Lista de Músicas

domingo, 25 de dezembro de 2022

O Iluminador



"Quem leva luz para o seu próximo, nunca andará na escuridão"

                                                                        Augusto


O relógio marcava 12:15 quando o fotógrafo Samuel Santos sentou com seu guia para almoçar.

O local era simples, mas agradável e com uma gostosa brisa, rodeado de árvores. As mesas de madeira rústica mostravam o talento das mãos de um artesão da região, que possuía seus trabalhos expostos por toda a vila.

Seu almoço foi servido por uma simpática senhora, que conversou um pouco com eles e depois foi atender outras mesas.

- Lugar agradável esse que você escolheu para almoçarmos Augusto! Se tudo der certo, até mesmo esse simples restaurante irá render lindas fotos para o meu álbum de Costumes e Talentos! - Disse Samuel de forma empolgada, sentindo que era o destino ter ido parar naquele humilde e belo lugar.

- Espero mesmo que renda muitas fotos boas, ou o dinheiro que você me pagou como guia particular será um verdadeiro desperdício! - Riu Augusto, esperando encorajar Samuel para que se sentisse desinibido em fazer seu trabalho e em pedir para fotografar lugares que ele sentisse necessidade.

Enquanto desfrutavam de um caprichado ensopado de carne com mandioca, Samuel voltou a admirar a paisagem, quando viu uma criança bem pequena, deveria ter seus 4 aninhos, levando apressada uma vela acessa na mão, com a ajuda de um objeto de casa para não se queimar.

Um pouco chocado com a cena, viu a criança seguindo naquela rua e dobrando uma esquina, sumindo de sua vista.

- Melhor começar a comer o que está segurando nessa colher antes que esfrie, ou não vai gostar depois, pois fica pegajoso! - Avisou tranquilamente Augusto para Samuel, achando graça pela forma como ele ficou olhando para a rua, de queixo caído, com a colher parada no ar, a meio caminho da boca.

Após o almoço, Samuel pediu para a dona do estabelecimento para fazer as fotos, o que a mulher permitiu com alegria, também servindo de modelo.

Ao findar do dia, Samuel e Augusto jantaram no mesmo local e, em seguida, foram para uma pousada ali perto.

Samuel já havia feito sua higiene pessoal e deitava na cama quando tudo ficou escuro.

Ele não tinha o costume de ficar assustado com isso, e achou estranho quando, poucos minutos depois a dona da pousada bateu em sua porta com uma vela acessa na mão, oferecendo outra para que Samuel não ficasse no escuro. Ele ia recusar de forma educada, mas notou um brilho na forma como a mulher lhe oferecia a vela, que ficou incomodado em recusar aquela pequena e bela chama. Aceitou, deixando em um suporte ao lado da cama, que parecia estranhamente ser próprio para isso.


- Ficamos sem luz ontem a noite, percebeu isso? - Perguntou Samuel para Augusto assim que saíram da pousada.

- Eu percebi! E não se surpreenda, é normal nesta comunidade! Pode ocorrer por dias seguidos! - Afirmou Augusto tranquilamente, claramente acostumado.

- A dona da pousada foi até meu quarto me levar uma vela, com medo que o escuro me incomodasse! Muita gentileza dela, não acha? - Pergunta Samuel, encantado com tamanha hospitalidade.

- É um costume por aqui que isso aconteça! - Disse Augusto, parando perto de um riacho com muitas árvores ao redor e pássaros que vez ou outra desciam até ali para se refrescar.

Samuel começou a fazer fotos do local, encantado com tamanha beleza, brilho e pureza daquele pedacinho de chão.

Mais tarde, enquanto voltavam até o restaurante, Samuel viu um senhor, que deveria estar na casa dos seus 80 anos, caminhando por aquela mesma estrada que a criancinha havia feito no dia anterior. Este senhor ia de forma calma, apoiando em uma mão sua bengala, na outra um pires para carregar uma vela acesa.

Aquilo começou a perturbar Samuel, que não disse nada para o guia Augusto, com medo de descobrir ser um estranho costume, religioso ou não, de fins duvidosos, como uma macumba ou algo assim.

No dia que seguiu aquele, chovia bastante, e Samuel aproveitou para fazer fotos da pousada, que combinava o rústico com traços modernos, embelezados com a dança daquela chuva tranquila.

Desta vez, em horário mais tardio, viu uma mulher na casa dos 40 anos e um menino, que deveria ter 10 anos, fazendo o mesmo trajeto dos outros nos dias anteriores.

Ele achou estranho o menino estar acompanhado, de guarda-chuva, carregando a vela em uma lamparina antiga, protegida em cima para não entrar água e para não queimar o guarda-chuva.

O que seria esse costume estranho?

Se no dia seguinte visse alguém fazendo aquilo novamente, necessitaria de respostas de seu guia.

Quando o dia seguinte chegou, com o sol saindo tímido, com um pouco de nuvens, Samuel decidiu que iria esperar para ver, ou não poderia mais manter a concentração no trabalho, tamanha perturbação o afligia.

Quando viu um homem na casa dos 30 cruzando a rua tranquilamente, com a vela grudada em uma xícara de cabeça para baixo, no mesmo caminho, e a vela acessa.

Não pôde mais suportar e foi falar com Augusto.

- Homem, não posso entender o que acontece nesse lugar e isso me assusta! Porque cada dia uma pessoa cruza essa rua com uma vela, faça chuva ou faça sol, e vai para sei lá onde, fazer sabe-se lá o que? O que acontece nessa vila? As pessoas fazem alguma macumba ou algo assim? - Samuel perguntou, angustiado.

- Meu caro, você gostaria de conhecer uma bela história desse costume aqui nessa vila, que nada tem a ver com maldade? - Perguntou Augusto, instigando a curiosidade de Samuel.

- Mas é claro! - Respondeu.

- Então venha, vou contar uma história e mostrar alguns lugares, os quais vai gostar de fotografar! - Convidou Augusto, e Samuel não perdeu tempo em segui-lo e preparar sua câmera.


Caminhavam até o centro da vila, local em que ele não havia notado ainda, mas possuía um suporte grande, com uma tabela de lembrete, em que havia várias linhas escritas. Chegando mais perto, ele notou que eram os nomes das pessoas que moravam ali. Alguns estavam escritos com cor branca, todas protegidas com um vidro e coladas com velcro e com sobreposição, supostamente para ser grudado outra coisa por cima.

Olhando melhor, alguns nomes na lista possuíam sim um segundo tecido colado por cima, em branco, e alguns tinham outras cores.

- O que significam isso? - Samuel apontou para as marcações.

- Se prestar atenção, os nomes estão organizados em ordem alfabética, para facilitar encontrar um nome. Estes com tecido branco por cima, significa que a pessoa está fora da cidade ou foi embora, e não pode fazer a leva da vela na sua vez, passando para o próximo da lista. Os que estão coloridos são os indispostos, doentes ou, nem preciso dizer o último! - Sorriu Augusto, enquanto apontava e explicava - Faça chuva ou faça sol, todos levam a sua vela, sua luz de bondade!

- Mas e o porque disso? É algum tipo de ritual? Algum tipo de "maldição" ou algo assim? - Fez aspas com os dedos, procurando entender a situação, enquanto fotografava.

- Existe uma história que vou contar, enquanto isso, vamos para outro lugar que gostaria que visse!

Foram andando, enquanto Augusto contava a história.

Joaquim era o filho único de José e Celina, um homem de coração bom e simples. Morria de medo do escuro e, por conta disso, aprendeu aos 8 anos como usar parafina de cera de soja combinado com pavio de madeira para fazer velas, e passou a usar como instrumento de trabalho.

Claro que, com o passar do tempo ele aprendeu a fazer outras, como a tradicional, mas isso seria história para outro momento.

Bom, ele passou a fazer suas velas para vender e ajudar na renda da família.

Infelizmente ficou órfão cedo, mas não perdeu sua bondade.

Ele vendia as velas para se manter, levava uma vida simples.

Como o vilarejo seguidamente ficava sem energia elétrica, fornecida por cidades maiores, ele iluminava sua casa com velas e, certa noite em que acabou a energia, ele notou que em algumas casas, crianças choravam, demonstrando seu medo do escuro. Sem pensar se teria algum tipo de prejuízo com seu ato, Joaquim pegou várias velas da sua produção e foi de porta em porta, acendendo, oferecendo e entregando aquela singela luz para quem estivesse com medo. Sua recompensa era o brilho alegre do olhar das criancinhas que recebiam uma vela dele para espantar sua escuridão.

Sempre que as luzes se apagavam, Joaquim não descansava até levar aquela luz para todos da vila, que ficavam gratos com o carinho dele.

Joaquim nunca se casou, e sempre morou sozinho após o falecimento dos pais. Mesmo assim, ele não carregava um pingo de maldade no coração, não era ressentido. Ensinou alguns jovens que possuíam o interesse no coração em ajudar com o trabalho.

Após seu falecimento, as pessoas não queriam que ficasse no escuro um homem de bom coração que dava tudo de si para não deixar faltar luz ao seu próximo. Decidiram então que o enterrariam ao lado de sua casa e, da mesma forma que ele fazia, levariam uma vela para ele todo dia. Para isso, organizaram uma lista em ordem alfabética e deixaram em um painel no centro da vila, para que todos soubessem sua vez e não deixassem um único dia de levar, não importando o que acontecesse.


Encantado, Samuel fotografava aquela humilde casa e o túmulo ao seu lado, sentindo a boa energia que emanava daquele local.

- Essa história é linda demais, mas porque eles ainda continuam por uma pessoa? - Questionou Samuel, curioso.

- Samuel, se uma pessoa passa a vida mais se doando pelos outros, não é certo que essa bondade seja retribuída de certa forma? - Perguntou Augusto, observando o fotógrafo, que ficou reflexivo - Quem leva luz para o seu próximo, nunca andará na escuridão!

Ouvindo aquilo, Samuel soube que, se houvesse no mundo uma única pessoa com a chama de bondade no seu coração acessa, o mundo jamais mergulharia no abismo escuro, pois sua bondade iluminaria o caminho de quem a aceitasse.

- Deus envia para muitos lugares no mundo seus anjos, e aqui acreditamos que Joaquim foi o nosso, e que não devemos apagar sua chama de bondade acesa nessa vila, enquanto pudermos aprender com isso e passar adiante! - Concluiu Augusto, deixando Samuel emocionado.

Certamente foi uma ordem divina que ele fosse até aquela vila e aprender mais sobre o amor ao próximo, usando sua habilidade para disseminar pelo mundo aquela bela história.

No dia seguinte, Samuel havia acabado de fazer suas fotos naquele vilarejo e seguiria para o próximo, junto de seu guia Augusto, que certamente teria muitas outras histórias lindas e belas para ele contar através de suas fotos.