindo os de grupo sozinha até... Até conhecer a garota mais maluca e vagabunda daquele escola, legítima ferrada e rejeitada, como eu. Com 11 anos, já tínhamos tido tantas aventuras quanto qualquer adolescente, mas eramos crianças ainda.
Nina tinha sérios problemas com os pais, então saiu de casa. Para piorar a situação, era viciada em coca. Se prostituía para conseguir o dinheiro, já os estudos... Nem sei que droga ela inventou para continuar. Morava em uma quitinete que era a pior merda do mundo, de tão mal cuidada. Saíamos as duas juntas, e foi em uma saída que eu fui apresentada ao Frederico, que tinha olhos medonhos e cativantes, além ser o mais popular da escola. Logo que pregou o olho em mim, veio puxar conversa, apesar de eu ser fechada, me derreti por dentro e me abri aos poucos, me permitindo ter mais alguém comigo. Saia com eles sempre que possível, para não aturar minha mãe perguntando o tempo todo se eu estava bem, se precisava de alguma coisa, só largando do meu pé ao me ver saindo com "amigos". Isso aliviava ela e me deixava mais solta. Também manteve controle sobre os remédios que eu devia tomar para possíveis alucinações e tal... Eu tomava, mas, ao parar de me vigiar tanto, comecei a jogar tudo fora. Matei 3 plantas assim, por colocar nos vasos onde elas ficavam. Também tentava fazer eu interagir com ela tendo tarefas em casa, mas isso nunca funcionou muito.
Quando ela recebeu a notícia da herança, bem... Larguei tudo e fui com ela. Sem lágrimas, despedidas e desespero. Não que a ideia tivesse me agradado, porque não foi o que aconteceu. Lá eu tinha amigos, consegui me encontrar e depois... Eu não sei! Nina, até onde fiquei sabendo antes da traição dos meus supostos amigos, morreu de overdose.
Claro que esqueci um detalhe... Não menos importante, mas estranho e ruim do meu passado... Um acidente horrível de verdade.
Ocorreu no abrigo para onde eu havia sido levada após fugir do primeiro "hospício" infantil. Era um prédio velho, mal cuidado, onde muitas pessoas se escondiam. Em uma noite, acordamos com um cheiro forte vindo de todos os lados... Tudo estava coberto de fumaça... Eu fiquei completamente apavorada... Tinha quase 7 anos, era só uma guriazinha assustada! Havia aprendido algumas coisas sobre sair de um incêndio... Pode acreditar, tudo o que eu havia aprendido que nunca expliquei, foi em um dos locais onde estive trancada!
Bem... Como eu dizia, não era algo fácil de se enfrentar... Eu ouvia pessoas gritando e pedindo socorro. Eu mesma teria pedido ajuda, mas era silenciosa e ágil sozinha! Com outra pessoa junto? Eu não sairia inteira! Corria, passando pelas diversas peças do prédio, vendo pessoas gritando, crianças chorando ao verem seus entes mortos por destroços que caíram sobre eles ou que simplesmente queimaram nas chamas... Era uma cena horrenda de ver... Eu sabia que poderia ter esquecido um detalhe, uma pessoa, mas não saberia dizer quem... Alguém que gostava de brincar com o fogo e o perigo mais do que qualquer criança que eu conhecesse... Uma menininha ruiva, toda suja e machucada... Não lembrava muito bem dela... Era a segunda vez que eu esquecia de alguém que havia conhecido... Assim como da última vez em que vi uma menina que pintou os cabelos de preto no outro reformatório, que era tão tímida que tinha medo até de uma mosca, e dormia na cama do outro lado da menina que foi encontrada morta na minha cama...
Enfim, eu desci correndo as escada o máximo que pude, mesmo tropeçando pelo caminho, engasgando com a fumaça e quase colocando meu jantar pra fora de tanta ânsia que eu fazia, cheguei ao terceiro andar, onde era mais aberto e poderia respirar e ver melhor... (Acreditem, era um prédio grande, e eu estava no oitavo andar!), quando fui descer outro lance de escadas, uma menina agarrou meu braço e tentou me puxar de voltar para o incêndio, mesmo que eu protestasse para ela me soltar. Ela gritava, chorava e implorava, mesmo eu não conseguindo entender o que ela dizia... Foi quando aconteceu. No momento em que uma parede iria cair sobre nós, eu percebi e a empurrei, fazendo ela me soltar. Como estava para o lado das escadas, tinha uma saída e, juro que não fiz por mal, no máximo seria homicídio culposo, porque não tive a intenção de matar ela... Apenas vi o momento em que ela desvio da parede, tropeçou em um destroço, perdeu o equilíbrio e, como os corrimão finíssimo da escada havia se partido no local onde ela estava, bom... Ela caiu... E eu pude apenas ouvir seu grito assustado antes do corpo atingir o piso do primeiro andar com um baque. Foi a primeira vez que larguei alguém para morrer, e fiz sem ter a intenção...
Eu... Não é o meu assunto favorito para conversar! Acredite, meus pesadelos pioraram muito depois disso, e nunca contei para ninguém do ocorrido, pois era meu peso para carregar. Minha cruz. Tudo começou a sumir após os tratamentos de choque, e um vazio foi se formando. Mas não agora. Agora eu lembro dos meus erros, sei que carrego um peso no peito e pensei, de verdade, que aqui nesse lugar eu iria melhorar, mas talvez eu tenha me enganado. Mas a verdade é que já cheguei ao ponto de tentar matar, mas é segredo de estado, guardado a sete chaves por mim e pela pessoa que eu feri!
Minha mãe cuidava de mim, ao modo dela, mesmo que não demonstrasse sentimentos... Ela as vezes parecia nem gostar de mim... Nunca leu para que eu dormisse, ficava furiosa comigo quando eu quebrava algo em casa, não gostava de me ver na cozinha nem para comer biscoito... Nem me fazia carinho! Exigia coisas idiotas, ficando perturbada por qualquer coisa... As vezes, naqueles lugares onde fiquei, me sentia mais em casa do que com minha própria mãe... As meninas cuidavam umas das outras como família, pelo menos, as que se davam bem! Tinha até as que liam para nós, das meninas mais velhas, que davam beijos de boa noite e dormiam junto das pequenas quando tinham pesadelos ou ficavam com medo das tempestades.
Minha mãe era fria muitas vezes e, somente agora, eu imagino se essa frieza comigo não seria apenas que ela desconta inconscientemente em mim a raiva do papai ter fugido e a tristeza de ter de ficar longe do meu irmão. Mas isso jamais justificaria ela agir não como uma mãe, mas como alguém que carrega um fardo de outra pessoa nas costas...
Bom... Seguindo até onde eu parei, para meus últimos problemas!
A história da minha ficha é assim: Eu tive um belo desentendimento com a vaca da bruxélya e ela se vingou mandando alguém colocar E na minha mochila, provando isso pelo meu estado de euforia quando cantava e minha total deprê disso; Juro que não roubei nada, como eu disse, evitando problemas. Um celular foi achado na minha mochila e páh! Fui apontada como culpada; Os outros eu admito, durante a discussão, dei um tapa forte de derrubar a Célya no chão, chamei ela de vadia oferecida ha ha ha ha e ameacei de matá-la caso se metesse no meu caminho outra vez. Acredite, ninguém nesta escola é santo! Todos somos demônios, mesmo que não aparentemos...

quinta-feira, 10 de março de 2016

Pass X Fure Capítulo 13: Lembranças e Revelações

Na noite seguinte, já em casa, quando fui dormir, aconteceu algo tão estranho e revelador que eu até fiquei assustada. Fora que cheguei em casa e estava chovendo, logo depois de sair da festa e correr sem rumo pelas ruas até umas 2 horas, me deparei no gramado em frente ao sobrado da minha família, sem nem ao menos ter percebido como fui parar lá... Estava me sentindo tão entorpecida e sonolenta que mal notei que tremia de frio boa parte do trajeto, subi as escadas até meu quarto, deixando uma grande trilha de barro e chuva pela casa. Entrei no quarto, tirei o excesso de roupas molhadas, tomei um banho e vesti uma roupa qualquer, me jogando na cama, tentando esquecer o que havia acontecido. Percebi vagamente que entravam várias mensagens no celular e ele tocou até pouco mais das 4 horas. A cabeça ainda estava as voltas com tantas revelações e tantos acontecimentos da noite anterior.
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Me sinto perdida. Não de perdida nas ruas, mas perdida em mim. Estou vagando nas ruas desde às 11 horas da noite. É frio, mas eu não ligo... Simplesmente  não estou sentindo de tanta tristeza.
Quando viro em uma esquina, ouço as vozes de Rose e Dyeiden discutindo sobre como irão fazer para me encontrar, e meu celular toca naquele momento. Não quero falar com eles e, quando percebo que eles ouviram meu celular tocar, dou meia volta e começo a correr sem rumo, tentando me esconder, ouvindo os passos deles atrás de mim, chamando meu nome. Começo a sentir sombras ao meu redor de novo e sinto medo. Só agora começo a sentir o vento frio congelando meu corpo, e percebo que estou com medo.
Corro sem rumo por várias ruas, até encontrar uma entradinha, e ir entrando nela de costas, verificando se não fui seguida. Quando penso que o local está seguro e posso parar um pouco, sinto que minhas costas batem em alguma coisa, e não é uma parede. Eu gelo. Viro lentamente para olhar o que pode ter atrás de mim, e vejo um rapaz mais alto que me olhando com certa malícia, e maldade nos olhos. Meu medo aumenta.
- Finalmente eu consigo ficar a sós com você! Não sabe como foi difícil de encontrá-la, por estar correndo por aí! Mas finalmente você está aqui. Agora, poderemos nos divertir um pouco! O que acha, doçura? - Disse ele, tentando se aproximar, estendendo a mão até meu braço. Instintivamente eu lhe dou um tapa na mão e recuei. - Está se fazendo de difícil comigo? - Disse, meio rindo, me agarrando pelos ombros. Senti uma onda de pânico que travava a minha língua, não conseguindo falar, mas reagia por instinto, felizmente, mesmo não conseguindo mover um único músculo naturalmente. Dei-lhe um empurrão para fazer ele me soltar. Me deu um tapa no rosto de forma tão inesperada que fui parar no chão. - Está tentando se fazer de difícil comigo? Mas não pode fugir de mim. Eu a encontro e pego você, mas não brincando e com tanta paciência como aqui... Eu posso ser muito cruel! - Falava, enquanto vinha me pegar pelos cabelos e me levantava do chão. Comecei a sentir minha consciência falhando, e aquela raiva cruel que me dava força, borbulhando para fora. Não sei se ainda aguentaria. - Parece que machuquei você no olho... - Ele deu uma gargalhada deliciada, olhando o local onde havia abrido um pequeno corte com o tapa - Pelo visto você gosta bem selvagem! Mas não se preocupe, irei machucá-la como você gosta! - Disse, dando outro tapa forte no meu rosto, me fazendo mordê-lo na mão em seguida, com toda a minha força. Comecei a sentir o gosto salgado de sua mão e sangue escorrendo entre meus dentes, enquanto ele gritava. Quando o soltei, mal conseguia enxergar, por causa da minha modificação. Logo perderia o controle.
- Sua vaca! Vou acabar com você... - Ele nem chegou a terminar a frase, porque alguém se jogou em cima dele.
Ele gritava enquanto tinha seu pescoço massacrado por mordidas e arranhões profundos. Lutava para tentar se livrar, mas aquela pequena criatura em cima do seu corpo se esbaldava com seus gritos, mantendo seu corpo bem preso ao chão.
Eu estava no chão, ainda paralisada de surpresa, tremendo e arrepiada, sem conseguir mover um único músculo. As mudanças novamente haviam sido interrompidas.
Quando parou de morder e arranhar, levantou lenta e calmamente, afastando um pouco as mãos do corpo, de onde escorriam pequenos filetes, por onde pingavam sangue. Com a fraca luz que vinha de um poste na rua deserta, podia ver seu pequeno corpo para a sua idade, as roupas sujas e, ao virar um pouco o rosto coberto por seus caxos ruivos, pude ver que sangue pingava de sua boca, escorria do queixo para o pescoço, formando uma poça no casaco escuro. O corpo no chão estava imóvel, morto. O pescoço... Totalmente dilacerado e com veias rasgadas sobre a pele. Eu mal podia acreditar que ela conseguiria fazer isso, sendo tão frágil...
Virou lentamente para mim, me deixando ainda mais horrorizada com o que eu via. Seus olhos haviam mudado para um vermelho muito forte, que brilhava contra a luz.
- Ora... Você parece surpresa em me ver! - Disse, abrindo um sorriso, exibindo dentes cobertos de sangue, com caninos levemente maiores que o normal, os olhos voltando á sua cor normal, mas a voz levemente rouca. - Não tinha percebido ainda que éramos como você, não é? - Parecia tão calma, mas equilibrada e séria como uma adulta, como ficava para resolver um problema.
- Ro-Rose! C-Como você... - Gaguejei, não encontrando palavras para me expressar, tamanha a minha surpresa.
- Se me der uma chance, explicarei tudo para você!
Apenas fiquei olhando para ela. Não sabia o que dizer. Subitamente consegui um pouco de força para sair do meu transe.
Então levantei e corri.
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Em algum momento começou a chover, não sei ao certo quando... Deveria ser meia noite ou perto. Minha mente era um turbilhão, eu estava com medo, com frio e molhada, com uma raiva e um desespero crescente dento de mim, transbordando de uma maneira que eu sentia que iria explodir. Era sufocante e desestabilizador. Eu sentia um furacão passando por dentro. Destruindo. Explodindo.
Quando estava chegando em uma esquina, sem prestar atenção no caminho, de tão absorta e perdida nos pensamentos, esbarrei em alguém que vinha igualmente apressado e, com a batida, que vínhamos quase correndo no meio da chuva, terminamos no chão, embolados e grudentos da chuva. Uma verdadeira confusão.
Quando consegui sentar, olhei para quem estava na minha frente, e vi os cabelos de Judith embolados em um coque mal feito e encharcado, sua maquiagem borrada com a chuva, tremendo e encharcada. Parei por um instante para imaginar como eu não estava depois de pegar tanta chuva e me desarrumar.
- Meu Deus, Kath! Finalmente encontrei você! - Ela levantou depressa, o rosto iluminando ao constatar que era eu. - Estava tão desesperada em te achar! Precisamos conversar!
- Sei... Estava desesperada mesmo em me encontrar? Ou era desesperada para dizer o quanto o beijo do Dyeiden foi bom e que ele tem pegada? Ou que você tava bebendo e encontrou a boca dele por engano e não resistiu? Me poupe das suas desculpas, sua duas caras! - Explodi com ela, não suportando a minha raiva e o desprezo dela naquele momento.
- O que? Não! Como pode pensar isso de mim? Eu nunca traí a sua confiança! Aquilo foi... Foi...
Fiquei ainda mais brava porque ela tentava ainda justificar o porque de ter beijado ele, apesar de saber que eu gostava dele.
- E ainda tenta inventar uma desculpa? Você não presta, sua falsa!
- Kath, me deixa explicar... Não foi bem assim... - Tentou tocar meu braço, e eu me desviei, chegando no meu limite.
- Não encosta em mim, ou não respondo por mim! - Ameacei, fazendo menção de sair dali. Ouvi alguns passos de alguém correndo, e imaginei que a Rose-Farejadora já tinha chegado.
- Espera Kath, não... - Nem dei tempo para ela terminar o pedido, puxando meu braço. Eu me virei e dei um tapa no rosto dela com toda a minha força, fazendo o estalo ficar mais alto com a chuva, que desabava pesadamente. Ela me olhava perdida e surpresa. Mesmo na luz fraca pude ver seu rosto ficando muito vermelho onde eu tinha batido. Minha mão ardia, mas eu não me importava.
- Não ouse tentar me confundir, Judith. O que você fez foi imperdoável! Você beijou o garoto que eu gosto na minha frente. Sabe como doeu em mim ver aquela cena? Sabe o quanto tá doendo aqui olhar pra você agora? - Apontei para o meu peito, que doía muito, como se eu fosse infartar ou coisa parecida.
Rose tinha chegado e assistia a tudo, quieta em um canto. Também chamei ela para a briga.
- E você Rose, o que faz aqui? Vai me dizer que também não sabia de nada? - Acusei, tentando descobrir a verdade.
- O que? Não! Kath, fiquei tão surpresa quanto você! Eu realmente não sabia, muito menos desconfiava de nada! Juro pra você! - Ela parecia sincera. Não é do tipo que mente sobre algo sério.
- Vai ficar do lado de quem afinal? - Perguntou ela, fazendo um gesto com as mãos, como lembrando de algo que elas eram cúmplices. Fiquei mais furiosa.
- Eu não fui nem um pouco a favor do que você fez ela, Judh!
- Querem saber? Eu vou me mandar! Chega disso tudo por essa noite para mim! Rose, depois arruma minhas coisas pra mandar pra minha casa. E, a propósito, o que foi aquilo mais cedo, naquele beco?
- Judh arregalou os olhos, não sei se de surpresa ou assustada. Rose não encontrava palavras para se explicar.
- Ora, esqueçam.
Fui saindo, antes que uma delas pudesse dizer alguma coisa. Mas algo aconteceu.
Na rua deserta, começaram a aparecer figuras escuras de todas as direções, e eu pensei ser a única a ver aquilo, no meio da rua, pois as duas discutiam atrás de mim. Quando vi, estávamos cercadas, e as figuras eram pessoas. Rapazes. Estavam todos de preto.
- Ora, ora. O que será que estas jovenzinhas fazem na rua, no meio da chuva, á noite, sozinhas? Não é estranho rapazes? - Os outros concordaram.
As duas ficaram caladas e eu me juntei a elas. Já tinham percebido também. Estávamos cercadas.
- Droga, esses babacas de novo?
Eles foram se aproximando e nós três, instintivamente, nós afastando, vigilantes.
- Como será que poderemos nos divertir com elas, rapazes? - Brincou um deles, fazendo os outros rirem ironicamente.
- O que nós vamos fazer agora? - Perguntei para elas, tentando conter minha irritação e meu medo.
- Corre! - Declarou Rose, fazendo nós três dispararmos para onde tinha um portão, logo atrás de nós, fazendo com que eles disparassem atrás de nós.
Como eu odeio ter que correr para algum lugar ou de alguém! Odeio!
Pulamos uma cerca, Rose ficando com um pé preso na descida, nos atrasando. Ao ver que aqueles caras já estavam pulando a cerca também. Puxamos ela e corremos o mais rápido que podíamos, passando nos pátios das casas, virando latões de lixo e derrubando todo o tipo de objeto que encontrávamos no caminho, para podermos atrasá-los. Estávamos morrendo de medo do que eles podiam fazer conosco.
Era difícil de atrasar aqueles caras.
Quando já havíamos percorrido um longo caminho, feito muita sujeira e jogado o que tinha no caminho para pará-los, sem sucesso, pois eles não tinha a menor dificuldade em passar por nossas armadilhas improvisadas, vimos um local onde estava ocorrendo uma festa e corremos para lá. Pedimos ajuda aos seguranças, mas não nos deram atenção, pensando que queríamos entrar sem pagar o ingresso e nos mandaram embora. Estávamos perdidas.
Ao ver que todos vinham em nossa direção, corremos para dentro de todos os modos possíveis: Pulando por cima das pessoas; Pulando ou passando por baixo das catracas; Empurrando as pessoas contra os seguranças para não nos pegarem, fazendo um grande tumulto, com objetos voando por todos os lados, e pessoas reclamando quando esbarrávamos nelas, completamente encharcadas.
Dentro da boate, tinha um cheiro muito forte, que eu logo reconheci como sendo maconha, que só era usado nas cabines VIP, Vodca misturada com todos os outros tipos de líquidos, fazendo bebidas estranhas e fortes.
Nós três nos misturamos na multidão, nos abaixando para não sermos vistas, ouvindo a confusão na porta que havíamos deixado para trás, com aqueles caras também burlando a segurança e entrando. Fomos com calma para os banheiros e nos escondemos todas juntas em um privado.
Após fechar a porta e se deixar sentar em qualquer canto, tentamos respirar um pouco, devido a correria e o cansaço, e quem parecia pior era Judh, com uma marca roxa ao redor dos lábios, que não parecia ser de frio. Respirava com um pouco mais de dificuldade, incrivelmente pálida, com muito suor escorrendo por todo o rosto.
- O que foi Judh? Você não parece bem... - Perguntei, a contragosto, preocupada.
- Nada... Eu... - Engoliu em seco, tendo dificuldade para falar - Só... Estou terrivelmente cansada... - Respirou bem fundo para se acalmar, antes de prosseguir - Não estou gostando nada disso... O que eles querem conosco? - Perguntou, a voz rouca.
Era a pergunta que não queria calar... O que aquele grupo queria conosco? Se quisessem nos assaltar, não teriam perdido tempo conversando. Se iriam abusar de nós, não iriam se dar ao trabalho de nos seguir até dentro de uma boate.
- Bom, eu não sei... Mas temos que dar o fora daqui... Ou eles podem entrar aqui e nos encontrar! - Falei, olhando para fora pelo canto da porta, verificando se estava seguro, saindo lentamente, fazendo sinal para que elas saíssem também.
Nos misturando com a multidão na pista de dança, nos afastamos um pouco para não ter o perigo de um deles nos encontrar. Mas foi no sair dali que nos demos mal... Tinha um de vigia do lado de fora.
Ele agarrou Judh pelo braço, aproveitando que ela estava mais lenta por não estar se sentindo bem. Começamos a gritar e pular em cima dele para soltá-la, chamando a atenção dos seguranças novamente. Dois deles vieram até ali em nosso socorro e, quando fizeram o rapaz soltar o braço dela, voltamos a correr para longe.
Devemos ter corrido mais umas duas quadras, até chegarmos em frente à um prédio, que fazia divisão com um condomínio, e fomos nos esconder lá.
Estávamos ofegantes, vermelhas, e tão ensopadas que a pele e as roupas não se diferenciavam mais. Olhei para as duas, e notei que Judh não estava melhor. Apesar das bochechas em fogo, o restante era pálido demais, e o arroxado ao redor da boca estava mais intenso, cobrindo seus lábios e subindo pelas feições do rosto. Seus olhos estavam sem brilho e parados, como os de alguém doente.
- Judh, acho que devemos ir a algum posto ou no hospital! Você está com uma aparência horrível! Parece que vai morrer! - Falei, preocupada, tentando colocar medo nela para fazê-la aceitar. Olhei para Rose, procurando seu apoio, e notei que ela parecia assustada. Massageava discretamente o peito, aparentemente com dor, e estranhamente, estava ficando com os lábios um pouco roxos também. Levei em conta que ela sentia frio com mais facilidade e que poderia estar congelando, mas no momento eu não tinha como ajudar. Também estava encharcada e com frio. Judh não pôde mais disfarçar e apoiou-se no pilar a sua frente, fazendo esforço para respirar.
- Judh, por favor! Estou com muita raiva de você, mas também estou preocupada. Sei que não estamos bem, mas você está pior! Me diga o que você tem! Parece que vai morrer! - Declarei, ficando assustada.
- Eu... Estou tonta e nauseada... Já... Não posso sair sozinha... Medo... Eu tenho medo que eles nos encontrem... Foi isso... O que provocou essa crise... - Ela estremeceu. Tinha dificuldade em falar, e estava tremendo com cada vez mais violência. Ao chegar perto para apoiá-la, notei que corriam lágrimas por seu rosto, que misturavam com as gotas de chuva.
- Rose, venha me ajudar... Não posso levar ela sozinha...
- Desculpe Kath... Eu não posso... - Falou e, quando olhei para ela, estava sentada, tremendo, com lágrimas correndo dos olhos. Devia estar em pânico também. Eu não culpava ela, também estava com medo, e com uma sensação muito ruim...
- Finalmente encontramos vocês! - Ouvi uma voz masculina dizer satisfeita atrás de nós. Quando me virei, eram os rapazes que nos perseguiam. Estremeci, com um pavor sufocante por dentro, me sentindo paralisar.
- E então rapazes, o que faremos com elas? - Perguntou um deles.
- Não, talvez... Começar tirando essas roupas molhadas... O resto veremos em seguida - Declarou um deles, sorrindo irônico.
Naquele momento, descobri o porque de Judh estar ficar apavorada em sermos encontradas: Ela sentia tanto medo, porque era epilética. Seu pavor foi tanto que desabou no chão, depois de muito esforço para levantar, e começou a se debater com violência e a espumar pela boca.
Um dos rapazes ria.
- Não adianta fingir que está passando mal, vocês não vão escapar de nós. - Declarou um deles, se aproximando para agarrar meu braço.
- Se afasta, não vê que ela não está fingindo? É epilética! - Gritei, para geral, sem ter a garantia que ficariam realmente longe. Me joguei no chão em seu socorro, lembrando um pouco o que havia sido ensinado na minha antiga escola sobre os cuidados com pessoas tendo crises epiléticas. Imediatamente retirei a bolsa dela do braço para não enrolar e botei sob sua cabeça com cuidado, para não se machucar batendo a cabeça no cimento duro. Procurei firmar um pouco as pernas em um só lugar até os espasmos acalmarem, para ela não se ferir.
- Rose, me ajude... - Comecei, mas desisti, ao vê-la chorando e gritando muito alto, abraçando as pernas e balançando o corpo para frente e para trás, como se estivesse tendo um surto psicótico. Era uma cena aterradora, assustadora e muito, mas muito bizarra. - O que querem de nós? Estamos precisando de ajuda, porque nos perseguem? - Eu gritava para eles, mesmo sabendo, no fundo, que não receberia uma resposta, mas com ainda uma pequena esperança de que alguém, transeunte ou mesmo morador do condomínio, ouvisse os gritos e chamasse por socorro para nós... Por favor...
- Vamos! Não temos a noite toda para esse teatrinho idiota de meninas assustadas! - Falou um deles, me dando um puxão pelo braço, me afastando de Judh. Para revidar, equilibrei as mãos no chão, mantive o peso sobre a perna que estava embaixo e, com um impulso forte, dei-lhe uma rasteira, deixando-o cair desavisado no chão.
- Não toque em mim! - Ameacei, meu rosto muito próximo do dele, rosnando, minha voz transbordando rouca com a raiva que eu sentia. - Se um de vocês tocar em mim, ou em qualquer uma de nós de novo... Eu juro que acabo com vocês! - Ameacei, agachada, com os braços abertos como um escudo protetor ao redor delas.
Eles pareciam até mesmo surpresos, me deixando ainda mais surpresa por minha reação deixá-los abalados.
Me virando, ouvi uma tosse fraca. Judh estava com um pouco de brilho nos olhos agora, a boca um pouco espumada, respirando com um pouco de dificuldade. Fora isso, parecia bem. Chegando perto dela, me abaixei para ouvir o que ela estava tentando dizer.
- Mandou bem, sua maluca! Agora estamos fritas! - Declarou, dando uma risada baixa, seguida de um acesso de tosse. Ainda devia estar engasgada. - Estou com falta de ar e... Muito frio.
- Você vai ficar bem, não se preocupe... - Nem mesmo eu tinha certeza disso.
Ao longe, podíamos ouvir sirenes. Então alguém no prédio viu a cena... Graças a Deus! Virei para o lado, e Rose havia desabado para o lado, respirando com dificuldade. Devia ter ficado muito cansada com o ataque de pânico.
Minutos depois, quando uma ambulância e duas viaturas da polícia chegaram, cercando os rapazes, eles correram, espalhados para todos os lados, tentando fugir. Alguns foram pegos tentando pular muros e portões. Outros correram até o fim da rua e felizmente foram cercados.
- Rose, está melhor? - Perguntei, cansada.
- Eles estavam recebendo ordens de alguém! Eu sei! Vi um deles no telefone durante as ameaças e depois falando com os outros! - Disse de maneira exausta, sem responder à minha pergunta.
Quando vieram buscar Judh e ajudar Rose, perguntaram se eu estava bem e eu disse que sim, para ser deixada para trás. Dei informações sobre os ataques das duas e esperei que todos entrassem na ambulância, apenas para sair correndo novamente no escuro, com lágrimas nos olhos, abaixo de chuva forte, com Rose pendurada na porta e um socorrista tentando puxá-la para dentro enquanto ela gritava meu nome.
Minutos depois, comecei a receber chamadas no celular molhado e grudento no bolso. Eram de Rose e Dyeiden.
Ele já deve ter sido avisado do ocorrido. Pensei, com um sorriso irônico. Vou para casa, para meu refúgio desprotegido. Meu quarto.
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Andei por todas as avenidas restantes que eram verdadeiros riachos, que davam para o interior da cidade.
Passei por aquelas estradas de chão batido com pedras, completamente encharcadas e lamacentas, me cobrindo até o rosto com respingos de barro cada vez que eu tropeçava em alguma pedra que não enxergava. Estava somente com a luz da tela do celular, que mal acendia por ter ensopado dentro do casaco e agora, mas ainda, por causa da água que escorria entre meus dedos. Não havia iluminação, exceto pelas luzes das varandas de fazendas que eu passava no caminho. Meus dentes batiam violentamente de frio agora e eu mal sentia minhas mãos e minhas pernas. Já tinha até medo de ter pneumonia de tão frio e de tanta chuva a que eu me submetera por teimosia. Por um momento me arrependi de ter fugido. Não, mas não posso me arrepender, apenas ajudei Judh porque é algo que qualquer um faria, mas não significa que eu a tenha perdoado ou ao Dyeiden. Estava um caco e confusa.
Resolvi ir para o chuveiro tomar um bom banho quente para me aquecer e tentar manter a pouca calma que eu tinha.
Quando voltei ao quarto, vesti uma roupa confortável e deixei os cobertores espalhados na cama e ao redor dela, me sentindo mais acolhida e aconchegada, como se fosse um abraço quente e protetor chegando para me salvar...
Resolvi dar uma espiada nas mensagens, apenas por curiosidade. A primeira era de Rose.
Pra onde vc foi? Ñ precisa de cuidados médicos? Tô preocupada c vc! Me liga!
A segunda era do Fred...
E aí doçura? Gostou do bjo? Aceita ser a minha dama agora? Fred
Quando abri a terceira, me arrependi enorme e amargamente. Era de Dyeiden. Senti toda minha raiva mal contida explodindo enquanto lia e ficando com a velha reação destrutiva.
- Idiota, o q pensou q estivesse fazendo? Pq fugiu de nós? Vc entende td errado e ainda quer ter razão? Estou voltando pra casa ainda hoje e, se quiser falar comigo, é só me chamar... Dy
Comecei a chorar.
Chorei de raiva, de tristeza, de mágoa... Meu peito doía tanto que parecia que meu pranto e a dor jamais passariam. Queimava, parecendo que rasgava por dentro, me destruindo de forma cruel, como se todos ao redor rissem da minha situação. Eu me apaixonei pelo cara errado outra vez e não sabia. Até agora.
Isso me irritava tanto... Saber que estava sendo engana pelo Dyeiden o tempo todo e que podia ter outra pessoa esperando por mim me deixava perdida...
Explodi!
Tranquei a porta do quarto e comecei a virar tudo. Virei móveis, chutei objetos. Peguei uma peça qualquer no chão e joguei contra o espelho. Fiquei apenas olhando minha imagem distorcida e estranha no espelho da penteadeira, agora todo quebrado. Vi apenas uma criança perdida, de rosto bonito, vestida com roupas escuras e estranhas para a maioria, escondida em baixo de muita maquiagem e de uma expressão emburrada, agora com o rosto lambuzado de linhas molhadas traçadas por lágrimas com lápis. Ali não existia alguém forte e com um pilar resistente, e sim, uma criança que foi abandonada a própria sorte e, quando pensou que estava estruturada, foi novamente descartada pela maldade alheia e voltou àquele inferno novamente.
Não querendo continuar a ver minha imagem daquela maneira, empurrei a penteadeira até cair e estilhaçar o restante do espelho. Joguei o banquinho contra a parede, fazendo um barulho enorme. Comecei a ouvir batidas na porta e vozes me chamando.
- VÃO EMBORA! - Gritei, fora de mim, a voz rouca pelas lágrimas.
- Filha, o que está acontecendo aí? Quem está aí com você? Que barulho foi esse? Está machucada? - Perguntava minha mãe, curiosa, a voz abafada pela porta. Não parecia nenhum pouco preocupada comigo, ou minha raiva me consumia a ponto de entender tudo errado.
Seja lógica, Kathlyn! Ponha essa cabeça para funcionar!
Ignorei aquela vozinha na minha cabeça que me mandava pensar sempre.
Foi pensando que eu to tão ferrada agora, meu bem!
Respondo, exasperada.
- Sai daqui, Yoland! E leve junto quem você tenha trazido para me importunar.
- Está tudo bem? Porque não abre a porta? - Ela começou a forçar a maçaneta, e pude ouvir vozes junto com a dela. Devem estar juntos para arrombar a porta do meu quarto.
- Saiam! Vão embora! Me deixem em paz... - Meus gritos estavam sendo reduzidos a choramingos à medida que eu ia chorando, desconsolada. Me abracei nos cobertores, apenas vendo a medida que iam desistindo e indo de volta para os quartos, pois a porta não arrebentou, mesmo sendo muito antiga. Voltei a deitar na cama, me sentindo exausta, sem ligar para a zona na qual se tornou meu quarto.
A janela ficou aberta, deixando um vento frio entrar, mas eu não tinha a menor vontade de levantar para fechar. Foi chorando que adormeci, para sonhos transtornados e lembranças cruéis misturadas.

Estou correndo
Tudo está branco ao redor
E névoa
Sinto coisas geladas tocando minha pele
É chuva
É uma chuva de verão, e tem névoa de madrugada
Mamãe falou
Eu parei, parei e olhei meus sapatinhos cor de rosa e meu vestido com flores
Ainda sou criança, mas eu não era grande?
A cena mudou
Fui levada para a sala de casa, e chove muito lá fora
- Você tá com frio, Marcos?
Perguntei ao meu irmão caçula, que está aprendendo a expressar o que sente
Ele faz que sim com a cabeça
Vou para o quarto pegar o cobertor dele e nossos paninhos para me aconchegar junto
Escuto mamãe e papai discutindo no quarto deles
Não quero ficar ouvindo, mas não resisto e vou espiar pela fresta da porta
- Porque não contou que você tinha um "problema" de família, e que passaria para eles?
- Achei que não quisesse mais ficar comigo!
- Eu sempre te amei! E só agora, nestas circunstâncias, descubro o seu segredo!
- Iria contar antes, mas não esperava que a Kathlyn sofresse a mutação, não tão criança!
- Mas sabia que ela mudaria, como um monstro, e não me disse?
- Nossos filhos não são monstros, Yoland! Eu a proíbo de falar deles assim!
- Porque não disse que ela faria isso?
- Porque foi a primeira mulher na minha família que nasceu primogênita! E eu jamais esperaria sinais antes dos 10 anos! Não nela!
- Isso significa que o Marcos logo atacará como ela? Eu não posso acreditar na sua ignorância!
- Eu espero que não! Mas a Kath só mordeu o braço daquela menina porque ela lhe roubou a boneca!
- Lucas, você está ouvindo o que está dizendo? Ela mordeu outra criança! E não foi uma mordidinha, a garota foi internada no hospital, em estado de choque precisando de transfusão de sangue! Tem ideia do que é isso?
- Ela não sabe o que fez!
- Claro que não terá recordações claras, mas sabe!
- Não! Ninguém da minha família que mudou assim teve recordações depois...
Mamãe parece frustrada. O que será que eu fiz de tão grave?
A cena mudou outra vez, e estou gritando, correndo para a porta, mas mamãe segura a barra do meu vestido e me puxa para seu colo. Papai saiu com as malas dele e do meu maninho, e Marcos me chamava. Eu me debati e esperneei até cair dos braços da mamãe. Corri para a janela no meio da chuva e gritei para eles, mas mamãe me puxou para dentro e, não sei porque, jogou algo na minha cabeça e desmaiei.
Eu acordo em uma sala escura
Estou com uma roupa de inverno, e sinto um pouco de frio
Olho para os quartos, vejo as camas do dormitório da clínica
Sinto uma onda de pânico, estou presa novamente?
Levanto rapidamente do chão e uma das meninas senta na cama
Está de olho fechado, e começa a falar
Sinto arrepios toda noite que isso acontece
Ela levanta e passa por mim, indo até a porta
Pede para que eu vá com ela e que não tenha medo
Ela passa pela porta sem abri-la
Sigo ela e descubro que também faço isso
Vamos andando até o final do corredor
Entramos em uma sala onde tem uma cadeira elétrica
Outras meninas estão lá e me levam até a cadeira
Quando me sento, ela é ligada, sem nenhuma segurança, e eu grito
Todas estão com um sorriso falso
Começo a sentir tudo...
Ouço meu coração batendo
Tum-dum, Tum-dum, Tum-dum...
Então me lembro de tudo
Como se meus olhos estivessem abrindo pela primeira vez
Estou em um lugar claro, com luzes que piscam como estrelas e o infinito...
Margareth está na minha frente
E ao mesmo tempo não está, porque é meu reflexo no espelho
Mais de um espelho, estou com um vestido simples
Parece todo sujo, e estou descalça
Ando até ela
Agora vejo o quanto somos parecidas
- Esperei muito tempo até este momento - Diz ela.
- Como... Como conseguiu?
- Confie em mim! Vou mostrar tudo! Feche os olhos e estenda a mão até a minha! - Pediu, erguendo a dela. Estava fechado meus olhos e estendendo as mãos ao mesmo tempo e vi uma luz saindo do meio entre nossas mãos.
                                      _________::::::::::X:::::::::::__________                                                         
Estou com minhas malas prontas! Hoje fugirei com aquele que amo! Nunca irei casar um Conde ao qual eu não amo! Não podem me forçar!
Vou silenciosamente pelo corredor da Casa Grande e ouço vozes alteradas do quarto do meu irmão, Jacobs, com a esposa, Millene. Eles pareciam discutir sobre a senhor Angela, mãe do meu amado Miguel.
-Isso é um verdadeiro insulto para mim Jac! Como pode me acusar de estar tendo um caso com um dos serviçais? - Ela estava escandalizada com uma suposta acusação do meu irmão, e eu mal podia acreditar no que eu estava escutando.
- Você está se encontrando com o jardineiro, sua mentirosa! Eu sei! Vi tudo! - E lhe deu um tapa, fazendo ela cair na cama.
- Como pode dizer isso? Do que mais irá me acusar? De que Edmund não é seu filho também?
- Vejam só! Era justamente isso que eu gostaria de lhe perguntar! Será que esse bebê que está esperando também não é dele?
- Por Deus! Não posso acreditar nesta calúnia!
- Você não seria a única a ter casos com serviçais!
- É verdade! Ou pensa que não descobri que Margareth é sua filha com uma serviçal que sumiu e que o rapaz, Miguel, é seu filho com a tia dela? Sim, eu sei de tudo!
Estou abismada, NÃO!
- Angela é louca! Mas foi uma boa diversão, assim como sua irmã! O problema é que a maldita é uma bruxa poderosa, e amaldiçoou minha família.
- É mesmo? E qual seria ela?
- Que não podemos nos aproximar, eles e nós, em relacionamento amoroso novamente, ou será morte dos dois lados. Mas já tive problemas o suficiente com você, Millene! - Vi o momento em que ele montou nela e lhe deu um beijo possessivo e agressivo. Fui sair andando, abismada... Quando ele ergueu uma adaga e lhe perfurou o coração, matando-a subitamente. No susto tropecei, fazendo barulho, e imediatamente me pus a correr.
Encontrei Miguel à minha espera do lado de fora.
- Onde está sua mala?
- Não temos tempo, precisamos partir!
- Qual o motivo do seu pranto, meu amor?
- Eu...
Não tive tempo de responder. Jacobs chegou, nos encarando da porta, com as mãos sujas de sangue.
- Onde pensa que ia, minha filha?
- Senhor, se me permite?
- Quieto, Miguel! Depois tratarei com você! O assunto agora é entre eu e minha filhinha querida!
- O que?
Miguel estava com um fio de voz.
- Jacobs, por favor, não faça nada conosco... - Eu estava com muito medo.
- Eu sei que você descobriu tudo! Vi você descendo a escada, mas não pense que vai escapar assim! Aturei esta maldita encenação esse tempo todo por meus pais, mas agora chega! E se pensavam que iriam fugir, estão enganados. Você vem comigo!
- Não vou permitir que a machuque! - Miguel se colocou entre nós, e Jacobs enterrou a adaga em seu peito, fazendo uma grande mancha vermelha aparecer em suas costas. NÃO, POR FAVOR!
- MIGUEL! - Gritei, sem conter meu pranto.
Quando ele tentou lutar, teve a garganta cortava e caiu no gramado, morto.
Me pus a correr, totalmente destruída por dentro.
Alguém me ajuda.
Meu corpo irradiava e tremia de medo, de pavor.
Ouvi o som de um tiro e parei, meu peito queimando. Quando toquei, minhas mãos avermelharam.
Meus Deus, me ajude.
Fiz a volta pelo celeiro e voltei correndo para a Casa Grande, com a esperança que alguém me visse, o ar faltando em meus pulmões.
Corri para o andar de cima, e a casa estava em completo silêncio. Não teria saída nem ajuda.
Subi até a minha sala especial, onde ficaria protegida por dentro.
Quando cheguei, me joguei contra o espelho e fiquei ali, orando.
Quando ouvi um movimento, pensei em me esconder, mas não teria onde. Estava abandonada a própria sorte.
- Não deveria fugir de mim! - Falou, entrando. Ele tinha um foice na mão e na outra, a pistola.
- Jacobs, por favor...
- Quieta! Não quero ouvir mais nenhum pio.
Por favor, alguém me ajude
E cortou minha garganta, fazendo tudo ficar escuro.
Apenas tive a última visão de seus olhos avermelhados e os dentes parecendo mais pontudos e salientes na boca, enquanto ele me enterrava em algum lugar do gramado atrás da casa, pois eu podia ver a janela da minha sala especial. Não vi mais nada!
Jacobs inventou uma história para a família que Miguel havia me atacado, me assassinou, meu corpo sumiu e ele precisou matar Miguel, por motivo de honra da família. Ninguém fez nada a respeito, acreditando ser tudo verdade o que ele falou. A família seguiria com a mesma relação, pois acreditavam que nós dois tínhamos sim um relacionamento amoroso proibido. Desconheciam que fossemos primos-irmãos.
Jacobs não nos matou meramente por diversão. Ele era louco! O mais louco da linhagem.
Nos matou por querer que seu filho assumido ficasse com a herança, e seguisse na família de sangue puro. Eu era filha bastarda, e meu amado também, com a minha tia. Ele nem ao menos foi assumido por Angela ser louca, querer ser a dama da casa, e isso jamais seria permitido no meu tempo.
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Estremeci ao notar que a visão tinha acabado. Ainda sentia meu peito doendo e a falta de ar pelo corte na garganta.
- Agora é com você, Kathlyn! - Anunciou Margareth.
- Como assim?
- Sua missão foi dada! Irá encontrar meu corpo e descobrir a única prova que incrimina Jacobs pelo meu assassinato e o de meu amado, Miguel!
- Mas o que eu tenho a ver com isso? O que tem a ver...
- É a peça que quebrará o ciclo amaldiçoado da família!
- Mas porque eu?
- Porque você é a minha encarnação! E Dyeiden é Miguel! Este ciclo já teve muitas voltas, mas chegou a hora de parar! Vocês são os escolhidos. Vá tratar com a avó dele, e vocês terão um tempo para resolver tudo!
Ficou difícil digerir tanta informação!
- Não se preocupe, você está pronta! Confie em seus amigos e você conseguirá! Agora, toque minha mão!
Quando o fiz, ela virou uma nuvem dourada brilhante cheia de estrelinhas e se fundiu em mim, me deixando ligada nela.
Quando abri os olhos, já era dia claro. Estava ensopada de suor e respirava com certa dificuldade. Começou na minha cabeça uma torrente de lembranças bloqueadas pelos medos e traumas e outras que não deveriam me pertencer.
Eu começaria a preparar a próxima etapa dos meus desafios, agora sabendo tudo o que me escondiam.
Investigar e revelar a verdade. Essa era minha missão de liberdade.