Os nossos colegas não estavam em aula, mas, sim, na sala de testes, junto com os meninos que eram da banda da escola e tocavam bem! Alguém estava cantando em cima do palco pequeno que eles tinham. Deveria ser alguém fazendo teste também, pois havia uma professora olhando atentamente para o rapaz que estava em meio aos instrumentos, parecia tímido, mas cantava muito.
Após ele sair, entrou bruxélya, que se achava o máximo no palco! Ela subiu se sentindo toda poderosa, pensando que realmente arrasava corações, mas... Ninguém prestava atenção nela, muito menos os professores, somente queriam ouví-la cantar. Ela ficou muito vermelha ao notar que não prestavam atenção nela, mas que todos cochichavam pelos cantos e a olhavam. Ela começou então a cantar, parecendo que isso podia mesmo aliviar um pouco do seu stress. Mas preciso admitir, mesmo que não queira... Ela canta bem! Mas como é Célya... É claro que vai ter certa arrogância e superioridade enquanto cantava e olhava para todos.
Depois entrou um garoto mui bagual, todo pilchado, com uma bombacha tão grande que ficava solta na cintura, e ele arrumava no lugar o tempo todo. Com uma boina meio caída para o lado e uma camisa do piquete dele toda marcada com poças de suor nas axilas e nas costas, o que mostrava que ele estava nervoso, com medo de errar a letra.
- Vê se não desmaia aí em cima! - Gritou Célya para ele, com ar debochado e deliciado com o constrangimento do garoto. Ele começou a respirar fundo algumas vezes para se acalmar, pois tremia muito que parecia que iria ter um chilique igual as patricinha quando uma barata cruzou perto delas no corredor.
Mas, no momento em que começou a cantar, mesmo muito nervoso, agitou quem estava esperando para fazer testes e, como não seria surpresa, alguns correram para a frente do palco gritando, e quem tinha com quem dançar, já ia dando alguns passos.
Foi uma agitação só, pois quase ninguém cantava mais as músicas gauchescas na região, além dos rodeios e em piquetes, claro.
Após a apresentação, ele pôde relaxar, pois todos gostaram tanto que aplaudiam, gritavam e assoviavam para ele, que até a professora que selecionava os alunos estavam com um grande sorriso nos lábios avermelhados e dando palmadinhas, tocando de leve os dedos da mão esquerda na palma da mão direita.
Os próximos subirem eram um casal, que não se desgrudava nem largava as mãos, parecendo que haviam amarrado aos mãos com um fio que ninguém podia ver, mas estava ali... Tudo ficou em estilo muito romântico, quase enjoativo.
- É você aí! - Apontou em nossa direção. - Você mesma, ruiva! - Rose apontou para si mesma com uma expressão assustada. A professora confirmou e ela subiu no palco, olhando para mim, como que pedindo "socorro". Pegou um violão no palco, falou algo para os meninos da banda, posicionou-se e começou a tocar.
Por fim, a professora olhou para mim, e falou alto:
- Agora, a última, você aí, cabeça de arco-íris! Venha até aqui é cante uma para nós. - Falou, apontando para o palco. Fui andando devagar, passei pela vaca da bruxélya, que colocou o pé no caminho para eu tropeçar. Como se isso funcionasse. Faziam tanto isso comigo no reformatório e na minha antiga escola, que já percebia logo. Quando tropecei, o pé que levantei para trás, puxei rapidamente para frente, girando o corpo e andando para trás fazendo pose para ela.
Subi no palco, e é claro que arrasei com a cara dela.
- Marcos, Célya, Dionatan, Hilary, Rose e Kath. Vocês serão organizados como banda a partir de agora e até quando eu quiser, para tocarem juntos. Rose, vou separar você somente para o violão e segunda voz. Você toca bem, mas sua voz é fraca. - Ela fala rápida e precisamente, sem mentir, sem esconder - Kath, você canta com o coração e com fúria, quero que dê tudo de si. Célya, você pode se juntar a Kath, tem a voz forte e muito sedutora, tem bom controle, então podem treinar música juntas e também separadas, Hilary... - Eu não escutava mais. Não acredito que vou ter que cantar junto com essa patricinha cheia de si... E isso tudo só hoje, pouco depois da nossa briga! Essa professora é doida! Olhei com raiva para Célya, que me olhou com desprezo, empinamos o nariz, cruzamos os braços e viramos de costas uma para a outra.
- Não pode ser! Não vou cantar com você! Você é irritante demais! - Reclamei a ela.
- Eu é que não vou perder meu tempo e minha bela voz com você, monstrinho! - Dizia, toda cheia de si.
- Até onde eu ouvi uns cochichos no corredor, você não deveria estar na escola agora, certo? - Pergunto, tentando confirmar uns murmurinhos enquanto vinha para cá.
- Todos os alunos tem o direito de fazer os testes, e assistir as aulas até o último horário quando ganham suspensão! - Confirmado o que eu suspeitava. Ela se vira, aperta os olhos, e fita-me, desconfiada. Então pergunta - E você? Como conseguiu esconder estas marcas que eu talentosamente deixei no seu rosto? - Ela cutuca minha bochecha com o indicador, provocando minha ira, deixando bem claro sobre o que ela fala. Dou um tapa na sua mão quando está afastando do meu rosto. - Você não me dá medo Célya. Na verdade, até certa repulsa! - Ela contorce o rosto a medida que vou falando - Tenho pena dos seus pais e da sua tia, que devem dar um duro danado e se preocupam com você, e você aí, fazendo escândalo, arranjando briga, sendo suspensa, dando uma de piriguete... Que feio! - Balanço a cabeça, fingindo desaprovação pelos atos dela.
- Você se acha muito esperta, não é, Kathlyn? É uma idiota! O que você sabe? Por acaso pensa que todos adoram você mais do que a mim? - Droga, ela está com aquele sorriso cruel de novo!
E antes que ela possa começar a abrir o gargalo, a professora chama nossa atenção, voltando-nos juntas para ela.
- Ora, pelo que vejo aqui, Célya está de suspensão a partir do fim desta aula! Então, sendo assim, vocês duas não poderão ensaiar juntas, pois só é permitido quem está em dia com a escola e sem problemas.
Vitória! Ela está fora do jogo por enquanto, me deixando livre por um tempo da sua carinha excessivamente pintada como um arco-íris e sua voz irritante, sem falar de suas humilhações e afrontas.
- Então, Kath, terei de colocar você para ensaiar com Harina Hilary Xeng, que tem o nível de voz muito parecido com a sua. - Ela aponta para a garota parecida com a Joan Jett. Ótimo. Se não nos dermos bem, vamos nos matar!
Enquanto eu ia na direção dela para cumprimentá-la, notei Célya saindo da sala acompanhada por uma garota do E.M. Ela me olhou com raiva e me mostrou o dedo, indicando que estava esbravejando por dentro. Bem feito.
- Harina, que bom que pude ficar com você!
- Ora Kath, qualquer coisa é melhor do que ficar com aquela loira oxigenada lá.
- Verdade! Quando poderemos ensaiar?
- Pode ser amanhã, com todo mundo reunido no pátio.
- OK!
Sua voz não revelou muita coisa, mas, assim que saí, Rose agarrou-se no meu braço e começou a falar.
- Nossa, eu fiquei tão nervosa lá em cima, pensei que iria desmaiar. Pena que não nos colocaram juntas para cantar, mas sei que vou poder ajudar. Como você se sentiu? Você arrasou com a Célya, ela é uma vaca mesmo! Você nem percebeu, mas o Dyeiden estava encostado na porta, vendo você cantar. Os olhos dele até brilhavam. Às vezes acho que ele é muito apaixonado por você, só tem medo de demonstrar! Porque será que despensou você? Deve haver um motivo muito forte! Não quer uma carona para ir para casa? Hoje a minha irmã está disposta a dirigir e vai vir me buscar... Mas se prepara, que ela é uma barbeira. Vamos ao cinema outro dia? - Olho surpresa para ela. Como é que pode caber tanta palavra numa boquinha deste tamanho, com uma criatura que é tímida mas, sob pressão e muito nervosismo, é três vezes pior que um papagaio! Mas... Espera um pouco
- O que você falou sobre o Dyeiden? Ele? Afim de mim? Se gostasse mesmo de mim, ele não teria me tratado daquela forma...
- Mas ele vive atrás de você!
- Porque ele é meu "segurança"!
Ela andou um pouco mais rápido para poder ficar de frente pra mim, andando de ré.
- Pára mina! Ele gosta de ti, tu querendo ou não! - Ela para e engancha o braço no meu novamente. É bem baixinha, pois o topo da sua cabeça bate no meu queixo, e olha que não sou alta. Mas, agora, nós duas vamos pra frente da escola, a "motorista perfeita" da minha irmã já deve estar nós esperando... Só espero que não tenha sido presa novamente por atropelar um aluno quando foi estacionar... Da última vez ela trocou a ré pelo acelerador e passou por cima de um carinha do 1º ano! Proibiram ela de aparecer aqui por 6 meses e ainda pagar multa! - Ela fala de forma muito séria e preocupada, o que me faz rir muito. Minha amigas são loucas!
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Quando chegamos na frente da escola, a irmã dela estava na frente do carro, distraída. Ao nos avistar, seu rosto iluminou, abriu um largo sorriso e começou a abanar para nós, como se estivesse segurando o mastro de uma bandeira.
- Caramba, finge que não é com nós enquanto estamos longe, minha irmã só me faz passar vergonha... - Rose fala, abaixando a cabeça e fingindo que não é com nós. Obedeço, fazendo o mesmo, até estar em frente ao carro.
Ele está tão bem estacionado que o pneu dianteiro direito está em cima da calçada, seguido de mais da metade da frente do carro e a traseira do carro quase trepado em cima do carro que está atrás. É constrangedor ir até ali.
- E aí meninas? Vamos logo, ok? Eu preciso fazer o almoço depois! - Falou, abrindo a porta para entrarmos e dando a volta no carro.
- Deus nos ajude, porque hoje a polícia não tá batendo por aqui! - Diz Rose, parecendo que vai desmaiar de tão pálida ao entrar no carro.
- Muito bem, ponham o sinto e segurem-se! - Colocamos o sinto em segundo e nos agarramos no teto e nas portas do carro. Ela arranca com o carro, enquanto gritamos como se estivéssemos sendo sequestradas, Rose e eu. A viagem de meia hora até minha casa se reduz assustadoramente em sete minutos tenebrosamente inteiros. Ela passou dando pau no carro na estrada de chão, que estava embarrada, devido um chuva que caiu na noite anterior. Trepou por cima de gramados com cercas, quase bateu em dois postes de luz e acho que matou a vaca que ela atropelou quando desviou de um cratera na qual poderia ter caído um meteorito de tão grande. Rose já chorava faltando dois metros para chegarmos na frente da minha casa. Ela estava vermelha e ofegante, e eu me sentia igualmente desesperada, se não mais, mas me controlei. Quando o carro parou, soltamos o sinto e saímos. Eu saí toda dura como uma múmia, devido ao excesso de tensão no meu corpo; Rose pulou do carro chorando e se jogou de joelhos no gramado, nem se importando de molhar o cabelo na umidade do resto de chuva.
- Linda sua casa Kathlyn! Deveríamos fazer um piquenique aqui qualquer hora. - Falava Carol empolgada, nem percebendo o estado em que nós nos encontrávamos.
- S-Sim, obrigada Carol! - Falei, meio sem fôlego.
- Vamos, maninha! O almoço não irá se fazer sozinho, Rose! - Chamou Carol, sentindo-se nas nuvens.
- Claro que pode ficar pronto sozinho! Porque acha que existe comida pronta? - Replicou Rose, sem fôlego e verde de tanta náusea.
- Entra logo no carro! - Manda Carol.
- Até amanhã, Kath! - Ela entra obediente, com expressão desolada.
- Até...
Quando Carol ligou o motor e deu a partida, já na segunda marcha, fazendo o carro tossir e galopar, Rose já estava de sinto, agarrada na porta, olhando para mim com desespero e gritando de forma que as vacas no banhado começaram a correr... Eu ri um pouco e entrei em casa, me sentindo um pouco melhor e com pena da minha amiga.

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