Liguei para minha mãe para avisar que eu já havia chegado em casa, deixando ela surpresa!
- A irmã mais velha da Rose me trouxe em casa... - Não quis terminar a frase.
- O-OK querida! Vou logo para casa.
Nos despedimos e eu desliguei, ainda lembrando de como a irmã da Rose é a pior barbeira do mundo!
É sexta! Não gosto de experimentar roupas, mas mesmo assim vou revirar o armário antigo que está no sótão. É pequeno, mas muito bonito, em estilo antigo.
Subo até o sótão, pela escada velha que range a cada passo que dou, um rangido longo, mas que prega sustos, pois a subida é um pouco escura e está tudo em silêncio absoluto. Vou subindo os degraus devagar e com cautela, não quero chamar a atenção de ninguém nesta casa... Ainda mais para interrogatório.
Eu chego no topo da escada e olho ao redor. O armário fica no canto, parece até o guarda-roupa de As Crônicas de Nárnia. Vou até ele e o abro, vendo as roupas lindas e antiguissimas guardadas ali. Tiro um lindo vestido longo, como o de uma princesa, e pego pequenas sandálias que combinam. Vesti a roupa e me olhei no espelho velho e manchado que se encontrava atrás de algumas caixas, que tinha um pano sujo que lhe cobria a metade. Girei e rodopiei, me sentindo um pouco mais leve e menos melancólica, da forma que eu não me sentia desde meus 6 anos.
Como qualquer garota, mesmo que eu não gostasse da ideia, desejava e sonhava as vezes com a droga de um príncipe em um cavalo alado que viria me salvar de toda a dúvida, o pânico e o medo de me sentir muitas vezes, sozinha no mundo, mesmo tendo minha mãe que fazia um ridículo esforço fingido para me ver bem e equilibrada, as minhas novas amigas e os dois garotos que mais confundiram minha cabeça em toda a minha existência. Eu insistia comigo mesma em esquecer o garoto que havia traído minha confiança, pelo qual eu admito, era completamente apaixonada, e que me abandonou quando escolheu a garota que mais bate de frente comigo na escola. O garoto que mais demonstra querer cuidar de mim e me proteger, apesar de ser dever de família de acordo com sua descendência, diz me odiar a ponto de não me querer... Mas deixa escapar que sente algo por mim.
Se Dyeiden sentia realmente algo por mim, porque tentava me proteger, se aproximou de mim outro dia de forma inesperada, entrando no meu quarto, ficando a milímetros de me beijar e... fugindo! Porque ele foge?
Enquanto minha cabeça ficava as voltas com tantos pensamentos voltados para o garoto que mais mexia comigo, mal percebi quando alguém se aproximou de mim pela escadaria. Apenas vi um leve reflexo quando completei uma volta na frente do espelho. Arfei de susto e, antes que a pessoa que subia pudesse me ver vestida daquele jeito, com um vestido velho que estava guardado sabe-se lá a quanto tempo, segurei-o pelas duas pontas da barra e corri silenciosa para trás de alguns caixotes, agachei-me, e fiquei ali, esperando que a pessoa que subia pegasse logo o que procurava e fosse embora. Quando vi que era a mesma senhora que limpava o chão no dia em que cheguei (a qual raríssimas vezes se via nesta casa, aliás), pegou um balde velho, um esfregão, algumas caixas de papelão e, descendo devagar, como alguém de mal jeito na coluna, foi saindo aos poucos do sótão. Suspirando aliviada, fui me levantar do meu esconderijo, perdi o equilíbrio e caí desajeitadamente no chão, de costas para o grande espelho no meio da sala. Porque esse lugar tem tantos espelhos velhos guardados? Quando fui tentar um ponto de equilíbrio em sua moldura, senti os redemoinhos na minha palma. Então olhei mais diretamente para ele e, sentindo que algo tentava me puxar, recuei e me pus a correr, tropeçando na barra do vestindo, quase caindo e levantando novamente. Senti algo escorregadio sob meus pés, me desvincilhei mas, quando senti novamente, era gelado. Tentei me afastar, mas aquela coisa, que parecia fumaça, puxando meus pés e enroscando-os, fazendo-me perder o equilíbrio e caindo de bruços no chão. De frente para a porta, ainda tentei me soltar e fugir, mas aquela fumaça me puxava, obsessiva, e sem esforço, pelo meu calcanhar, para mais e mais perto do espelho. Droga, sinto que estou perdendo os sentidos, o tecido do vestido está levantando para cima enquanto sou lentamente puxada de volta para o meio da sala, roçando meu rosto, enrolando-se com meu longo cabelo loiro, me deixando semi-nua da cintura para baixo. Agora sentia frio também nas pernas e subindo para o restante do corpo. Mal tinha forças para me mexer, estava com a visão muito embaraçada e ficando escura, a cabeça rodando. O que é esta fumaça? É muito entorpecente! Parecia que alguém estava espalhando no meu corpo analgésicos para cirurgias, pois estava ficando toda dormente, e os pensamentos então... Imagens tão embaralhadas quanto a minha visão... Senti que era levantada pelo invisível, dos pés para a cabeça, subindo devagar, entrando em um lugar escuro e com luzes brilhantes, que iluminavam aquele negrume coloridamente, diferente das estrelas, com seu brilho de branco fantasmagórico. Tudo foi ficando leve e, cansada, adormeci, livrando-me, naquele instante, de tudo o que angustiava o meu coração.
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Acordei em meio a um monte de feno, com pedaços se entrelaçando no meu cabelo e na minha roupa. Quando fiz menção de levantar, ouvi os relinches de um cavalo e levantei rapidamente, sobressaltada. Parei para olhar ao redor. Estava no celeiro da casa!
Fui saindo com pressa, tentando tirar um pouco do feno que se enroscava persistente em mim quando uma voz me chamou, e fez eu me assustar.
- Ei, qual é a sua? Quer me matar de susto?
Um jovem muito familiar vinha de um canto limpando as mãos em um paninho e calmamente perguntou:
- O que fazia aqui, Senhorita Margareth? Pensei que estivesse muito ocupada para vir me visitar hoje.
Ele era lindo! Forte, com o corpo que se destacava por baixo da camisa justa de algodão, cabelos loiros acastanhados lisos, que lhe caiam sobre o olho e, aqueles olhos, eu os conhecia... Eram os mesmos olhos do Dyeiden, lilás! Na mesma hora, procurei mudar minha postura, ficando mais ereta, e falando de modo mais distinto.
- Perdão, o que disse? - Fiz-me de desentendida, ou estaria ferrada. Ele pensava estar falando com a Mag, quando na verdade era a Kath, e eu, por um instante, quase o insultei por pensar que era o Dyeiden, quando na verdade era o mordomo que ela gostava, como era mesmo o nome dele...
- A senhorita inventou uma desculpa para não vir me ver hoje, ou estou apenas tendo ciume bobo por pensar que iria me trocar pelo motorista da charrete? - Sorriu com malícia, seus olhos cintilando, brincalhões. Garoto, como eu queria que fossemos da mesma época para que eu te agarrasse agora! Comecei a ficar corada e distraída, mas ele me fez voltar dos meus devaneios.
- Parece um pouco distraída hoje, mademosel. Certamente existe uma boa explicação para ter vindo até o celeiro hoje e não ter vindo ter comigo logo. - Ter com ele o que? Vai dizer que a Meg é uma safadienha dessa época? Ô garota sem vergonha!
Ele passou um dedo pela minha bochecha, acariciando lentamente o meu rosto, ficando todo corado. Fechei os olhos para sentir seu toque leve de dedos quentes, e comecei a sentir um calor irradiando dentro de mim e se espalhando lentamente. Abri os olhos e me afastei um pouco. Eu não sou dessa época e esse cara é da Mag. Para que ele não estranhasse o meu comportamento, dei um sorriso tímido e convidei:
- Me acompanhe até a porta, sim? Tenho muitas coisas para fazer e vim aqui apenas para relaxar um pouco, o que não me impediu de vê-lo antes de voltar as minha tarefas. - Eu falei de modo nervoso, apertando os dedos, de modo que ficassem longe de seu campo de visão. Sorte que vi muitas garotas malucas atuando no reformatório, ou não saberia o que fazer!
Ele andou ao meu lado até a porta e sorriu, parando para se despedir.
- Olhe só para esse seu lindo rosto angelical, e suas vestes... - Ele riu - Está parecendo uma sem-terra que invadiu o celeiro de um fazendeiro! - Sorriu, estendendo a mão até o meu cabelo, puxando uma mecha onde havia feno enroscado, soltou-o, puxou a mecha inteira e aproximou o rosto do meu cabelo, cheirando-o de leve, e falou sorridente - Se me permite dizer, fica ainda mais encantadora quando está fazendo estripulias Margareth! Você é tão bela, delicada e cheirosa, sua pele e seu cabelo são fascinantes, e me sinto a cada dia mais e mais encantado com a pessoa em que vem se transformando! Você é como um poema para mim, pois me encanta, me deslumbra e preenche minha alma. Por isso eu a amo tanto. - Enquanto falava, ele girava delicadamente uma mecha de cabelo no dedo, visivelmente deslumbrado. E sem avisos, passou o outro braço pela minha cintura, puxando meu corpo firme contra o seu, me permitindo sentir seus braços fortes e seu peitoral, que deveria deixar aquela garota maluca, enfiou os dedos da outra mão nos meus cabelos e os enrolou na mão, de forma que meu cabelo ficou todo em sua mão, e minha cabeça firme de acordo com sua vontade. Eu respirei com dificuldade, com medo de que aquele avanço significasse algo que eu não queria que acontecesse entre nós. Ele beijou levemente minha testa, apoiou-a contra a sua e roçou meus lábios, mas, para meu alívio, não me beijou. Mas tudo aquilo durou vários segundos, com ele respirando com dificuldade, visivelmente demonstrando em mim a paixão feroz e carinhosa que sentia pela mulher que amava. Quando me soltou, pegou minha mão, segurando meus dedos e, curvando-se como um verdadeiro cavalheiro, beijou-a delicadamente e, olhando nos meus olhos, disse:
- Estarei ansiosamente esperando sua próxima visita, minha deusa maravilhosa. - Soltou minha mão e se afastou, visivelmente mostrando que aquele momento estava encerrado.
Levantei a barra do vestido e, vendo que ninguém estava por perto para me observar, saí correndo por trás da casa até a porta dos fundos, igual uma doida varrida, tropeçando e quase caindo várias vezes durante o caminho.
Quando cheguei na casa, entrei discretamente, e saí a procura da Mag. Encontrei ela na sala do piano, tocando uma linda melodia triste. Sentei-me ao seu lado delicadamente para ouví-la tocar, tentando não assustá-la. Ao sentir a presença de alguém sentando no banquinho junto dela, bateu os dedos no piano em um som fora do compasso e olhou para mim.
- Kathlyn! Que bom revê-la! - E abraçou-me - Já faz algum tempo... Por onde andou? O que fez? Como chegou aqui? É realmente bom ver você de novo! - Bombardeou-me com perguntas, falando rápido, me deixando até zonza.
- Calma lá, mulher! Eu já respondo você, só... Fale mais devagar! - Pedi, fechando os olhou, com uma mão na frente do rosto, como se fosse cega. - Calma! Eu sei que faz um tempo, eu andei pelo mundo, como dizem uns amigos; Só estudei e me meti em confusão; E cheguei aqui da mesma maneira que da outra vez: pelo "portal" que é o espelho do seu estúdio particular de ballet, lá em cima! - Disse, apontando com o indicador para cima.
- Mas, como pode ser possível? - Perguntou, um tanto surpresa e abismada.
- Vem, que eu mostro pra você! - Falei, levantando e estendendo uma mão, para ela me seguir.
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- Como você vem parar aqui? - Perguntou Margareth, caminhando até o meio do salão, afastando um pouco os braços, virando para mim e olhando ao redor.
- Não tenho certeza mas, eu acho que é por aqui... - Disse, apontando para um pedacinho do espelho, que, no meu tempo, era levemente lascadinho.
- Não! Como pode ser possível? Você ficou louca? Onde quer chegar com isso? - Perguntou, indignada, aumentando o tom de voz.
- Eu não sei explicar, mas, parece que, toda vez que eu me aproximo dele, algum tipo de energia, ou alguma coisa, me puxa para ele, algo que não posso evitar. - Fiquei em silêncio um momento, e olhei para ela, que digeria o que eu acabara de falar, pálida e chocada! Deve achar que sou louca, como todos os outros...
- Você deve estar brincando comigo, só pode ser! Isso é totalmente impossível de acontecer! - Dizia, não acreditando em nada do que eu acabara de falar (e descobrir).
- Então como explica sermos tão parecidas? Hã? Em como eu apareci duas vezes aqui do nada? Em como moramos na mesma casa? De termos o mesmo sobrenome? E da nossa escola ter o mesmo nome mas 100 anos de diferença? E...- Perdi a voz, já com sua atenção completamente no que eu falava - Do garoto que mora na pequena casa atrás da minha ser uma cópia fiel do que mora atrás da sua? - Falei, forçando um pouco as palavras para saírem. Ela arregalou os olhos, surpresa com todas as minhas colocações vistas de um ângulo quase impossível para ela.
- Vo... Você tem toda razão! - Falou lentamente. - Eu nem havia pensado nisso antes! Perdão! Perdoe-me por chamar você de louca e lhe acusar, mas... É quase fisicamente impossível!
- Também pensei nisso, até olhar bem esse lugar, um momento atrás... É o sótão da minha casa mas... Está lindo, bonito, espaçoso e arejado... E o espelho inteiro! - Apontei para o espelho. - Não são coisas normais!
- Então, qual seria sua teoria? - Perguntou, começando a falar na minha língua.
- Outro dia meu professor falou sobre acontecimentos cruéis no passado, como um assassinato no lugar e que, com uma grande eliminação de energia no local, feita pela alma que foi bruscamente arrancada do corpo, ela pode ficar ali até que alguém a encontre e, como parece que o armazenador é o espelho e, esta sala é você que usa, provavelmente seja algo que tenha a ver com você! - Falei, de braços cruzados, apontando um dedo direto para ela.
- Eu? Mas porque eu? Como eu posso ter passado tanta energia para ele a ponto de abrir um "portal", como você disse? E também, eu estou bem viva na sua frente! - Falou, tentando achar a lógica daquilo tudo.
Pensei um momento e disse a ela: - Talvez você não passou... Ainda!
- Como... Ainda? - Falou, perturbando-se.
- Será algo que ainda vai acontecer! Não existe outra explicação! - Falou, totalmente na lógica da coisa toda.
Visivelmente indignada, e assustada, não queria acreditar.
- Não, você tem de estar errada Kath! Tem de estar! - Esbravejou, parando de frente para mim.
Antes que eu pudesse responder, alguém bateu à porta. Antes de poder pensar em qualquer coisa, corri e me escondi no armário.
- Entre! - Ela falou, um pouco alto demais.
- Madame, já está anoitecendo, os convidados estão chegando! Sua mãe pede que vá se aprontar e descer logo! - Pediu o mordomo, que estava no vão da porta entreaberta.
- Certo! Descerei logo!
E ele se foi
- Convidados pra quê? - Perguntei, saindo do armário, toda enrolada em roupas delicadas, saias e meias de ballet.
- É aniversário do meu irmão! Muitas pessoas são convidadas!
- Então terei de me arrumar também! - Falei, saindo aos tropeços do armário, exibindo minha roupa nada formal e de gente... Decente.
- Sim, terá de se vestir formalmente... E comportar-se!
- O que? Já sou muito comportada pro meu gosto! - Protestei.
- Você entenderá depois! Vamos, não podemos deixar os convidados esperando! - E, virando as costas para mim, fez sinal para que eu a seguisse até seu quarto.
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Dispensando mordomo e acompanhante, pediu que eu a ajudasse a se vestir. Era tanta roupa, tanto pano, tanto brilho, tanto cadarço no meio de espartilho... É de pirar qualquer um! - Porque você usa tanto cadarço nesse espatilho? - Perguntei.
- Uso o que?
- Cadarços! Essas cordas compridas e coloridas aqui, que são para amarrar os sapatos que ficam soltos nos pés! - Expliquei da forma como os conhecia.
- O que? Não! - Ela soltou um risinho divertido. - Homens usam cadarços, e as mulheres usam as tiras maiores e mais fortes para prender bem o corpo! As que os senhores usam são muito mais finas! - Explicou, toda orgulhosa e de nariz empinado.
- Ok! Então, fiquei firme e não grite! Vou deixá-lo o mais apertado que eu puder! - Avisei e, no instante em que ela ia começar a protestar, joguei o pé direito no meio da sua cintura com as botas firmes no tecido, e com o rosto fazendo força para trás, apertava o espartilho. Puxei com tanta força, que ela se segurou com força penteadeira de princesa, tentando manter os dedos segurando o corpo ali, pois ela estava sendo puxada com a minha força, apesar dos pés em suas costas, forçando-a para baixo.
- Por favor, não exagere! Assim não chegarei inteira lá embaixo! - Implorava, com a voz fraca, tentando se manter em pé.
- Espera só mais um pouco, eu estou quase conseguindo... Consegui! - Avisei, soltando-a, no momento em que todo o tecido transpassado saiu e prendeu firmemente sua saia e o espartilho na cintura, deixando com o corpo definido, boa postura, o busto realçado. Ficou encantadora!
- Agora, me ajude a vestir as saias e o vestido! - Fiz o que pediu, pegando montes de tecidos e passando por sua cabeça e os braços, um atrás do outro. Aquilo devia pesar toneladas! Após terminarmos de amarrar tudo, ela virou-se satisfeita e anunciou:
- Agora, é a sua vez! - Disse, com um grande sorriso no rosto e olhos de felino brilhantes.
- Ei, não! Não mesmo! Eu não vou vestir seu guarda-roupas inteiro! De maneira nenhuma! - Implorei, ficando realmente assustada.
- Há, mas você vai sim! - Falou, puxando meu braço com força e me jogando em uma cadeira. Começou prendendo meu cabelo, que ela dizia estar "cheio demais", seja lá o que isso significasse! Pegou dos lados e prendeu levantado para cima, parecendo um galo no meio da minha cabeça. Tentei soltar e bagunçar tudo outra vez, mas ela abaixou minhas mãos e puxou o restante, fazendo um coque alto, com uma mecha colorida enrolada ao redor e puxando na frente. Ficou bonito. Depois, começou a me vestir com tanta roupa e me fez dar tantas voltas em um tecido que diminuiria a parte ruim do meu corpo que quase precisei procurar um penico. Por fim, pôs um lenço leve na minha cabeça. Quando terminou com toda a arrumação, eu parecia uma princesa. - Você está pronta! - Anunciou.
- Mas como vou saber se ninguém vai estranhar meu cabelo ou minha maquiagem? - Perguntei, virando para ela, ainda sentada na cadeira.
- Você acha que é a única aqui? Tem uma duquesa que virá hoje que usa os trajes mais loucos e espalhafatosos, e os cabelos mais coloridos que um arco-íris, e uma menina que usa a maquiagem tão forte que mais parece a assombração de alguém, com o vestido branco de renda sempre imundo! Não se preocupe em parecer estranha, pois estranhos, todos somos! - Disse, tranquilizando-me. Mesmo que de longe parecíamos gêmeas. Mas gostei do seu pensamento, me fazia sentir... Normal! Normal mesmo, como era, quando criança, antes do incidente que mudou minha vida do qual nem me lembro, só lembro das consequências!
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O salão estava lindo, muito enfeitado da maneira que a realeza gostava.
Tinha tanta gente se vestindo esquisita ali, como Meg falou, que fez eu me sentir menos um peixe fora d'água de como já estava. Ela me apresentou as pessoas que lhe perguntavam quem eu era como uma parente muuuuuuuito distante camada Isabel. Fez o mesmo aos pais, e pude notar grande semelhança entre ela e a mãe. Assim como o irmão, que provavelmente minha aparência vinha do lado deles da família, afinal, eram meus antepassados.
Estava entediada, perto de uma mesa, provando uns doces esquisitos que eu nunca vira na vida, e, como alguns eu não me agradava, dava umas espiadas rápidas ao redor para ver se ninguém estava olhando e cuspia tudo de volta dentro dos pequenos embrulhos delicadamente feitos e muitíssimo sofisticados. Precisei segurar o riso quando veio um mordomo e levou a bandeja e uma mulher incrivelmente emperiquitada pegou o doce estranho que eu tinha devolvido e mordeu delicadamente um pedaço, distraída, sem desconfiar de nada.
Notei que Meg olhava furiosa para mim, pois percebeu o que eu havia feito. Após uns instantes de troca de olhares, ela cobriu levemente a boca e riu, pois também não gostava daquela mulher. Foi então, na prova daqueles doces (alguns de amargar até o estado de espirito, não sei como alguém come aquilo), joguei alguns para trás, no instante em que um mordomo passava com a bandeja, assustando-se quando o doce caiu em sua bandeja e se atirando no chão, fazendo voar doces para todos os lados, acertando aquelas mulheres com cara de nojentas e nariz empinado. Elas olhavam escandalizadas para o homem, e seus maridos ou filhos vinham correndo em seus socorros. Quando foram ajudar o homem a levantar, Meg olhou de forma furiosa para mim e cruzou os braços. Eu, que havia me divertido com aquilo, apenas dei de ombros com um olhar de "não fui eu" e fingi que não tinha acontecido nada. Pouco depois, me aparece um duque "metido a besta" rechonchudo e com cabelo lambido para o lado dando em cima de mim discretamente. Veio com uma conversa ridícula sobre politica e algo mais que nem parei para ouvi-lo, estava muito desesperada para fazê-lo sumir dali. Quando ele se distraiu virando para falar com alguém, peguei um punhado de pimentas que tinham em uma bandejinha, cortei um pedacinho de cada uma rapidamente e joguei-as com cuidado dentro da taça que ele tinha na mão. Era todo engomadinho, e aquilo me irritou. Quando ele virou para mostrar ao homem quem eu era, escondi mais algumas pimentas e temperos que ia colocar no drink dele. Enfiei tudo em um das camadas do vestido, que foram lentamente caindo pelas saiam e indo para o chão. Após ele me apresentar, fiz uma rápida reverência, e pedi licença, apressada para sair dali, para não sobrar pra mim. Corri para trás de algumas cortinas e apenas observei o momento em que aquele engomadinho bebeu um longo gole da bebida e começou a tossir feito louco, todo vermelho, pedindo socorro e gritando que a bebida era forte demais. Eu cai na risada! Ri tanto que perdi o equilíbrio e cai para trás, após tropeçar em uma cadeira.
Para minha surpresa, quem eu vejo em pé olhando para mim, aos pés da minha cabeça? Sim, Dyeiden! Eu ria tanto que nem liguei muito para o fato de ele estar ali, em outro tempo, me olhando, com as mãos na cintura e a cara fechada.
Virei meu rosto meio de lado para olhá-lo melhor, parando de rir, agora só com um sorriso no rosto, e perguntei:
- Como conseguiu me seguir? E, principalmente, como sabia que eu estaria aqui? - Perguntei, com uma curiosidade crescente disfarçada, pois muitas perguntas corriam na minha cabeça: Como ele me encontrou? Como foi passar pelo portal? Como saberia onde eu ia estar? Como entrou aqui sem ser visto? É impossível que ele saiba atravessar de qualquer maneira sem ser puxado! Estendendo a mão para me ajudar a levantar, esperou que eu estivesse de frente para ele - Não importa como eu vim parar aqui, o que interessa é que o que você está fazendo é muito arriscado! A sua interferência inexperiente pode mudar e muito o curso da sua história! E de todos aqui! - Ele me pegou pelo braço, me fazendo girar para olhar para o salão, com a boca perto da minha orelha direita, seu hálito quente me fazendo ter arrepios por todo o corpo e falou, me fazendo sair daquele torpor - Aquele cara que você colocou pimenta na bebida dele para deixá-la em paz - Ele apontou para o homem, agora sentado, com uma criada o abanando, com um copo de água na mão, parecendo cansado, mas não o suficiente para perder de admirar o corpo da mulher quando ela se virava - Esse cara é um mala, pelo que minha biza me contou. Ele é um tremendo mulherengo, que não pode ver um rabo de saia na frente que vai correndo atrás! - Me virou para ele e segurou minhas mãos. Apenas agora eu pude reparar que ele estava vestido de acordo com as vestimentas da festa. - Você não deve fazer brincadeiras perigosas como quase matar um homem nessa época com uma bebida daquelas - Avisou, apontando para o salão - Você só consegue vim pra cá para descobrir como as coisas aconteceram no passado da sua família, fazer tudo vir a tona. E não mudar todo o curso da história! - Ele parecia completamente furioso agora, mas eu podia ver tristeza em seus olhos. E medo. Medo de que algo saísse errado e pudéssemos mudar o curso da história e da nossa vida. Eu também tinha esse medo. Não pedi para nascer, muito menos para ter a vida que eu tinha, para passar pelo que eu passei. Mas essa era minha vida, e essa era a droga da tarefa que eu recebi. estava sem palavras para responder a ele qualquer coisa, e ele continuou:
- Temos que deixar certas coisas acontecerem, como ele, por exemplo. Você não pode matar ele, porque o certo é que ele morra uma semana após esse baile. Encontrado dentro do mato, perto do rio, sem roupas, com uma corda no pescoço e uma pedra enrolada na ponta.
- Para que a pedra? - Aquilo não fazia sentido!
- Para forçá-lo para o fundo do rio! Ele vai ser afogado por dormir com uma mulher casada, e quando encontrarem o corpo, já estará seco! - Ele se virou e foi saindo, me arrastando para fora do salão, indo em direção a biblioteca.
Chegando lá, ele abriu a porta rapidamente, me jogou para dentro e eu, cambaleando, me joguei em uma cadeira para não acabar caindo estatelada no chão, sob aquele monte de tecidos. Fechando a porta, ele foi até uma espécie de gaveta em uma parede com uma alça redonda na ponta. Puxando-a para o lado, ele a abriu, inundando a sala com o som de uma música suave que vinha do salão e muitas conversas. Me pegando de forma brusca pelo braço, me puxou para perto dele, de frente para aquela pequenina janela antiga na parede, de costas para ele. Com o corpo colado no meu, e as mãos firmes apertando minha cintura, ele falo, irritado:
- Sabe aquela mulher? - Ele apontou para a mãe de Kath, o hálito quente contra meu pescoço me deixando de pernas muito bambas de tantos arrepios - Você é esperta e já deve ter notado que ela é sua parente direta de linhagem, certo? - Perguntou, apertando minha cintura com as mãos, me deixando com falta de ar e uma dorzinha nas costas. - Eles tem muitos segredos, e nesse momento vou lhe contar um, já que isso você não vai descobrir sozinha - Prendi o ar, com medo do que ele falaria - Ela não é a mãe da Margareth, uma antepassada cigana desta sim, é a verdadeira mãe dela! - Não conseguia responder devido a surpresa. Como ela poderia não ser filha daquela mulher, e sim neta? São muito parecidas. O que teria acontecido?
- Eleonora e Harry Baumtos são descendentes de pessoas influentes e poderosas, daí é que surge seu poder em todos os lugares! E vou contar a história deles. Mas, primeiro... - Ele me soltou e foi até a parte de trás de uma estante, puxando um fundo falso. De lá, tirou um livro muito velho e um pouco rasgado, mas com indícios de ser um diário. Trouxe até mim e explicou:
- Este diário pertenceu a uma jovem, Angela, que amou e foi odiada pelo fruto gerado do seu grande amor e de sua dor. Tudo começa com uma família de ciganos que sai da Europa e vem para o Brasil, mais precisamente, para o Rio Grande do Sul - Ele andava vagamente de um lado para o outro, com a voz friamente calma - E, bom... - Deu um risinho triste e surpreso - Melhor eu ler para você entender... - Abrindo o diário, começou a ler devagar, olhando para mim de tempos em tempos, para saber se eu ainda prestava atenção. Fiquei completamente petrificada, de pavor pelo modo como ele agia, medo de ele tentar me machucar. Estava só começando a conhecer o lado sombrio deste garoto tão lindo.
- Viemos para o Brasil, em um vilarejo nos pampas gaúchos, os quais nos prometiam ter fartura, terras férteis e trabalho. Fomos abrigados na casa de um senhor poderoso, que tinha seu poder estendido pelo mundo afora, que nos ofereceu a morada em troca de nossos fiéis serviços.
Ele tinha um único filho, ao qual ele e a esposa amavam muito. O rapaz era gentil comigo, e eu fiquei deslumbrada por sua beleza e o modo como me cortejava furtivamente. Mas, antes que isso ocorresse, antes dele seduzir uma ciganinha de 15 anos que mal havia aprendido algumas boas lições da vida, durante a Primeira Guerra Mundial, recebemos a notícia que a maior parte da minha família, que ainda se localizava na Europa, havia morrido em uma explosão. Nossa família ficou devastada, e os donos da casa nos ajudaram a suportar e superar nossa terrível perda... E foi assim que Jacobs encontrou uma maneira de se aproximar de mim e me destruir...
Me seduziu para seus braços em meu momento de maior fraqueza pelo luto, me levando por aqueles braços fortes, que me seguravam de maneira firme, protetora e um tanto obsessiva... Me amou todas as noites por dois meses. Às vezes, de maneira um pouco agressiva demais... Até que comecei a sentir dores em meu ventre, e nossos encontros terminaram... Para depois de seis meses termos nossa linda ciganinha de cabelos cor de ouro, olhos claros como o céu, pele branca como o leite, e tão graciosa...
Tive pouco tempo junto a ela!
Após eu ter a criança, nossos pais não sabiam o que fazer, como esconder a respeito daquele escândalo, do filho herdeiro do seu império ter um bebê com a cigana mais nova da família de serviçais...
Ele teve um ataque de fúria!
Disse que sumiria comigo e que eu nunca mais voltaria a ver minha menininha novamente!
Escrevo na esperança de algum dia você saber o quanto a amo, mesmo que tenha estado próxima pouco tempo, e que seu pai disse que me levaria para longe, no mato, me mataria enforcada, espedaçaria meu corpo, e enterraria, para jamais ser encontrada novamente!
- Isso é uma carta? - Perguntei, mesmo já tendo meia certeza de que sim era a resposta.
- Você prestou atenção? - Perguntou friamente, rebatendo sem responder a minha pergunta.
- Então... Jacobs não era irmão dela e sim pai? Como eles esconderam tudo isso? Como conseguiram? E... Por Deus, como sua família teve estômago para aturar tudo isso, perder os familiares, perder Angela e... Não fazer nada? - Minha voz muito áspera e eu estava indignada.
- Bem, ai é que a história virou! Como a menina não havia ganhado nome e tinha a beleza do lado da família do pai, além da graça deles, e como ele era muito jovem e não era casado, seus pais, Eleonora e Harry, avós paternos da menina, a adotaram como filha, mesmo doendo não contar a verdade para ela sobre quem era, ela cresceu pensando que eles eram seus pais, e seu verdadeiro pai, seu irmão muito mais velho! Da para acreditar nessa invenção para todos que não sabem da verdade e os conhece, observe!
Eu olhei para o salão novamente, e podia ver: Enquanto os pais olhavam amorosamente para Margareth e cuidavam zelosamente dela, o seu verdadeiro pai apenas a observava e procurava apenas proteger de longe, como um irmão mais velho faria por ela!
- Coitada! Pensa apenas que tem sobrinho e um irmão mais velho, quando, na verdade, o menininho é irmão mais novo dela... - Senti certa tristeza em dizer aquilo, como se eu, de alguma forma, me encaixasse naquilo, e não sei como.
- Agora sabe a verdade!
- Mas e a sua família? O que fizeram? - Perguntei, com uma curiosidade que, de repente, parecia querer me consumir.
- Minha bisa, Marlene, irmã de Angela, sabia de certas "coisas" que ocorriam nessa casa, era muito curiosa! Ela descobriu dos surtos que vem de gerações passadas na sua família, de homens que tinham surtos psicóticos quando estavam com raiva e nada continha sua fúria! Antes eles controlavam bem, mas depois de muitas gerações, foi criado um tratamento, e muitos deles que vinham perdendo o controle, pois cada geração se enfraquecia mais por usar menos força, conseguiu voltar a controlar. Alguns nem ao menos apresentaram uma vez sequer sinais da fúria descontrolada, como Harry Baumtos, e outros que, sem tratamento eram um perigo até para si mesmos, como Jacobs Baumtos. Um assassino frio mas, com muito poder nas mãos. E Marlene era praticante de magia e simpatias! Ela tinha desenvolvido muita habilidade desde criança. Usou a doença genética da sua família contra ela mesma! Aquela força passaria a trazer alguns consequências desastrosas, tristeza, e separação da família, caso não houvesse amor. E, claro, eles ganharam muitos inimigos depois que Jacobs assassinou um líder político com esse poder, e teve em troca, a fúria eterna da família daquele homem contra a sua, até os últimos descendentes de cada lado! Cada pista que deixassem, eles caçariam os homens cruéis da família, pois era apenas entre homens que se passava esse sangue sujo.
- Como pode isso, apenas homens? Mas e Meg? E eu? E as outras mulheres?
- Meg teve sorte, pois foi a 1º mulher da geração com sangue fraco que não mostrou um sinal sequer e morreu cedo! Você veio depois de 4 gerações, o sangue muito fraco!
- Me... Meg morreu? - Fiquei abismada.
- Sim, você vai descobrir isso logo!
- Mas, quantas mulheres tiveram esse sangue? E minha avó?...
- Ela apenas recebeu o nome! Era adotada! Você e Margareth foram as 2 únicas mulheres da família em mais de 20 gerações, que incluía apenas homens, principalmente filhos únicos! E o filho mais velho é quem sempre apresenta os sinais mais fortes!
- Eu sei... Sou filha única... - Falei tristemente.
- Na verdade... - Dyeiden começou a falar, mais foi interrompido por uma batida na porta, nos deixando sobressaltados.
- Vamos embora, não temos mais nada para fazer aqui...
- Mas... - Tentei protestar, mas ele me puxou pelo braço e me arrastou para trás de uma cortina.
Já escurecia, e pela janela se via um pedaço da escadaria na lateral da casa, onde conseguimos ver o amado de Meg saindo correndo pelas sombras para o celeiro, com ela ao pé da escada, a fraca e amarelada luz do salão deixando seu contorno em um amarelo esbranquiçado, parecendo uma porta na entrada, a diferença era que ela estava dando adeus para ele.
- Vamos logo, quem estava aqui já deve ter ido. - Me puxou de trás da cortina, abriu a porta e, cuidadosamente, me levou para o andar de cima.
Entrando, me deu o braço, fechou a porta, e me levou correndo contra o enorme espelho na parede, que começou a tremer e brilhar, nos esperando, e tudo ficou escuro.




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