Lista de Músicas

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Pass X Fure Capítulo 7: Conhecendo um pouco mais os amigos

Eu estava um pouco tonta por conta daquela confusão no banheiro. Estava no colo de Dy quando comecei a abrir os olhos de novo, sentindo o balanço de seus braços enquanto todos corriam. Minha bochecha esquerda está ardendo bastante. Mas que droga aquela guria doida, fez um arranhão perfeito no meu rosto com aquelas unhas, que são longas e afiadas. Isso está doendo, pois o sangue ainda escorre. Pus a mão no rosto e fiquei com minha mão toda suja, quando a afastei. Notei que o balanço estava cessando e senti o soco oco nas costas, e todos pararam em um lugar com paredes altas. Eu não enchergava direito porque meus cabelos estavam no rosto, cobrindo quase completamente minha visão. Dyeiden tirou um pouco dos meus cabelos dos olhos usando as pontas dos dedos, passando-o delicadamente, me despertando novamente para o mundo real.
- Onde estamos? - Perguntei espreguiçando-me.
- Estamos perto da lanchonete, no centro da cidade. - Disse Dy, colocando-me no chão, mantendo suas mãos perto dos meus ombros, para o caso de eu acabar caindo.
- Quantas quadras fica da escola? - Perguntei, ainda zonza e confusa, procurando ter noção de localização.
- Mais ou menos umas 10 quadras. - Falou Rose, pensativa.
- O QUÊ? 10 QUADRAS? - Não conseguia acreditar que Dyeiden havia me carregado no colo por 10 quadras. Não que eu fosse pesada nem nada, apenas 50 quilos bem distribuídos, para um garoto aparentemente forte para ele não deveria ser nada, mas era longe demais, mesmo correndo.
- O que foi? Não sabia que a escola era longe do centro? Não somos a unica escola da cidade, sabia disso? - Brincou Judith, fazendo pose de sabichona para provar superioridade comigo.
- Eu sei disso, mas não fomos pouco um longe demais para uma confusão como aquela? Ainda que minha mãe havia comentado que o escritório que ela trabalha é bem perto da lanchonete.
- O quanto exatamente? - Perguntou Rose.
- Mais ou menos? Eu acho que estamos atrás dele. - Disse Dyeiden, apontando para um prédio, que dava para os fundos do beco, no qual nos encontrávamos escondidos.
- Porque é que viemos nos esconder aqui? - Perguntei, ficando irritada.
- Porque foi o melhor lugar que encontramos em 3 quadras e meia, um beco fechado sem lixo para todos os lados. - Justificou Dyeiden.
- Para de dar chilique como uma patricinha Kath! - Disse Judith, aproximando-se e me dando um tapa no rosto, do lado menos machucado. Aquilo me encheu de raiva.
- Qual é a tua, guria? Ta querendo briga de novo?
- Você anda muito chorona! Nem parece aquela garota fechada e que se defendia bem que conheci alguns dias atrás.
- Então vem aqui, que mostro como sei brigar bem. - Disse, mostrando meus punhos para ela.
- Perda de tempo! Não vou brigar com você, está toda machucada. - Disse Judith, apontando para meu rosto sujo e todo marcado.
- Gurias, por favor! Parem com essas provocações! - Pedia Rose, as mãos levantadas perto do rosto, com medo de começar ali outra briga e sobrar para ela.
- Tá legal, chega! Vamos indo, temos "coisas" a fazer! - Disse Dyeiden, virando e saindo para a rua.
- O que seriam essas coisas? - Perguntei, chateada por ser cortada e tratada daquela maneira, como uma verdadeira idiota.
- Você vai ver Kath, mas acalme-se um pouco, ok? Não dá pra conversar com você irritada dessa maneira! - Dyeiden me jogou aquela verdade na cara, com um sorriso doce e irônico ao mesmo tempo. Não percebi antes o quanto aquela megera tinha feito eu sair fora de mim novamente, mas, eu podia orgulhar-me pelo menos de uma única coisa, que era a de ter brigado sem desmaiar, perder o controle ou ficar esquisita novamente.
Eu os segui por quase duas quadras, passando por uma biblioteca municipal, uma quadra de futebol, uma lan house e, finalmente, chegamos em outra lanchonete. Não sei porque todos foram lá, somente que eu deveria segui-los. Entramos e nos sentamos em uma mesa no fundo, para termos privacidade para conversar. Pedimos sanduíches e sucos. Enquanto esperávamos, fui fazendo algumas perguntas as minhas colegas para conhecê-las melhor.
- Vamos Rose, me conte um pouco sobre você... Sobre mim, vocês já devem saber o bastante!
- Está bem Kath... É bom você ir nos conhecendo mesmo, para saber que talvez não sejamos tão diferentes de você, afinal! - Rebateu Rose, encolhendo-se no assento, como se estivesse com medo de algo.
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- Bom, vejamos. Eu sou a 2º filha de uma família de 4 filhos, 2 gurias mais velhas e 2 piazinhos. Tenho minha irmã, Carol, de 19 anos, eu de 15, Jev de 10 e Chris de 7. Eu gosto de música, artes, não sou muito chegada a esportes e nem me chame para baladas, mas se tiver um rodeio, pode apostar que eu vou ir assistir. Minha irmã trabalha com o papai no escritório de contabilidade dele, eu somente estudo e ajudo minha mãe em casa e ajudo ela a controlar o moleque do Jev, que não tem um único dia que não quebra algo em casa. Nesse momento, ele deve estar assistindo TV e derramando o leite com nescau no sofá, que mamãe acabou de arrumar... - Disse, enquanto olhava no relógio digital da tela do celular, que marcava 9:30 da manhã. - Meu irmão Chris, por incrível que parece, não tem nada de parecido com Jev. Super calmo, realmente tranquilo, faz suas tarefas sem se queichar, conversa com as pessoas de modo a compreendê-las... Acho que ele tem vocação para psicólogo. Mas... - Ela encolheu-se, olhando as mãos com uma mistura de medo e apreensão - Papai acha que o "jeito" dele é muito fresco - Disse, dando enfase a palavra fresco com a voz mais fina e dobrando a mão como as donzelas fariam antigamente - Que não é jeito de um menino se comportar normalmente. Só porque ele tem um jeito um pouco delicado, isso pode não significar nada, não é? - Ela olhou para cada um de nós, com o olhar um pouco desesperado - É, isso pode não ser nada. Meu pai é doido! Outro dia, quando Jev derrubou um copo grande de vidro cheio de achocolatado no chão, o Chris gritou " deixa que eu limpo". Pegou um pano, se ajoelhou ao lado da bagunça e foi limpar. Só porque meu irmão fez alguns gestos um pouco "leves", meu pai levantou ele pelo colarinho, tirou a cinta e deu uma surra no meu irmão, na frente de todos, gritando que ele deveria virar homem de uma vez, que aquelas manias eram femininas e que ele era um viadinho... - Rose ficou em silêncio por alguns segundos, respirando fundo para conter as lágrimas - Carol agarrou a cinta dele com uma mão e o braço dele com a outra, falando para ele se acalmar e deixar meu irmão ir para o quarto, se colocando entre os dois para proteger Chris, mas papai estava tão furioso que a jogou contra a estante da TV e ela caiu por cima da mesinha de centro que é vidro. Já dá pra saber o que aconteceu com ela, não é? E meu irmão que estava caído no chão apoiado nos cotovelos, chorava em silêncio, morrendo de medo de chorar alto e a surra ficar ainda pior. Eu podia ver os olhinhos dele brilhando de um medo profundo que doía no meu coração. Eu corri e me joguei em cima dele para protegê-lo. Ele agiu como um verdadeiro homem, me dizendo que não tinha o porque de eu o proteger, pois, se ele havia feito algo errado, deveria receber sua punição como o pai escolhia. - Ela baixou a cabeça com as lágrimas escorrendo dos olhos, com a dor que a lembrança lhe trazia - Nunca vou esquecer de como meu irmão foi corajoso e ingênuo naquele dia, pois acreditava ter feito algo errado e por isso estava recebendo uma punição, quando, na verdade, papai estava batendo nele por medo de seu medo virar realidade. Ter um filho gay! Ele tem um preconceito terrível, sempre ouvíamos ele falando "aqueles viados nojentos poluem o nosso mundo" e todo o tipo de barbaridades possíveis, mas ninguém lhe dava atenção, pois ele apenas falava em ambiente familiar, sem muita convicção, nunca havia tentado fazer nada contra ninguém... Mas mudou drasticamente seu comportamento naquela manhã. Ele foi tão cruel, que minha mãe, que não aguentava mais aquela violência contra nós, parou na frente dele com os braços abertos e gritou para ele "se você quiser machucar meus filhos novamente, vai ter que passar por cima de mim e de meu cadáver, o que sei que você não ousaria fazer." Ele pareceu se acalmar, arrumou a roupa e saiu para a rua... Jamais pediu desculpas ao Chris, o que dói em toda a nossa família até hoje. - Ela havia secado as lágrimas e parou de chorar, sentindo-se melhor por terminar com a história, parecendo tirar um grande peso dos ombros.
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- E como é que a sua família tá agora? E o Chris? - Perguntei devagar, preocupada com ela.
- Estão todos bem, quero dizer, não como antes, mas papai não surtou novamente! Ele só não gosta quando meu irmãozinho age daquela maneira, ele... Ele o ignora nesses momentos. - Falou com o olhar um tanto perdido e os olhos vazios.
- Entendo! Sinto muito por isso! - Disse sinceramente, e ela apenas deu um aceno de cabeça.
- Judith! - Eu disse, olhando-a de canto para que entendesse o que eu queria dizer.
- O que? Não! Eu não vou falar moleca! O que é que você quer saber da minha vida, hein? Não tem nada de interessante! - Judith inventava desculpas para conseguir fugir do assunto, mas eu sempre fui insistente.
- Ora, vamos Judi... De mim você não escapa! - Disse, fazendo uma cara de medonha para ela.
- Não, não vai me convencer, sua doida! - Rebateu, de forma infantil.
- Vai logo! Ou eu vou descobrir pelos outros, e garanto que ninguém vai me contar a verdade sem adicionar uma pitada de exagero inventado, para a história ser mais emocionante. - Falei, piscado para ela e aproximando o polegar e indicador, formando um pequeno espaço, simbolizando quantidade para ela.
- Sua camaleoa com peitos e lápis de olho irritante!
- Nossa, de onde foi que tirou essas palavras tão inspiradoras? - Perguntei com ironia.
- São algumas manias da minha irmã mais velha! Ela inventa palavras!
- Sei! Me conte mais... Quem sabe eu possa contar um pouco sobre mim... - Falei, tentando parecer distraída, para deixá-la mais interessada em se abrir comigo.
- Oras, você sabe mesmo negociar guria atrevida! Muito bem, combinado então! Eu conto sobre mim e você nos conta em detalhes sobre você! - Falou maliciosa, com os olhos brilhando.
- Fechado! - Estendi a mão apertando a dela, fazendo o trato, sem muita convicção, para ser bem sincera.
- Então, vamos começar! - Disse ela.
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- Eu venho de Porto Alegre, moro aqui desde os 10 anos, tenho uma irmã mais velha de 18 anos chamada Rebeca e uma mais nova chamada Amélya, de 12. Meu pai trabalha com a empresa de cosméticos da cidade e minha mãe é uma das melhores vendedoras daqui. Minha irmã mais nova é muito tímida, quieta... As vezes penso que ela foi adotada quando eu era criança ou trocada na maternidade, porque aquilo é uma lesma... - Disse, a cabeça bem longe com o pensamento - Beca já é muito diferente, é muito agitada, extrovertida, vai a todos os bailes, festas e boates que saem aqui e sempre se torna o centro das atenções, 1 - Porque ela dança muito e 2 - Porque faz unas cocitas lá que, bem... Chamam atenção demasiada somente para ela. Se for em uma festa que ela estiver, não espere para ser o centro das atenções, porque nunca conseguirá! - Avisou - Eu as vezes fico constrangida perto dela, está certo que sou agitada e tudo o mais, adoro ver uma confusão... Mas nada se compara a minha irmã! Era para eu ter um irmão mais novo, Diones, mas ele morreu afogado na piscina dos meus avós com 3 anos, quando estávamos brincando e quando entramos para assistir TV, ninguém notou que ele não havia entrado e só o vimos quando caiu na piscina e parou de se mexer. A mãe de Rose é enfermeira e a família dela havia ido lá em casa para passarmos o domingo juntos, afinal, tínhamos quase todos a mesma idade e a irmã dela é super amiga da minha. Ela ainda tentou fazer massagem cardíaca e tudo no meu irmão, mamãe histérica chamando a ambulância e nós, as crianças, trancadas dentro de casa para não atrapalharmos e desesperarmos os adultos. Depois disso, nem preciso contar, é claro. Minha família também nunca mais foi a mesma, tudo ficou mais complicado, minha irmã era mais tranquila, mas de uns tempos para cá... Eu achei maconha escondida no armário dela e sob o colchão dela. E... Ela tem saído a noite e deixado avisado que vai voltar tarde. Só eu vejo, ela sai com um sobretudo comprido, até no calor, faz meses, e por baixo sai com lingeries das mais escandalosas que existem. Minha suspeita vem a partir daí, porque ela não tem um namorado. Eu sei porque mecho nas roupas dela, sem tem um perfume masculino diferente. Nada de uma número especial no celular... São vários. E as roupas? Uma lingerie mais espalhafatosa que a outra, que todos os tamanhos e tipos de enfeites imaginados. Até de seda tinha uma outra dia, quando fui mexer depois dela sair... No início não acreditei, mas a conta bancária dela está a cada dia com o saldo mais alto, em um dia tem R$3.000,00 e no outro já tem somente R$400,00, e sei que não é somente em lingeries que ela gasta o dinheiro... Minha irmãzinha outro dia quase descobriu o segredo dela, mas tive que obrigá-la a esquecer, afinal, é para nossa proteção e para não magoar mamãe e papai, que dão um duro danado trabalhando por nós três. Por incrível que pareça, já fui parar sim em um reformatório e, por muito pouco, quase levo Amélya comigo, porque, em uma noite que precise ir atrás da minha irmã, encontrei ela em um cabaré de baixo escalão, dançando para um homem grandão e uma mulher muito pequena. Quando entrei lá, no reservado em que eles se encontravam, minha irmã tentou me fazer ir embora. Eles não reparam nesses lugares se entra uma criança pequena, pois muitas daquelas mulheres tem filhos dos clientes e, depois dos 4 anos, as crianças ajudam servindo bebidas e levando os pedidos aos reservados. Sendo assim, estão protegidas contra qualquer outro tipo de coisa. Quando ela me levou para fora, eu disse que não iria embora porque precisava dela, e o casal veio atrás de nós reclamando por ela ter parado a dança para expulsar uma criança de lá. Ela disse que logo voltaria e que estava resolvendo um problema com a irmã, mas o homem puxou-a com força pelo pulso, levando ela para dentro, a mulher seguindo-os. Quando ela foi se soltar, o homem sacou uma arma e iria atirar nela, mas eu entrei no meio deles e tomei a arma da mão dele, e me afastei, apontando para os dois. Quando o homem jogou minha irmã contra um sofá e vinha para ciam de mim, ameaçando me dar uma surra por interferir na diversão deles. Eu dei o 1º disparo. Nem sei como foi que fiz isso, só sei que fiz... A mulher ficou assustada e o homem surpreso, com o antebraço escorrendo sangue. Foi um ferimento superficial, eu sei disso, porque foi bem acima da pele, pegou de raspão. - Dizia Judith, enquanto mostrava o local do ferimento. - Quando a mulher se aproximou de mim, dizia baixo e calmamente para que eu ficasse tranquila, que não iriam fazer nada comigo, que sairíamos dali sem nenhum arranhão... É claro que eu sabia que isso era mentira. É como aquele livro, a fuga do mundo submerso ou algo assim, ele sempre mentem para te enganar e correr a tua alma, sem pudor, dó nem piedade. Mas eu tremia, tremia de medo, surpresa, pavor, raiva... Enfim, eu só tinha 11 anos e já estava conhecendo várias coisas cruéis de uma única vez, o que não é nada bom. Eu apenas dei um sorrisinho para ela e falei " Você nunca vai conseguir enganar essa garotinha aqui" e... - Ela soltou um risinho meio satisfeito, meio espantado com o que fez em seguida - Eu disparei de novo, para aquela desgraçada calar a boca. Aquela mulher desgraçada estava tentando me dizer o que fazer, mesmo eu estando com uma arma na mão apontando para ela e o marido dela. Nem meus pais nunca me disseram o que fazer. Eu estava tentando proteger minha irmã deles e dela mesma, e aquela desgraçada riquinha metida a besta estava tentando me dizer o que fazer. Eu fiquei com certo ódio daqueles dois e, cometi meu 1º assassinato com apenas 11 anos. Eu disparei duas vezes contra ela, uma no meio do peito e outra no meio da testa, acertando em cheio o coração e o cérebro dela. Ela caiu dura no chão. Ele foi tentar vir me tomar a arma de novo. Eu acabei gritando, gritei muito alto disparei as últimas 3 balas contra ele, mas nem parei para pensar onde tinha disparado, apenas joguei a arma fora, peguei minha irmã e tentei como pude arrastar ela de lá. A esta altura já tínhamos uma bela plateia no local. Alguém havia também chamado a polícia e o conselho tutelar, porque eles estavam na porta esperando nós duas. Depois disso, nossa vida só virou um inferno!
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- Sua vez Kath! - Disse ela, depois de contar um pouco da sua história, suspirando e sem uma única lágrima nos olhos, o que mostrava que ela não tinha arrependimentos por tudo o que fizera, somente o ressentimento que todos dividíamos - O de estarmos vivos ali, com a vida uma bagunça em alguns pontos - E um brilho de curiosidade estava em seus olhos, curiosa para saber sobre a minha vida.
- Mas que droga, porque fazem isso comigo? - Eu disse, cruzando os braços e virando olhar para a rua, que tinha o trânsito tranquilo. Nesse momento, a garçonete chegou com os nossos lanches e, ficamos todos surpresos, quando olhamos para ela e ela não parava de olhar diretamente para mim, espantada. Todos olharam do meu rosto espantado para o dela, igualmente curiosos. Eu também os olhei com curiosidade. Quando ela notou que todos a olhavam tentando entender o que ela tanto olhava para mim, Judith perguntou, com uma voz entre ameaçadora e curiosa:
- Podemos ajudar você com alguma coisa? Ou está apenas procurando algo de errado na nossa cara? - Falou, a pontando para o próprio rosto que, sempre pálido, estava ficando vermelho de raiva. A garçonete apenas apertou a bandeja larga contra o peito com as duas mãos, abaixou a cabeça e voltou para suas tarefas.
- Qual o problema dessa guria? Não sabe que é feio ficar encarando uma pessoa daquela maneira sem dizer nada? Parecia que ela estava vendo um fantasma no lugar da Kathlyn e paralisou! - Dizia Judith, que perplexa com a atitude nada modesta e educada da garçonete.
- Talvez eu saiba o que é! - Disse Rose para mim, tirando uma espelhinho da bolsa e o entregando para mim. Eu olhei no espelhinho e, por um breve momento, parecia estar com pouca maquiagem, os cabelos sem tintura colorida e uma tiarinha... Foi só como um reflexo, pois, quando olhei melhor, eu estava com o olho direito ficando roxo em baixo, um galo na testa e três horríveis arranhões no rosto... Parecia uma verdadeira bruxa! Não surpreende a garçonete ter ficado tão espantada olhando para mim.
Me encolhi um pouco no assento e, com certa decepção, falei:
- Porque foi que vocês não me avisaram antes que eu estava parecendo satanás de saias? - Indaguei, indignada.
- Pensei que você soubesse! - Ignorou Judith, pegando o suco e tomando, recostada no assento. - Você havia olhado no espelho depois dos arranhões, pelo que percebi, depois que eu derrubei aquela garota metida.
- Eu olhei, mas devia estar com a visão embraçada, porque não estava tão ruim assim... - Me defendi, envergonhada porque não olhei direito no espelho antes.
- Ok! Deixa pra lá, depois eu te empresto um pouco de maquiagem que eu tenho em casa, ta legal? - Ofereceu Judith. Eu fiz que sim com a cabeça, agradecida por eles estarem comigo para me ajudar. - Mas, antes disso, eu quero ouvir a sua história, Kathlyn.
- Ei! Eu prometi que contaria, não prometi? Tenha paciência, até porque... - Bebi um gole do meu suco antes de falar - Eu quero ouvir um pouco da história do Dy. Até hoje não sei quase nada dele. - Falei, fazendo carinha de anjo e biquinho, para convencê-lo a falar.
- Essa carinha de anjo, não me engana Kath! - Falou, segurando meu queixo, me fazendo mudar o olhar angelical que tive esforço para fazer para uma carranca muito feia.
- Seu estraga prazeres! Na próxima, eu brigo com você! Agora, conta logo!
- Ok! Ok!
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- Meus tataravós vieram de Portugal mais ou menos em 1870 e foram trazidos para o Rio Grande do Sul junto com meus Bisavós e se instalaram aqui na cidade. Logo eles foram chamados para trabalharem para uma família muito rica na região, e ali formaram raízes. Vinham de famílias que antigamente teriam o sangue cigano, como muitos chamariam aqui, e feiticeiros naturais na Europa. O Senhor que os contratou gostava muito da proteção que eles faziam para a casa e para a família, física e psicológica, eu ficava muito satisfeito, recompensando-os generosamente. Eles receberam uma cabaninha na beira do lado do rancho e ficaram satisfeitos por terem um pouco de terras para plantar. Ficaram felizes aqui. Os filhos mais jovens faziam companhia para os filhos dos senhores, tornando-se seus melhores amigos, conselheiros, espiões e principais serviçais de confiança. A filha mais jovem ficava como dama de companhia da filha do patrão, o filho mais jovem era o mordomo principal da garota. Os dois tinham a tarefa de fazer todas as vontades da jovem mestra deles... As vezes até demais, pois ela gostava de se aventurar de vez em quando. A filha mais velha era a empregada que cuidava de tudo na casa, pois era muito eficiente e super organizada, e o mais velho era o melhor amigo e mordomo do filho mais velho, e ajudante de seu pai também. Houve momentos naquela casa em que se parecia com um conto de fadas, pois tudo era como um sonho real, belo e encantador. Outros era pior que morar em um hospício. Mas eles sempre foram tolerantes com os patrões e sabiam seus lugares. A filha mais velha casou-se com um jovem vendedor de mercadorias e foi morar um pouco mais próxima da cidade, tendo seus filhos e os criando lá. Um de seus filhos cresceu e quis voltar a morar aqui, vindo a casar-se com uma das filhas de um fazendeiro das redondezas. A menina mais velha que nasceu dessa união apaixonou-se e casou com o filho mais velho do filho do jovem mestre da casa de onde sua família se originou ali. Também vieram a ter um filho com pouco de tempo de casamento, foram morar um tempo na Europa para o tratamento da família e depois voltaram. Todas essas coisas ocorreram em apenas 40 anos. Um dos outros criados, a filha mais jovem, serviçal da jovem mestra, casou-se com o jardineiro da mansão, tiveram um filho muitos anos depois, quando estavam quase com 40, e eles eram meus pais. Na época de de dama de companhia, minha mãe tinha 12 anos, foi assim até 16, casou-se, mas eu fui nascer quando ela já estava quase com 40. E no caso, eu sou seu protetor aqui, ou como eles chamavam aqui antigamente, seu fiel servidor, o mordomo. O rapaz que faz todas as vontades da jovem mestra da mansão, mas sempre sabendo seu lugar.
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Logo após sairmos da lanchonete, fomos direto para a casa da Judith, porque eu precisava de muita, mas muita maquiagem mesmo, e com toda a certeza ela teria, pois fazia diversos tipos de pinturas e inventada maquiagens incríveis. E eu estava horrível! Consegui convencer todos a me conhecerem melhor outra hora. Então ganhei tempo para formular uma boa história.
- Não liguem se virem algo estranho ou fora do comum aqui, pois minha família não é muito... Tradicional, digamos assim! - Avisou Judith, ficando muito séria e com ar melancólico.
- Porque diz isso, sua maloqueira? - Perguntei, querendo deixá-la em uma saia justa.
- Minha irmã deve estar em casa agora... Preparar para o combate! - Brincou, falando mais para si mesma.
- Tá zoando né? O que quer dizer? - Fiquei olhando sua nuca, esperando resposta, mas a resposta apareceu na porta da casa...
- Olá para todos, muito bom dia! - Apareceu na porta a irmã de Judith, Rebeca, estendendo os braços no portal e nos cumprimentando de forma muito alegre, com apenas uma bermuda muito, muito curta, que mostrada inteira suas coxas e um pouco mais, que mais parecia um calcinha e um top preto aberto que fazia o perfeito contorno de seu peito, o qual não cobria mais nada.
 -Não deveriam estar na escola agora? O que você fez desta vez para vir escolta para casa antes de acabar o horário escolar outra vez? - Perguntou a Judith, aproximando-se, colocando as mãos na cintura. Judith a olhou e entrou. Pude perceber o porque, e não fiquei quieta.
- Oi Rose querida, olá Dyeiden, como estão? E você deve ser a Kath, não é? Vi você na lista telefônica da minha irmãzinha... - Eu apenas a olhei da cabeça aos pés, demonstrando minha desaprovação, e falei com tom desdenhoso: - Você não sabe mesmo se vestir mais decentemente? Depois não sabe porque Judith a ignorou! - Falei e passei direto por ela. Não estava de bom humor!
- O que aconteceu com ela? Parece minha irmã... E aquele rosto? Parece que se envolveu em uma briga...
- E se envolveu! Foi a maior confusão! - Disse Rose, que estava entrando.
- Toma! Aqui tem base, pó compacto ou qualquer outra coisa que você queira passar nessa cara... Que tá horrível! - Disse Judith.
- Está bom, obrigada! - Agradeci, indo para o espelho e passando todos aqueles produtos para cobrir aquela marca, pois, se eu chegasse em casa com AQUILO TUDO aparecendo, minha mãe iria charopear até dizer chega!
- Vamos comer um lanche, meus amores! Vou fazer torradas e sucos do que vocês quiserem...
- Já comemos na lanchonete! - Disse Judith rapidamente, cortando Rebeca.
- Ok então! Fiquem a vontade! Mas me avisem se forem sair! - Falou Rebeca, enquanto saia do quarto sem se abalar com o que a irmã dizia.
- Que mala! - Reclamou Judith.
- Me pareceu bem legal na verdade... Só meio exagerada! - Falei, sem contrariá-la muito.
- Meio? MEIO? Kath, ela aprendeu com o tempo a ser super falsa! Isso nunca foi ela na verdade! Minha irmã era tranquila e não ignorava o que acontecia! Agora é essa aérea que finge estar feliz perto dos outros, mas está em uma depressão terrível por não ter dinheiro para comprar drogas e não deixar que ninguém a ajude. - Ficou com uma expressão muito triste de repente, com um brilho genuíno de perda no olhar, que mudou rápido ao notar que eu a observava, e foi logo soltando as patas de novo. - Tá olhando o que? Não deveria estar cobrindo essa carinha de boneca de porcelana quebrada, meu bem? - Falou com certa ironia e raiva na voz, fazendo um bico, mas mudou quando notou que eu e Rose a olhávamos apreensivas, sem saber a reação certa para o cataclismo. - O que foi? Parece que estou assustando vocês! Estou mesmo? - Ela cruzou os braços, rindo. Um sorriso arrebatador e sedutor, apenas para diminuir a tenção e mostrar que estava divertindo-se com a situação.
- Err... A gente pode ir agora? Eu tenho tarefas para fazer... - Disse Rose, com a voz fraca, ainda tomada pela apreensão sobre a reação certa.
- Que tipo de tarefas? - Perguntou Judith, chegando perto e com um tom muito desconfiado.
- Os deveres então, já que você tem tanta dificuldade em entender o que digo! - Levantou-se, parecendo furiosa. Mas não estava. Sua mão tremia de pavor e o que parecia raiva por sua falta de controle e coragem.
- Se quiser, eu posso te ajudar! - Falei, ignorando as duas se encarando como duas rivais. Fiquei entre as duas, de costas para Judi e de frente para Rose.

- Pode me ajudar? As tarefas de matemática e história estão difíceis para mim! Podem dizer que as loiras é que são burras, mas cor do cabelo não define nada! Eu sou ruiva e meu cérebro não funciona bem! - Justificou-se ela.
- Tudo bem, eu consegui entender bem as tarefas! Não se preocupe, eu vou ficar calma para te explicar! - Rose concordou e as duas foram sentar na cozinha, mas nem assim teriam muita privacidade. Rebeca estava dançando na sala de forma muito estranha, o que chamou a atenção de todos lá dentro. Quando resolveram ignorá-la, Rose perguntou de forma rápida, para não perder a coragem, pois era muito tímida as vezes: - Kath, está doendo? - Ela apontou para a bochecha de Kath, que agora tinha apenas uma marquinha pequena, onde antes eram grandes marcas de unha. - Não, não está doendo mais! - Respondeu Kath, com um sorriso amistoso, o que tranquilizou Rose e as permitiu concentrar-se para os estudos.

- Como são difíceis esses trabalhos. Caramba! Eu não sei mesmo fazer aquelas transformações nas contas! E a redação? Como é que eu vou saber onde se deve ser pontuado se é a tarefa da professora fazer isso? - Perguntava Rose, em sua total ingenuidade e falta de atenção em algumas matérias.
- Você aprende com o tempo! Eu também custei um pouco para aprender essas coisas! - Falei para encorajá-la, mesmo que não fosse bem verdade.
- Sei... Você é um gênio, como poderia demorar para aprender? - Perguntou, um pouco desconfiada com o meu argumento.
- Err... Vamos para a escola. Eu quero fazer o teste para a banda da escola e soube por Judith que eles fazem testes separados de performance para quem não teve tempo de ir no horário. Acho isso ótimo! - Falou Kath rapidamente, fugindo do assunto.

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