- Não faça mistério, pois odeio quando alguém faz isso comigo! - Deu um berro, não gostando da forma séria como ele falou.
Com um suspiro, ele falou calmamente:
- Você nunca soube de nada sobre a história desta casa, de sua família, de nada que aconteceu a cerca de 70 anos atrás, não é mesmo, minha doce Kath?
- Mas do que é que você está falando Dyeiden? O que pode ter acontecido que seja necessário que eu saiba? - Perguntou, totalmente confusa.
- Mas é claro, como pude ser tão ingênuo? - Ele brincou, dando um tapinha na própria testa. - Sua mãe nunca lhe contava histórias de sua família, de como ela adquiriu esta casa ou até de o porque de você sentir fantasmas, ouvir e passar através de espelhos e até de ser dominada, por o que parece, ser algum "monstrinho" que a controla e não permite que lembre de nada pelo qual passou nos últimos minutos. - Ele fez silêncio. - Talvez... Até mesmo porque seu pai foi embora, ou sumiu quando você era pequena. - Ele completou, deixando-a de olhou arregalados com o que ele acabara de dizer. Dy sabia sobre seu pai? Mas como? Quando?
- Como sabe tudo isso? - Ela chegou mais perto, para não perder nenhuma de suas palavras.
Com um sorriso de canto, ele respondeu:
- Para isso, é necessário que você venha comigo até a biblioteca da casa, para que eu lhe mostre os registros em diário, de uma antepassada sua.
Saíram apressados do quarto e atravessaram o corredor até a biblioteca. Quando entraram, Kath ficou impressionada com a quantidade de livros existentes naquelas paredes. Dy levou-a até a mesa, abriu a gaveta, pegou um livro grande de capa dura
e estendeu-o para ela dizendo:
- Abra-o agora, e entenda um pouco mais do que aconteceu, pois você precisará. - Disse, como se fosse algo místico.
- Tá certo, vou ler este, obrigada! - Agradeceu, dando um beijo no rosto de Dy, que corou de imediato. Em seguida, ela saiu e foi para o quarto.
Sentou na cama, largou o livro e pegou a guitarra.
- Mas que bobagem. - Pensou ela. - Não posso ser uma chorona estúpida que tem medo de um livro velho. Afinal, é só um diário! - Pensava, procurando diminuir a vontade de jogar o diário no lixo e esquecer aquela história.
Decidiu, então, pegar a mochila. Abriu-a, pegou o caderno e foi fazer seus deveres. Era questão de minutos para que ela fizesse seus deveres.
Dificilmente recebia nota menor que 9 em cada uma delas, nem ao menos precisava estudar muito, ou mesmo prestar atenção nas aulas, pois apenas uma única passada de olhos por seus cadernos e ela já conseguia lembrar tudo. Então passava mais tempo estudando para outras matérias.
Não gostava muito de educação física, por exemplo, por precisar se mexer e, principalmente, por ter de jogar com outras pessoas. Era indispensável patricinhas no jogo... Porque sempre elas? Seria alguma espécie de teste? Ter de suportar as favoritas do colégio caso algo acontecesse a elas?
Como no jogo em seu antigo colégio, como na cena do filme "Sexta-Feira muito louca". Ela foi dar o saque, distraída com Bianca, a mais popular do colégio, uma patricinha fresca que tinha todos na palma da mão, ficava rebolando e atirando beijos para os garotos na quadra de vôlei ao lado, incluindo Fred. Em um momento de ciumes e pequeno erro de cálculo, ela deu o saque e acertou o topo da cabeça de Bianca, que caiu estatelada no chão, e Kath foi parar na detenção. Ou quando estava no refeitório procurando seu grupo da banda, com uma bandejinha com um sanduíche e um suco de uva. Olhava ao redor mas não os avistando, deu meia volta e, no momento em que foi olhar para a frente, bateu-se de frente com Bianca que, por consequência do suco estar em um copo descartável na sua bandeja, virou tudo em suas roupas, deixando seu casaco Adidas coberto de maionese e suco de uva.
- Deveria ter tomado mais cuidado, monstrinho. Pois, além de feia, é uma lerda lesada! Tenho pena de você! - Disse Bianca, como quem não quer nada e, quando virou-se com suas seguidoras para sair fazendo seu "desfile" no meio da sala, Kath pegou a latinha do suco que estava na bandeja antes de ser derrubada, pegou e jogou com força em Bianca. Seu vestido sujou, e ela começou a chorar copiosamente gritando e chamando a diretora. Kath foi parar novamente na detenção.
Não deixaria mais que aqueles desastres acontecessem, tomaria cuidado... Para a diretora não estar por perto!
Resolveu então, pegar o diário, após terminar os deveres. Abriu e iniciou a leitura.
25 de Novembro de 1911
Hoje acordei cedo, penteei bem meus cabelos, vesti meu melhor vestido e perfumei-me com a melhor colônia de Paris que ganhei em meu 14º aniversário, com aroma de rosas e jasmins. Mamãe avisou para que eu estivesse pronta hoje, desde muito cedo para receber meu irmão Jacobs, que estará voltando da Europa com Millene e Edmund. Foram todos passar uma temporada por lá, pois o clima está ameno, diferente daqui, que está muito quente nesta época do ano, e para uma criança tão pequena quanto meu fofo e roliço sobrinho, não lhe faria muito bem.
Estarão para chegar a qualquer momento, então, devo descer em breve e ficar nos jardins esperando a carruagem que irá buscá-los no porto. Millene é um doce comigo, e muito atenciosa também. Espero que tenham trazido muito presentes, como da outra vez, em que trouxeram-me lindos vestidos de seda e sapatinhos de princesa.
Fim a 1º página. Batia com a história que Margareth havia lhe contado. O irmão, a cunhada e o sobrinho.
Refletindo sobre o que havia lido, concluiu que Mag amava o irmão e adorava sua família e que, se o que contaram sobre o passado de sua família fosse verdade, então poderiam existir certos porens mais a frente naquela história.
Levantou e foi até a janela. Passava o dedo indicador pelo tecido de seda quando ouviu sons de pedrinhas sendo jogadas contra a janela.
Ficou prestando atenção no som, para ter certeza de que realmente ouvia aquilo. Parecia coisa de criança. Era surreal alguém estar jogando pedrinhas em sua janela, afinal, o vizinho mais próximo ficava a 10 KM de distância. Como ficou muito curiosa, puxou a cortina para olhar para baixo. O céu estava lindamente estrelado e a lua no céu, grande e cheia.
Olhando para baixo, era possível ver Dy acenando para sua janela, para depois fazer um sinal com a mão, indicando que era para ela descer. Abrindo um sorriso, ela pegou o diário e saiu correndo do quarto, sorrateiramente, para que ninguém lhe incomodasse.
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- Porque me chamou para passear a essa hora Dyeiden? - Perguntou, enquanto caminhavam pelo gramado.
- Precisava falar com você, talvez até... passarmos um tempo juntos, o que acha? - Ela abriu um sorriso bobo. - Acho ótimo, realmente maravilhoso! Afinal, você também é o único da minha idade por aqui, com quem posso conversar e ao qual me entende. Não fica me perturbando o tempo todo.
- Nem sempre ficamos solitários porque queremos. Ás vezes, é porque não conseguimos ou não temos como aproximarmos de outros. Sei que é assim, não sou tão diferente de você. Conheço o modo como vive sua família, a minha trabalha para a sua à 5 gerações, então, basicamente, sei muito sobre vocês ou, como podem ficar. Por isso eu a compreendo.
- Espera! 5 gerações? Como pode isso? Você sabe tudo sobre mim, minha vida e minha família, e eu, nada sobre você! Vocês são o que? Algum tipo de clã que segue outro eternamente? Isso é meio bizarro.
Chegando a beira do lago, Dyeiden sentou no gramado, admirando a lua refletindo seu explendoroso brilho no lago, com uma iluminação encantadora. Os dois admiraram aquela imagem belíssima por um tempo, banhados pela luz da lua, que refletia da água para eles, ouviam grilos cricrilando.
- Porque eles nunca foram embora?
- Eles? Quem? - Perguntou de volta Dy, com ar inocente de quem não havia entendido.
- Eles, sua família. Porque nunca foram embora daqui? Parece até que estão presos por uma maldição! - Tentou ironizar Kath, mas Dy a olhou da mesma forma e, com tom ofendido, respondeu: - Você mal começou a ler o diário, não é?
- C-como? O que uma coisa tem a ver com a outra? - Perguntou, espantada. - Pensei que tínhamos saído para conversar numa boa, para eu poder ouvir o que você sente, mas são só coisas sem sentido nenhum... Me procure quando resolver pôr as cartas na mesa e abrir o jogo comigo! - Disse, muito irritada e, pegando a bolsa, saiu pisando fundo pelo gramado, as pantufinhas rosa afundando e enchendo de lama ao redor e na pelugem.
- Espera Kath! Você não entendeu! Me deixa te explicar melhor! KATH! KAAAATH! - Gritava ele, estendendo a mão. Depois a abaixou, desistindo. Teria de esperar ela se acalmar para conversarem melhor.
- Como ele é idiota! Porque não notei isso antes? Perdendo meu tempo assim... Achei, pensei, imaginei... Até sonhei com um encontro com esse garoto e ele age dessa forma estúpida? Me faz de boba e me enrola. Podia ter ficado em casa tocando minha guitarra antes de dormir, e não ter saído para ser decepcionada dessa forma... Olha só para minhas pantufas, minha mãe vai pegar muito no meu pé.... - Exclamou, jogando as pantufas com força na porta, fazendo uma marca igual a um chute surgir perto da maçaneta. Se jogou na cama, cobriu-se, virando para a janela,olhou para a lua, até adormecer.
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Kath
Kath
Kath
Estava perto do lago, correndo de camisola branca, olhando para todos os lados, procurando por quem chamava seu nome.
Não desista Kath, jamais desista de saber a verdade!
- Quem é você? Onde está? Como posso ajudá-la? - Gritava, olhando para todos os lados.
Não desista
Descubra a verdade
Não desista
Não importa o quanto lhe digam
Kath foi ficando muito assustada, pois aqueles sons começaram a vir de todos os lados, de cima, atras, dos lados, passando com muita força, de forma fantasmagórica, deixando zumbidos muito altos em seus ouvidos. - Pare, pare com isso! - Pedia, cobrindo os ouvidos com o som ficando extremamente alto e caindo de joelhos.
Não pare
Não desista
Você precisa descobrir e revelar a verdade
- Que verdade? Sobre o que? - Gritava acima do som ensurdecedor.
Apenas... Não desista!
O som parou. Kath lentamente foi afastando as mãos e levantando o rosto, soltando gemidos de dor, um pouco de sangue escorrendo das orelhas. Olhou devagar ao redor, com medo daqueles pedidos ensurdecedores recomeçarem, arfando de medo.
- Não desista Kath! Todos precisam saber o que aconteceu! - Disse uma voz, muito familiar atrás dela.
- Mas quem é... - Sem terminar a frase, arregalou os olhos e soltou um grito apavorado. Não era uma boa visão que estava tendo. Uma garota com o corpo imunda, coberta de sangue, com cortes na garganta, as órbitas dos olhos vazias, toda retalhada.
- Só pode ser brincadeira! Um pesadelo louco de medonho esse! - Pensava apavorada, quase completamente paralisada de medo.
Levantou, sem tirar os olhos daquela visão medonha e correu. O máximo que pôde.
- Me deixa em paz! - Gritava Kath, enquanto corria descontroladamente pelo gramado, que parecia se estender cada vez mais, pois aquela criatura vinha voando, girando pelo ar.
- Não fuja Kath, não vou te ferir, preciso da sua ajuda! - Gritou aquela garota.
Quando Kath pensou em parar para talvez conversar, deu uma olhada de canto e viu um machado aparecer na mão da criatura, envolto nos trapos que abanavam no ar.
- Mas nem a pau que eu paro agora. - Viu um galpão, onde ficavam o fogão á lenha e os bancos, onde todos se reuniam no inverno rigoroso para prosas e contar causos para passar o tempo.
Puxou a porta várias vezes, bateu e desistiu. A porta estava trancada. Quando olhou para trás, a criatura chegou onde ela estava, parou a centímetros de seus rosto, as órbitas de seu olhos pareciam pulsar, um cheiro terrivelmente medonho de morte, lixo e carne em putrefação. Engoliu em seco. O estômago revirava e ela começou a sentir ânsia com aquele cheiro horrível, que lhe deixava arrepiada.
- O-o que você quer de mim? - Perguntou em um fio de voz, suando frio e encolhendo-se contra a porta do galpão. Não tinha escapatória.
- Sua ajuda. - Disse a criatura e, da mão escondida, apareceu uma faca e cravou com força em cheio no estômago de Kath, que perdeu o ar e sentiu sua camisola se ensopando, com uma poça vermelha de onde jorrava o sangue.
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Acordou em um sobressalto, os olhos arregalados, arfando profundamente, a barriga dolorida e os lençóis cobertos de suor, metade no chão.
- Foi um pesadelo. - Percebeu, sentindo que os ferimento não estavam mais ali, e estava no quarto, sozinha novamente. Ficou com medo novamente. Começou a chorar.




